Dias brancos sempre me trazem uma parte do vazio. Encho-me dele, que o corpo até pesa, penso que vomito, e quem dera, mas nada sai do vazio. Do que é feito? Cansa o mundo, e viver, de repente, parece um abrir e fechar e abrir de olhos. E o homem acorda. E abre-se e fecha-se e abre-se, o sinal, verde, amarelo, vermelho. Verde. Atravesso, e enquanto cruzo a neblina, o cheiro da maresia me invade os pulmões, abrem-se, fecham-se, abrem-se as vias respiratórias, o ar úmido entra e salga meu sangue. Sempre soube do sal, a purificação, o descarrego, o descomplexo, a leveza. E por um segundo, expiro parte do vazio. Hematose pulmonar, penso. Entra oxigênio, sai dióxido de carbono, entra o sal, sai o peso. A perfeita troca. E realizo a sabedoria inerente a nós, a facilidade com que a natureza, voluntária? ou involuntariamente, acontece. Por que os homens não são assim? E acontecer é tão difícil? Por que o dia não se faz como se faz o amor, de vontade, de prazer, e nunca sozinho? Quanto nos pagaram, quanto nos pagam, para vendermos nossos minutos de agora por dias futuros? Quando foi que nos acostumamos com o desprazer das horas e buscamos na distância, o conforto da impossibilidade? Por que a pergunta soa ingênua, e precisamente distante da realidade, se é pra mim tão recorrente? Porque é. Porque é a ordem ingrata, porém voluntária, dos homens.
Porque é a mediocridade, a indecência, o descaso, a mesquinharia crescente em nós que responde afiada a todas essas questões. Acontece que a humanidade perde muito (inspiro oxigênio e sal), enquanto ministros ganham mais ainda (expiro gás carbônico e vazio). Acontece que abro o jornal, e Luiz morreu. Luiz, 40, morador de Jamapará, avô de Maria, 3, também vítima de enxurradas, enchentes, deslizamentos. Luiz, Maria, e mais seis. E mais vinte, e mais oitenta, e mais três mil vítimas do descaso. Descaso, falta do acaso, acaso é involuntário e não acontece. O que acontece é voluntário, e sinto em mim um tanto de culpa. Como era Maria? Morena, esperta, tranquila? Se perguntaria Maria um dia o porquê da maldita ordem do mundo? Para Maria não tem dia branco. Não tem hematose. Não tem o peso do vazio. Maria é Maresia. Enche-me os pulmões de ar, os olhos de água, e me faz mais humana.
Porque é a mediocridade, a indecência, o descaso, a mesquinharia crescente em nós que responde afiada a todas essas questões. Acontece que a humanidade perde muito (inspiro oxigênio e sal), enquanto ministros ganham mais ainda (expiro gás carbônico e vazio). Acontece que abro o jornal, e Luiz morreu. Luiz, 40, morador de Jamapará, avô de Maria, 3, também vítima de enxurradas, enchentes, deslizamentos. Luiz, Maria, e mais seis. E mais vinte, e mais oitenta, e mais três mil vítimas do descaso. Descaso, falta do acaso, acaso é involuntário e não acontece. O que acontece é voluntário, e sinto em mim um tanto de culpa. Como era Maria? Morena, esperta, tranquila? Se perguntaria Maria um dia o porquê da maldita ordem do mundo? Para Maria não tem dia branco. Não tem hematose. Não tem o peso do vazio. Maria é Maresia. Enche-me os pulmões de ar, os olhos de água, e me faz mais humana.
Apesar de triste, muito lindo. :)
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ResponderExcluirBela e triste humanidade, lindo o seu doloroso pezar!
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