terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Ainda que cedo

Dos fones nos meus ouvidos, nenhuma música. Só o silêncio, que abafa o barulho. O chão é meu ar e por aqui que meus pensamentos voam, terrenos. Penso que me prendo e que a saída é nao pensar, nadar. Quase nenhuma vontade de nadar contra corrente, mergulho. Me deixo levar, em resistência de quem flutua rio a baixo. Me leva a rotina, que me suga o desejo de. dessa coisa toda que chamam de juventude. Cadê? Sei que há vida em cada canto, por detrás da paredes, vida. Nos canteiros, nas montanhas que ainda não vi, vida. Por metros de oceano, extensões de campos e mesmos nos tijolos, na lama, nos terrenos sem donos, vida. Nas peneiras, nas piabas, nos pés descalços, na leitera da velha vó, vida. Em quase toda forma de música. E em tudo o quanto clama, perto e longe. Mas não dentro de mim. Por agora, por enquanto.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Coisas que a gente não diz

É que antes de pensar no mistério das estrelas e no sol que nascia por trás daquele morro. Morro que fazia tempos existia e quanta coisa já havia de ter visto. Com olhos calados de quem vê e não fala, guarda. Assim como eu. Quanta coisa feia e quanta beleza de vida guardadas em tamanha rochosidade. Que palavra engraçada, rochosidade.Mas as palavras não importam. O que importa é. O que importa mesmo? Lurdes diz que meu pensamento é remendado. Que pareço criança. Também criança eu já pensava no morro. E no caminho do pão dentro da gente. Logo o pão, feito de farinha e de calor, transformado em migalha, intestino adentro. E digerido e terminado em descarga, em esgoto, em um oceano qualquer. Oceano de água que evapora e vira chuva que molha o morro. E logo imaginava meu pão molhando meu morro. Lurdes me acharia louco. Coisas que nunca disse a ela. Nem a ninguém. É que. Que barbaridade! Essas coisas que a gente não diz e as coisas que a gente não vê. O que estou dizendo? Lurdes é quem tem razão: o importante é o finito. Digo que finito é tudo, mas ela não gosta. Lurdes gosta do finito de agora.  Do breve. A conta de luz, o extrato bancário, os calmantes da noite, uma boa piada, a mulher que se ama e a que um dia se amou. Essa última parte Lurdes não diz. Por onde andaria Pilar? Será que ainda vive? Ah, Pilar. Finitos sejam os teus seios! E o verde dos olhos de Maria Lúcia. E meus pensamentos também. Que Lurdes não me ouça. Ainda bem que se pensa calado. Como aquele morro, logo ali do outro lado, o morro de todos os dias que o prefeito quer por fim. Diz que é obra das grandes e que vai virar túnel e que vai dar acesso, muita gente, muito carro, muita fumaça. Muita fumaça por cima do morro. E então, também você, meu amigo, será finito. E breve, enfim. Lurdes já vai acordar.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Dolores

Vai.
Que a dor me toma o peito,
alarda, funda e sem jeito,
e me grita 'inda em tempo:

Corre!
Que
se aqui dentro a dor é branda,
é que, dentro, ainda andas e.

Vai!
Que
a dor maior que existe
é aquela que insiste
em viver assim tão só
que se dói
é porque vive
e a vida é maior

Melhor, Sai!
Que
não morras aqui dentro
-miúdas!
em mais um eu que aqui jaz

Que
lá fora o pulso é firme
que lá fora dói bem mais

vivas dores, viva Dolores!

Que nem sempre os vivos vivem
e tão pouco morrem os mortos
Que nem sempre a morte é triste
E quem dirá feliz a sorte
desses mortos
que ainda vivem
sem sentir o pulsar forte

Desses vivos,
que sem pão
que sem cama
que sem teto
que sem tato
que sem olhos,

que só sentem
que só amam
que só fazem
que só cantam
que só no duro,
na raça,
na vida
em desgraça,
sorriem,
que, só, nunca estão.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

# cena um

COMPOSTO NÃO PRESTA.


PERSONAGENS:

HILDA: 48 anos
NANDA: 20 anos


HILDA: Já disse que na minha casa não entra mais nome composto!
NANDA: Você vai adorar.
HILDA: É composto, eu posso sentir.
NANDA: Mas pra você pode ser Joca, mãe. Simples. Joca.
HILDA: Joca? E isso lá é nome?
NANDA: Apelido.

HILDA RESPIRA ALIVIADA.

NANDA: O nome é Jordânio Carlos.

HILDA LEVA A MÃO AO PEITO ESQUERDO E COMEÇA A SE ABANAR, TENSA. NANDA A ENCARA SEM SUSTO, COM OLHOS DE QUEM JÁ VIU A CENA ANTES.

HILDA: Ai. Ai, meu coração. Meu santo Benedito! Eu sabia, eu sabia! Lá vem outra praga.
NANDA: Você nem conhece o Joca, mãe.
HILDA: Mas conheço o histórico. João Fagner, Guilhermino Américo, Adalberto... Adalberto o que? Aquele que vivia me pedindo couve-flor.
NANDA: Xande.
HILDA: Adalberto Xande! Minha nossa senhora. O que leva uma mãe a dar um nome desses pro filho? Pior. O que leva a minha filha, minha princesinha, a se interessar por esses... esses...

TEMPO.


HILDA: Compostos. Já te avisei e você insiste no erro: Nome composto não presta.
NANDA: Mãe. Meu nome é composto.
HILDA: Mas você é a exceção que confirma a regra, Fernanda Maria.
NANDA: O joca é diferente. Especial. Dá uma chance, mãe. Você vai adorar.

HILDA RESPIRA FUNDO.

HILDA: Flanelinha? Pipoqueiro? Funkeiro?
NANDA: Empresário.

HILDA DESCONFIADA.


NANDA: Da Coca- Cola.


HILDA ABRE UM SORRISO.


NANDA: Empregado há trinta anos.
HILDA (comemorando): Empregado!

HILDA FICA SÉRIA.


HILDA: Há trinta anos? E quantos anos esse homem tem?
NANDA: Ah, mãe. Sei lá. Chato perguntar essas coisas, né? Não passa de cinquenta...e cinco. Mas com corpinho de quarenta.


HILDA SE JOGA NO SOFÁ DE COSTAS (engasgada, sua voz mal sai): cinquentão.


NANDA: Não era o que você vivia me dizendo? Encontrar alguém maduro, trabalhador. E ele trabalha o dia todo, não pára. homem de família. E, olha, vou te dizer uma coisa, mãe. Vamos ser uma família e tanto.
HILDA: Oi?
NANDA: Tô grávida. Um mês! Mas não se preocupa, tá? Ele já tá ajeitando os detalhes do casamento. Você vai adorar.
HILDA (tensa): Casamento? Filho, minha filha? Filho!
NANDA: E ele é tão romântico, mãe. Acredita que outro dia me entregou um buquê de rosas vermelhas? Vermelhas! Lembra que você reclamava que o Guilhermino Américo só me dava flor de plástico? O Joca me dá rosas, mãe.


HILDA TENSA. CAMINHA DE UMA LADO PARA O OUTRO DA SALA.

HILDA (repetindo para ela mesma): tá tudo bem. Tá tudo bem. Tá tudo bem.
NANDA: E ele é tão elegante, mãe. Bom gosto, sabe? Não usa regata, não liga para boné. E não tem nenhuma pochete, que eu já conferi.


HILDA SE JOGA NO SOFÁ. NANDA SENTA AO LADO DELA. HILDA PEGA A MÃO DA FILHA E A ENCARA NOS OLHOS.

HILDA: Ele é mesmo da Coca-Cola?
AS DUAS SE ENCARAM. TENSÃO.
NANDA: Ser ele é. Há trinta anos é chamado para distribuir os flyers da empresa.
HILDA: Flyers?
NANDA: Aqueles papésinhos, sabe? Propaganda.


HILDA ATÔNITA. NANDA RI. HILDA A ENCARA.


HILDA:  Que foi? Ainda não acabou?
NANDA (entusiasmada): São gêmeos. Combo duplo, mãe!

HILDA PEGA UM LENCINHO, ASSOA O NARIZ E CHORA.

HILDA (chorando): que ótimo. (assoa o nariz). Eu tô muito (assoa o nariz) muito feliz. Já escolheu os nomes?

NANDA ABRE UM SORRISO DE ORELHA A ORELHA. HILDA QUASE CHORANDO.

NANDA: Você vai adorar.


FIM.

Pinta

Tinha uma pinta na barriga e eu dizia, "o umbigo do mundo". Era para lá que eu me escorria, nas miúdas mortes de todos os dias. Nua, levo só o necessário: a rua Maxwell, a fábrica de apitos, alguns poucos e bons amigos. Pega o Tito! Que passarinho não sabe viver aí fora sozinho. Traz feijão e a zuza, que ninguém faz igual. Ciprestes, o nosso monte de areia, o cavalo da vovó. Traz o ré, o mi e o dó, e com eles as Gerais. Traz o frio e as lembranças do final da minha infância, que avança e se esvai. Das dores, as maiores. Que os amores já vem junto. Do que sou, o mergulho. Que é o encontro mais profundo.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Fragmentos indigestos

- a construção do pensamento.

um,
E quando a dor dilacera o peito
E quando o mundo é a palma da mão
E quando o quanto é pouco
E quanto mais, a razão.
E cada qual em seu canto
Do grito todo, o perdão
Em mais um passo, a distância
Dos que ficam em vão.

dois,
Me agudo em presença de quem não sente. Ser humano não é ser gente. Indolor, indiferente, pode passar a minha frente. Vou com calma e aos poucos, p'ra não perder o costume. P'ra não perder as pessoas. P'ra não esquecer da lição. Que a vida, meu caro, se faz de coração.

três,
Quem te traz e quem te esquece, vivem todos em mim.
Pra trazer, abrir os olhos.
Pra esquecer, acordar.

quatro,
Que a vida é coisa séria. E coisa séria, pra mim, é amor.




segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Quando crescer

Quero ser ilustradora. Desenhar, pintar e colorir. Quero ser escritora e cineasta, criar livros e filmes, com a liberdade de fazê-los por paixão. Quero ser fotógrafa e poeta, de luz e lápis. Quero ser dançarina, me espalhar do chão ao ar, em palcos e tecidos. Quero ser viajante e poder brincar. Crescer sem virar adulto, não desses que conhecemos por aí.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Alvoroço

No escuro é mais silêncio. E com a gente também, sempre mais no não dito. Na noite que não desemboca no dia e vive de vinho e culto e inversão, nos vejo tão bem. Noite breu, sem lua e nem estrela, nos vejo tão bem. E é na dança, pernas, pêlos, espasmos, mão que traz o braço e leva o corpo inteiro num só passo, que a gente se dá. Entrelaço de ideias, nos vejo tão bem. Somos eu e você, encontro não falado. Seu sorriso, outro-bem mais sincero. No alvoroço, a gente funciona em paz. Na alvorada,  te vejo e não reconheço mais.


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Minha semântica nossa

Esses dias li um poeta. Talvez Torquato. E ele falava sobre o esgotamento. Não usava essa palavra exatamente, mas foi o que escolhi entender.  O "esgotamento das palavas", que de tanto usadas acabam  nos  limitando em sentimento. Achei essa ordem estranha, as palavras virem antes de nós. Não seriam os gritos, os silêncios, as pausas, o roer das unhas, o embrulho no estômago, o choro, o riso, tímido ou sem vergonha? Não seriam eles a escolher, certeiros, as palavras a serem escritas? Pensei, então, que o problema talvez seja, sim, o esgotamento. O do sentir, antes do semântico. Um esgotamento de sentidos, produto de vícios, só nossos. Na mesma música que vai sempre me trazer  você- que talvez já nem seja mais o mesmo; Na mesma marca de cigarro, nem tão boa assim, mas que deixa um gosto de sempre na boca . No mesmo sapato, no mesmo vestido, no mesmo traço, no mesmo passo, na mesma rota que faço. Nos mesmos sempres, sempre tão limitantes. Apaguei o cigarro, troquei a faixa da música. Repeti pra mim: as palavras como consequência de nós.


segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Infalável

Nada foi dito.
Só não permita que também as palavras
- o meu peito, minhas aspas, a vontade louca que me escapa-
cedam à boa educação, bom dia.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Espelho

É que ao se olhar no espelho, viu outra coisa que não ela. Em olheiras mal dormidas, fios de cabelos embaraçados, pinta no queixo e espinha na testa, uma estranha a encarava. Olhos nos olhos. Intrigada.
Mas que diabos fazem os espelhos com a gente?

E ela aceitou o desafio. Olhos nos olhos, ela e ela mesma. O que você tem pra me dizer? Queria ver quem desviava primeiro. E ficou ali, observando. Arregalava os olhos. Já tiveram dias de mais brilho. Se lembrou de um dia de muito sol, em que um estranho lhe elogiou os olhos verdes. Seus olhos eram castanhos. Escuros. Desse dia em diante, via sempre pigmentos na íris: verdes, cinzas, amarelos, violetas. Moça dos olhos coloridos. Mas ali, naquela manhã, lhe encarava uma mulher, de olhos pretos.

Ouviu um sussurro, o tictac do relógio. O vento, o tempo e o espelho, como há milênios atrás.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Pensamento de outubro, número um.

Às vezes penso que se nos entendêssemos a fundo, perderíamos o dom de não nos vermos tão de perto.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

De escorpião

Um dia um escorpião me disse que eu era como ele. Não traiçoeira, cheia dos ferrões, apesar de apostar em alguns. Me disse que ele não tem ossos. E que tudo o que o sustentava eram suas cascas, fortes e externas, que revestiam seu corpo mole e o protegia dos predadores. Mas, ele contou, elas não eram fixas e, por mais aconchegantes que fossem, não podiam acompanhá-lo por muito tempo. À medida em que crescia, elas precisavam ser abandonadas. E nesse período, da troca das cascas, o escorpião se escondia. E crescia. E crescia ele e nascia outra casca. E só então ele voltava. Maior, mudado, até a próxima troca.





sábado, 22 de setembro de 2012

Pedro

É engraçado. Pedro diz que nada disso importa. Que o pensamento é cego, surdo, mudo e tímido. Ninguém repara. Pedro diz que tanto faz a música. Do que importa a dança se não temos palco? E que todas que dancei sozinha, no meio da sala, no escuro do quarto, no deserto de areia, perderam-se antes mesmo de começar. Pedro diz que sou treteira. Que não me mostro a olhos outros. E que mesmo quando pulo, grito e falo, me disfarço muito bem. Pedro diz que isso é bobagem. Ele aposta que gostariam mais de mim do outro jeito. Pedro me vê há muitas léguas. Entre cavalos e bambus, ciprestes e outras coisas que não prestam tanto assim. Pedro vê, Pedro aposta, Pedro diz muita coisa. Mas eu quase não escuto.



quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Primavera

                                      A paz consiste em deixar a mão florir.

                                                            A paz consiste
                                    em deixar                                     a mão ir
                   A flor                               consiste                                   em deixar
                                                           
                                                            a paz vir


                                                        Florir, em paz,
                                                    a mão que deixa ir.

                                                         Florir, à mão,
                                                    a paz que consentir.




Qual palavra une?


Mistério.
Brilho.
Lua.
Hereges.
Pederastas.
Posta.
Heresia.
Frágil.
Profanação.
Deus.
Pergunta.
São joão.
Entendi.
Nada.
Dura.
Farejo.
Mau gosto.
Mente.
Mutantes.
Afasto.
Avesso.
Fumaça.
Estrelas.
Leão.
Livro.
Garopa.
Mares.
Sica.
Papaia.
Março.
Córrego.
Explosão.
Raiz.
Paz.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Outras doses


Perco a dosagem. Querendo ser um eu completo, confundo sorriso com sinceridade. Querendo ser um eu, que sei, ri à vontade, esqueço que tristeza também é verdade. Peço redenção, mas, mais uma vez, doso demasiado: recolho-me à casca e o mundo que se mostre. Longe, lá fora. E a política e a guerra, entre povos que não sei o nome. E a fome. Longe. Mas, perto, o corpo reclama. É uma questão de alma. E querendo ser um eu pacato, me vejo agora já ilhado -A quantas, me diga, a Terra tem girado?

E querendo ser um eu astuto, uno forças e fujo. Quebro a casca e penso: que a vida é não pensar. Aqui fora o tempo é curto, sem espaço pra sonhar. Volto à tona com vontade. E, querendo ser um eu maduro, torno-me um mim ignorante. Desrespeito o importante, que só tinha amor pra dar.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Semente ansiedade

Silencio e me liberto
ao me ver nos olhos teus.
Ao menos aqui, no quarto, na cama, no caderno, nada escondo.
Ao menos aqui, no instante escuro - constante e finito.
Mais um dia pós dia se pôs.  E qual dos ganhos tive?
Um oi. Um dado. Um verso rimado. Sorte?
Um botão arrancado.

Anseio que sinto, estende e explode.
E as sementes voam longe!


quinta-feira, 9 de agosto de 2012

De volta ao eixo

Deixo [a caneta
           para
           sangrar
           a dor]

Deixo a caneta. Deixo para. Deixo sangrar. Deixo a dor.

TPM

Tô pra te escrever alguma coisa, mas não sai nada.  O que quero é só vontade, bobagem, que não sai em papel. O que fica no peito e não tem esboço. Da vida, eu sei lá. O que faço? Sinto! Sinto apertar a alma quando um tanto de vezes. E nem no mais alto grito alcanço o soluço. Que as coisas são belas  quando a gente não tem tempo. E isso não tem nada comigo e contigo. Talvez tenha um pouco. Um pouco de mim. de você. de tpm. O que não tira o peso de nada, pelo contrário.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

O pote

Caiu um pote de cima da mesa.
Em queda, levou três segundos. Uma imensidão.
Se espatifou todo. Mas, junto aos cacos,
não me lembro o que mais coloria o chão.


quarta-feira, 11 de julho de 2012

2/3 ao redor do Sol

Que sejam os instantes loucos
e meus fios bagunçados,
juba cheia de leoa,
morena, jamais loura.

Que sejam a fibra e a vontade
alternadas em preguiça de nada
que seja instável habilidade,
ora doce, ora amarga,
a de ser namorada

Que sejam as vozes
audíveis em olhares,
ora atentos, ora vazados,
por paisagens daqui,
pensamentos de lá

Que sejam tons
e semi tons
quedas emendadas em passos
livres em movimento,
que sejamos eu
e voce,
assim como eles

ora deuses,
ora lobos,
sempre libertos

E que sejamos,
independente de data,
de espaço, de sorte, de fato,
pelo instante memoravel,
eternas voltas ao sol.

(14.08.2012)



quarta-feira, 27 de junho de 2012

O peso de 21 verões

Esses dias, por instantes, acordei e pensei sentir o peso da idade. O peso de 21 verões.Não riam de mim os mais velhos, pois não importa que sejam 20 ou 80, a idade pode pesar em qualquer um que perceba o fim de qualquer coisa que se aproxima. Qualquer coisa mesmo: trabalho, faculdade, amor, amizade, sutiã furado ou sapato gasto. É como um brinquedo antigo que muito se usou mas, porque precisamos seguir e precisamos crescer e -no fundo sabemos- não precisamos mais dele, resolvemos um dia desempoeirar e doar para uma criança que fará melhor uso.
Não é tanto o que se foi, mas mais: o que estar por vir. O peso do querer. Querer expandir, querer conhecer, querer pegar estrada a fora para qualquer sol que não se esconda. Chega a doer as costas. Só de pensar no peso de passar tardes em máquinas, restrita a um percurso que de tão visto, a gente nem percebe mais. O peso pesado de se acostumar, se encostar e ficar, só porque assim é como é. é como é? E como é ser? Isso não é pergunta p'ra gente sã, cidadã e sem tempo. Ser deve ser mais. 
Outro dia, busquei uma foto do Atacama. Isso, o deserto. E fiquei imaginando a paz e o tédio que pode ser aquele lugar. E pensei em como eu tenho vontade de conhecer o silêncio e o céu de lá. E o Atacama, em uma tarde barulhenta de segunda-feira, pesou.
Quero aprender a tocar xequerê e no violão, pelo menos, qualquer coisa de Gil e Caetano. Quero ser arteira, fazer xilogravuras e serigrafias e testar tintas, tecidos e materiais. Quero a dança, o yoga e a fotografia. Quero os filmes e as palavras. Cachoeira, praia e montanha. Quero os amigos por perto e um canto de todo o mundo. Quero não parar um segundo. E parar muito.
Peso que traz p'ro chão, traz pro dia, a abstração e a alegria de deixar esquecer.
Leve que me empurra, traz na pele, a vivência e a consciência de que o peso, ainda assim, continuará em mim.

domingo, 17 de junho de 2012

Da cidade

Basta um botão para disparar o tempo,
que nas veias
dos fios
das redes
das teias
dos fluxos de gente
pulsa doente razão

Basta um botão para entupir a mente
de nomes
de marcas
de metas
de meras
cruas certezas que esvaziam o coração

Sentido, esqueci na Bahia
Deixei na areia
E o mar levou

ô, regido
ruído
raios da manhã

à, noite cai
manto negro
estrelado
novato 
aos olhos da cidadã

sábado, 16 de junho de 2012

desaba.fo

queria inscrever mais o outro o que cuspo em palavras.mas cuspir nunca é educado.então deixo assim mesmo, sem regra, sem sujeito ou predicado.que não sirva para venda, mas que seja um desabafo.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

João alguém

João pede mais
que pão na mesa
que pinga no copo
que berro no vão

João pede Maria
pede Antônia
pede sim
e pede não

João pede
mas não espera
ele tenta
ele quer

João é figurinha
fácil no álbum
de muita mulher

João nasce
e se põe
e também João
se cansa

João se perde
em sonhos
em tantos
encantos

João quer cigarro
João quer beijo
João que festejo
Mas João se esquece

João também chora
quando são seis horas



quinta-feira, 31 de maio de 2012

Cais

Partem de mim, muitos navios.
Tanto quanto nunca cheguei a ver.
Tanto quanto as palavras
a boca não sabe dizer

Parte todo e nada,
incompleto como eu - sempre quando penso.
Mas não só. Não só como eu.
Incompleto também como as rugas, que revelam a idade.
Como o coração inquieto.
São os primeiros passos, como os coques de balé. Malfeitos.

E é preciso ser imperfeito, sempre.
E é preciso dizer sim
E apesar do não,
Alegrar o peito
e ir.

Por isso, navio,
parte todo e parte nada,
parte terra, parte água,
me espalhe.
De norte a sul do mundo, aos bons ventos que vierem. 


domingo, 13 de maio de 2012

Convite

Amarga a vida
embrutece o poema
perde-se o tom
não acontece, apenas
um dia é só mais um dia
seguido de sol e lua
os fatos, os dados, os fardos
não brotam
da estrada crua
E o tempo, homem,
tampouco é adulto
O tempo é seu,
e errante.
Adentra teus cachos,
teus passos
teus falsos cansaços
e,
engana-se.
engana-te.
Não se aprisione, homem,
na casca da ignorância:
aos cinco,
aos dez,
aos trinta,
serás sempre criança.
Se permita, homem,
a gargalhada transbordante:
aos tantos,
aos trancos,
aos montes,
A vida te chama,
menino.




correio 2

Domingo, 13 de maio de 2012

Uma felicidade aguda me invadiu o peito, quando li seu nome no papel. Demorou, dessa vez. Pensei mesmo que não fosse mais ter respostas. Não me refiro nem aos versos "confusos", mas às perguntas simples que tanto fiz. Bom saber dos seus dias, e como vão bem. Os meus...bem. Esses dias tropecei num paralelepípedo da rua da Quitanda. Não cheguei a cair, mas o pensamento tombou. Foi para longe; lá para tempos passados e frios e cinzas e felizes, quando quem tombava era você e quem te segurava, era eu.
Quem te segura hoje? Espero que não tombes tanto. Aqui comigo, enquanto lia sua carta, imaginei uma cena engraçada: Você, com bigodes de Dalí, e traços mais doidos do que os do Picasso. Você gostava dele! Mas não entendia meus versos"fora de ordem". Um dia ainda volto para essa terra. E quem sabe, andando pelas ruas, tropeçando em postes, me depare com traços seus; em livros de vitrines que passarei a cada esquina.

 Por  todos os cantos. 


Hoje, vou no Juraí. Juraí, o lago, lembra dele? Não o dono da relojoaria. Aliás, abandonei aquela mania de relógio! Nem pergunto mais pelas horas. Do que adianta? Bem que você dizia, o tempo só falta quando passa. Quando já passou... Volta e meia, você me vem à cabeça. E a gente se encontra e ainda se esbarra.

p.s: Sublinhadas, elas não ficam tão perdidas assim. 


Um beijo,
E.








sexta-feira, 11 de maio de 2012

correio 1

Sexta-feira, 11 de maio de 2012.


Entro. Pedindo lincença discreta, só porque ainda me resta aquilo que chamam de educação. E me resta a vontade também. Posso entrar? Gosto do jeito como vocês lidam com a vida. E gosto muito do jeito como ela nos escreve. Ontem cheguei tarde em casa, exausta do dia à toa na sala branca. Entrei descalça e fui me despindo. Aos poucos. Bolsa na cozinha, Casaco -aquele vermelho, lembra?- na sala,  vestido no corredor. A ducha fria escorria e enquanto eu olhava o ralo, começei a pensar em um tanto de coisas. Para onde vai tudo o que se lava (e não se leva) durante o dia? E aí lembrei de você. Não por conta do ralo. Sei lá, talvez um pouco por conta do ralo. Aliás, li suas cartas. Não entendi muito bem o que você pretendia dizer com aqueles versos. Não entendo versos e essas palavras que ficam bonitas fora de ordem. A casa tá fora de ordem. Tudo fora do lugar, mas eu não. Nada de tão novo que justifique a mudança; ainda não estou pintando. Mas estou decidida de que quero, sem querer. De que vou deixar vir, e traçar minhas metas, claro, aqueles planos não morreram. É que de repente, no meio do desespero, da zona, das roupas espalhadas, eu sorri.

Um queijo,
L.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Dia 04.

Estrada sem fim
começo é terra,
meio de mim.

A história está em todo canto. 



quarta-feira, 25 de abril de 2012

Dos outros o que não passa

E quando era eu só
o tempo era outro.
A casa era outra.
Jardim, vizinho, presente,
eram outros.
Até o amor.
Principalmente o amor, era sempre outro.

O riso, porém,
de um peito meu, mais de ninguém,
por vezes ainda me escapa em tom
de eternidade.

De sempre.
Quando...

De noites cheias de silêncio
De dias vazios em notícias
De gente que se faz ausente
De mundo que se lê em poesia

De ciprestes que lembram o frio
de tardes e árvores
onde a gente se escondia
De cheiro,
De gosto,
De tato
Nasce e morre o dia.

O dia que passa
como passam
os malabares
pelos carros que passam
sob as nuvens que passam
sobre homens e mulheres
outros também passam.

O riso, porém,
de um peito meu, mais de ninguém,
por vezes ainda me escapa em tom
de eternidade.










quarta-feira, 11 de abril de 2012

Qualqueres

A merda é ser qualquer. Qualquer palavra, qualquer rima, qualquer letra, qualquer traço, qualquer maço, qualquer trabalho, qualquer beijo ou dia qualquer. Dos diabos que nascem do tédio, o pior de todos é o consentimento. Empreitar-se na rotina, sem vida, sem sede, sem fome, alheio à escolha. Alheio a nós. Porque nem sempre fomos assim e, se alguém nos percebeu quando o éramos, nada nos disseram. E, se os dias se arrastam de repente, qual terá sido a manhã qualquer em que perdeu-se a graça? A força? A raça, Maria? "é preciso... manha/ graça/ sonho, sempre". Por isso, se a palavra não sai ou a foto não vem, se a ideia some e a paixão também, penso que é hoje. É hoje o dia qualquer. Deito, durmo, descanso, sonho para acordar diferente, mais raça, mais graça, mais manha para driblar os 'qualqueres' da vida.

terça-feira, 27 de março de 2012

Culpa de ninguém

E se agora seus olhos já não bastam mais,
culpados não há.
E se a vida pede estrada,
se solto a mão há tempos dada,
culpados não há.
Amor é tempo certo
e o teu, completo.
Fui ao mar e, em distância,
canto saudade.









segunda-feira, 12 de março de 2012

Ruido

"Na solidão de indivíduo desaprendi a linguagem com que homens se comunicam"

Falo. da incompreensão entre os homens, uns pelos outros. Pelo o que em essencia, simples e farta, se assemelha e se disfarça. Um gesto automático, aceno, sorriso sem graça, disfarça. impede o encontro de almas encantadas. Encanto que leio no encontro das letras de Drummond. Ah, se nós nos encontrássemos assim, cada um uma letra. Unir de A a Z, e somar. Somar sentimento e criar. Criar esperança de um mundo, não, de uma dia melhor. UM dia entre 30 do mês, 365 do ano, 70 anos de vida. Um dia entre 5 bilhões de anos da Terra. Respeito e honestidade, que não tem cabimento morrer de fome. Nem de tiro. Nem tem cabimento o salário dos governadores e a mortalidade infantil elevada. Não cabe a pobreza e, muito menos, a pobreza de espírito, que tanta gente carrega. Pobreza pesada, leve consciencia. O fardo é não esquecer. Esquecer é o pior remédio. Não cura, atrasa. Esquecer é pior do que aceno e sorriso sem graça, se faz de vontade e, pro alívio de muitos, disfarça.

Que a gente se lembre de nunca esquecer: Da pura alegria, do simples viver.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

pequenas explosões cotidianas

cá onde vivo
cá quando vejo,
cá como calo,
cá, o desejo
de ser vagabundo
cá, não no mundo,
cá em mim,
cá, enfim, o desconforto profundo
cá, então, que já caio,
nunca sempre,
mas quase quando necessário,
no abismo solitário
lá, quando chego, é o fim ou o começo?,
é espaço que anoiteço,
lá eu comigo mesmo
escondido e encontrado, reconheço um sorriso
recém apresentado, lá
lá é quando páro,
lá a pausa é reparo da loucura de milhões
lá a paz, prematura,
lava a alma,
louva a vida, alivia corações

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Ventilador

Quando acordo, o sol lá fora,
giramundo devagar,
traz a aurora, o rebento
d'outro dia a brilhar

Aqui dentro, o relógio,
é um tempo a ventilar
leva a hora, sem demora,
leve, o vento a assoprar:

"Vai, minha pequena,
abra os olhos p'ra sonhar
Vai, q'o teto é alto,
mas dá pé para voar

Vai, minha flor morena,
ventila a dor,
renova o ar,

faz os dias, menos sóbrios,
deixe a vida ventilar"

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Amanhã

Amanhã é luz
Acordam os olhos azuis,
os raios de sol,
novo, outro,
outro novo dia
[Mais feliz]
Acorda o sorriso,
ô menina
Vem pra cá,
que alguém te chama
[quem?]
novo, outro
outro novo alguém
Acorda e levanta,
que a vida quer viver
mas só,
só se for com você,
ô menina,
acabou a música, começou o dia
novo, outro
outro novo
novo dia

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Hematose pulmonar

Dias brancos sempre me trazem uma parte do vazio. Encho-me dele, que o corpo até pesa, penso que vomito, e quem dera, mas nada sai do vazio. Do que é feito? Cansa o mundo, e viver, de repente, parece um abrir e fechar e abrir de olhos. E o homem acorda. E abre-se e fecha-se e abre-se, o sinal, verde, amarelo, vermelho. Verde. Atravesso, e enquanto cruzo a neblina, o cheiro da maresia me invade os pulmões, abrem-se, fecham-se, abrem-se as vias respiratórias, o ar úmido entra e salga meu sangue. Sempre soube do sal, a purificação, o descarrego, o descomplexo, a leveza. E por um segundo, expiro parte do vazio. Hematose pulmonar, penso. Entra oxigênio, sai dióxido de carbono, entra o sal, sai o peso. A perfeita troca. E realizo a sabedoria inerente a nós, a facilidade com que a natureza, voluntária? ou involuntariamente, acontece. Por que os homens não são assim? E acontecer é tão difícil? Por que o dia não se faz como se faz o amor, de vontade, de prazer, e nunca sozinho? Quanto nos pagaram, quanto nos pagam, para vendermos nossos minutos de agora por dias futuros? Quando foi que nos acostumamos com o desprazer das horas e buscamos na distância, o conforto da impossibilidade? Por que a pergunta soa ingênua, e precisamente distante da realidade, se é pra mim tão recorrente? Porque é. Porque é a ordem ingrata, porém voluntária, dos homens.
Porque é a mediocridade, a indecência, o descaso, a mesquinharia crescente em nós que responde afiada a todas essas questões. Acontece que a humanidade perde muito (inspiro oxigênio e sal), enquanto ministros ganham mais ainda (expiro gás carbônico e vazio). Acontece que abro o jornal, e Luiz morreu. Luiz, 40, morador de Jamapará, avô de Maria, 3, também vítima de enxurradas, enchentes, deslizamentos. Luiz, Maria, e mais seis. E mais vinte, e mais oitenta, e mais três mil vítimas do descaso. Descaso, falta do acaso, acaso é involuntário e não acontece. O que acontece é voluntário, e sinto em mim um tanto de culpa. Como era Maria? Morena, esperta, tranquila? Se perguntaria Maria um dia o porquê da maldita ordem do mundo? Para Maria não tem dia branco. Não tem hematose. Não tem o peso do vazio. Maria é Maresia. Enche-me os pulmões de ar, os olhos de água, e me faz mais humana.

domingo, 8 de janeiro de 2012

João coração sem fim

Quem nunca estudou geologia já sabe que a maior propriedade da areia é servir aos reis. Reis, mas também rainhas, príncipes, princesas e bobos, muitos bobos, que, convocados pelo grande astro e seus raios de calor, reuniram-se nesse domingo na praia do Arpoador. Sua benevolência - não a sua, muito menos a minha, mas a da areia- vinha em miudezas, do tamanho de um grão. E, de miudeza em miudeza, de grão em grão, tornava-se um tapete. Um enorme súdito entre a orla e o mar.


E foi nesse reino, nesse domingo, sobre esse tapete, que João nasceu p'ra mim.
João não era bobo.
"João, quem é você?", eu, súdita, quero saber.
João negro, braços finos e barriga cheia.
João, menino, era, de certo, a esperança p'ra toda aquela gente: A senhora que lia de óculos escuros, o Tiozão careca que alargava o sorriso, mas não largava a cerveja; O grupo de gringos -bobos da corte?- de olhar inquieto como quem procura sem saber o quê. O "quê" de jovens amigas, a magra, a gorda e a alta, esparramadas em cangas, de tamanhos não proporcionais a elas próprias. Em meio a eles, em meio a pombos, a ambulantes, ao barulho de gente, ao silencio do mar, João, mini-rei, chegou decidido a ficar.

-Vamos erguer um castelo.
"Mas joão, e o povo? e o tiozão careca, e a gorda da canga curta, e a magra da canga comprida? Onde todos vão morar?"

-Vamos construir um castelo enorme. Feito de areia e sal, de água do mar. No castelo, vai ter espaço para todos, e um teto solar. Lá, ninguém triste poderá ficar.
A segunda ordem já havia sido dada. E João não temia revoltas, porque, e sabia que, sabia agradar. Em seus cinco anos de vida, captara a importância do poder do olhar. A graça nos olhos, negros sem fim, dispensava redomas, descia-lhe do pedestal e lhe levava à conquista do povo.

- João, que castelo o quê, seu pirralho! Não sai dessa areia quente, gente, mas que coisa. Vou te levar é pro mar.

O grito inesperado ecoou por toda a corte. O pequeno e sem fim coração de João bateu acelerado. Clamor de revolta? Já? Que tipo de pessoa poderia prostestar contra um castelo de areia e sal, abrigo e garantia de fim de qualquer tristeza que ali reinasse? "João mini rei dos olhos negros e coração sem fim, não se acanhe! Não se renda à primeira dificuldade, não encha de lágrimas os poços profundos do rosto. Não flutue no mar, que a correnteza te leva e te tornas bobo, João!"


- Não! Não quero nadar, não quero o mar que a correnteza leva. Quero aqui, sobre o tapete de areia, sob o calor dos raios, construir o primeiro e maior castelo, onde nenhuma onda entrará, e só a felicidade vai reinar.

E como que num brado de guerra (e que se fizesse guerra, se necessário. "O reino por um castelo, João!"), João se tornou rei. Rei, pelo tempo que durasse sua coragem. Rei, ne guerra contra o tempo: Vencendo os anos que não o convencessem de que com areia, se constói castelos; De que com tapetes, pode-se voar.