quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Compreensão

Todo mar é impossível,
Cor nenhuma é também
a palavra "Brisa" ou "Bruma"
é escolha de alguém

é o inverno escandinavo
é o suor dos iorubas
é a palavra esquecida
pelos meros mortais

Passo a passo, me esvaio
Beiro a margem do caminho
Fluo o rio quase seco
é preciso andar sozinho

O silêncio medra o mundo
que silêncio já não tem
Bebo o caos obscuro,
que aqui em cima vende bem.

caio lento,
embriagado,
com os sonhos que comprei.

E o em cima agora é lá.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Sem perguntas, sem buquê

Veja só, meu bem,
venha só, sem favores
sem perguntas, sem buquê

Venha bem,
Bem devagar
Preu tentar te avisar

O samba é bambo
O salto é alto
O sonho, em outro andar

Porque não quero explicar
Eu não quero entender
Eu não posso mais ver
O meu eu em você

Porque não posso entender
Eu não quero mudar
Eu não quero dizer
Que não quero você

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Juparanã - I

-Os menino! Vem comê!

Zuza, boa zuza. O grito ecoante dispensava relógios pra'quela gente. Céu de azul imensidão, sem rastros das manchas brancas, sumia em meio à copa de folhas verdes quando vistos pelos olhos de Calú, estirada no tronco daquele pé de manga.
Cada um dos quatro netos tinha seu próprio tronco, escolhidos sem democracia e sem contestação, critérios básicos da "Lei Calú". A lei fora criada por Calú, no seu sexto aniversário, oito anos atrás, e tinha como primordial o respeito à decisão da natureza, que escolhera Calú como primeira neta e, portanto, detentora das primeiras escolhas: Desde troncos de árvores à pedaços de bolo. Nada mais justo.

Descer do pé de manga era como retornar à realidade. Pés no chão, a caminho da casa grande, em direção ao burburinho de gente reunida na varanda de trás da fazenda. A vó Hilda de certo estaria lá, inquieta, inventando ocupações que agitassem a mesmice daquela paz.

-Zuza!
-...
Zuza!
-...
- Ô ZUZA!

Uma voz baixinha, que quase pedia para não sair, respondia com doçura:
- To indo, don'Hilda!

Zuza explicara uma vez, com justificativa certeira, o porque de nunca atender ao primeiro chamado de dona Hilda. Nada pessoal. Só respondia aos chamados, de quem quer que fosse, a partir da terceira vez. As duas primeiras podiam ser assombração tentando o espírito da devota, vai saber. Desde que ouviram tal explicação, Junico e Luca idealizaram um êxito em suas histórias de terror, até então resumidas em tentativas fracassadas de assustar dudu.

- Cade os meninos? Avisa que tá na mesa e que purê frio não alimenta igual.
- Sim senhora.

"OS MENINO! VEM COME!"

O segundo chamado da realidade não podia ser ignorado. E agora sim: Calú, pés no chão, a caminho da casa grande. "Tomara tivesse purê".

Calú sabia aproveitar o bom da vida, e sabia que o gosto de prazer não podia ser eterno. Nada é. Nem mesmo o purê de Zuza. E acelerou o passo, correndo contra o vento, sujando os pés descalços naquela terra vermelha.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Pára com isso. Pára com essa necessidade de dissecar cada palavra, cada gesto, cada cada. Essa necessidade de fala, pára. Porque a verdade não existe e eu talvez tenha te enganado. Alimentei o vício de cavar um pensamento preso, que hoje é nosso único elo. Por que precisamos de motivos? Não precisamos. Não deveria precisar de uma sequer palavra para ficar do seu lado; De nenhum sorriso, de nenhum entendimento das loucuras que você fala. Porque esse disfarce gramatical? Medo? Social? ah, já sei: Defesa? Então eu demito as palavras.

Acho que usei muitas para dizer tudo o que não precisava ser dito.
Sempre com os dois pés atrás. E se já sabia que não estaria, por que veio?

Agora sou parte e parte. Parte quer continuar dizendo, soltando palavras, que te mantenham perto, mesmo que longe. Outra parte fica muda. Cala o desnecessário e assume as consequencias de, uma vez na vida, ser honesta com nós dois. Quem dera.

domingo, 26 de setembro de 2010

Desensinar

Porque se aprende assim.

Por que se prende assim?
Amor não é dizer
Pecado é não calar
Pecar é não saber
ser livre
sem amar

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Luminescências

É silêncio, e mais uma vez ela teima. Teima em vir, como quem não vê, como quem não quer, como que se não soubesse que, não mais muito, me teria por completo. Chega aos pouquinhos, e sem cerimônia convida-me à insônia. Ela, que não tem nome e não tem tempo. Sua identidade é minha pausa, meu gole de vida.

"Onde não há pausa, a vida lentamente se extingue". E eu aceito, então, o seu convite. Paro. E é, na verdade, quando começo a ir. Parto em minhas viagens noturnas, vagueio por entre rostos, e penso em gente que não me conhece. O que dizia o barulho do motor acelerado a meu lado? E o senhor intrigado no banco da praça, que não soube o quanto, por segundos, me intrigaram suas rugas? Teria cada qual uma história, ou apenas respostas a uma escassez duradoura de pausas tardias? Nesses devaneios, cruzo caminhos longínquos sem deixar rastros, e me pergunto quantos se aventuram por suas trilhas.

Mas continuo caminhando. Desentendo o porque, entre tanta gente, conhemos algumas, mas exatamente estas algumas. E delas, tão poucas são as que nos despertam a nós mesmos. Penso no risco que é se doar a uma conversa. No risco que é admitir importância e conferir carinho. No risco do esquecimento em uma embriagez de cinco minutos. Penso no risco que é insistir na coincidência desse pouco do pouco de gente que pode carregar um tanto de nós. Não entendo a afinidade, mas agradeço a sintonia de pensamento e a troca de olhares. Algumas desperdiçadas, por falta de risco, pela ausência da pausa.

Mas não seria a pausa, em sua essência, a própria ausência? A ausência da fala, o intervalo do pensamento, o recuo do passo? A ausência da ausência vem então como nula, porque a pausa não é interromper. Interromper pode ser continuar.

Então me percebo tão nela, nessa tentativa de desprendimento. E me desprendo sem medo, me espalhando por pensamento. Sei que o sentido está na finitude, e sinto. Me desprendo, então, também dessa pausa, dessa fração do tempo que nos clama ao lúdico, e em paradoxo profundo, nos leva à maior realidade: Nossa insignificância diante de tudo. E aí, e só aí, que acordo para a significância da vida.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Mais do Menos

Sei de muito pouco.


Sei que o melhor do café é o cheiro, e que leite de mais entope veias.
Sei que o algodão é, depois do Isopor, o material mais agoniante do mundo.
Sei do gosto das cores de Manuel de Barros.
Sei do ócio experimentado de ser vagabundo.


Sei que saracura não se caça.
Sei da secura de Minas
E dos pequis do Cerrado.

Ouço o sim e o não,
Vejo o demasiado simples
num prato de arroz sem feijão.

Gosto do inventado,
da areia que roça nos pés molhados.
Sei que a surpresa é maior quando rejeitada.

Sei de quase nada.

Sei do olhar do estrangeiro e do frio na barriga.
Sei que passo sem pisar
E perco tempo,
perco hora,
pisco.
Tiro o cisco e continuo a olhar.


Sei que nada disso importa
para ninguém além de mim
Sei que basta

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Corda Bamba

Dias cheios demais. Abarrotados de ações, falas, caminhos, sempre iguais. Calma, pronto: Prometo não reclamar. Não, mentira. A crítica é positiva, e é pedir demais pra abafá-la agora, justamente agora, nesse momento em que as dúvidas estão em fase de crescimento e eu fomento descobertas. Já sei. Podemos ter um acordo, desses que duram pouco, como quem anda na corda bamba, tendendo em ameças de queda, de braços abertos mas com a mente focada, fechada, presa ao único objetivo de equilíbrio máximo. Feito.

Começo a travessia. E como minha parte do trato, prometo não divagar sobre o que falta, sobre a falta que sinto, a falta que faz ou o que - de fato, tanto- falta nessa gente. Não prometo ser sucinta, pois é assumir uma queda livre, é cortar, antes mesmo do primeiro passo, a minha corda.

Falo hoje do que sobra. Do excesso que nos leva, em um fluxo cegueta, ao extremo oposto de nós. Sabem do que falo? É aquela fome que não é vontade de comer, fome de salivar por pensamento, necessidade do prazer de exercitar a mandíbula e em um movimento monótono e afobado recuperar o bom-humor perdido junto com a energia ao longo do dia. Pois é. Fome tão intensa que perdemos a fome. A barriga dói mas já não sabemos o gosto que falta. É doce ou salgado? É sólido ou líquido? Abro a geladeira e... Eis que o nosso pote de comida inexistente não está lá. E é ele que eu quero. Pronto, tanta fome que perco a fome.

Ponta do pé e o primeiro passo foi dado. É assim que é escrever. Um meio tombo de sentido, um foco no que está perdido, vagando pelo mundo em corda bamba. Acorda! É a corda que você pisa! Em equilíbrio, ou não, mesmo em queda livre, é você que direciona. Então, foco.

Muito trabalho, muitas páginas para ler, muitos roteiros, muitas idéias, lugares, planos, muito tudo e tanto que, sabemos, temos que e (nem sempre) queremos fazer. Trocentos projetos para um final de semana e, finalmente, - Já estava quase caindo, na metade do caminho, equilibrada em braços e vento - chega o sábado! Ufa. O dia das tarefas. Vou me livrar de tudo. Vou? Não, claro que não. Preciso respirar, preciso descansar, preciso de distância. E de repente, em frente a uma tela, me vejo sem nada a fazer. Nada. Da corda bamba dos afazeres e compromissos, eu me rendo e me jogo sem medo na cama elástica da preguiça. Cama elástica SEM MOLA.

Estou quase lá. Quase chegando ao outro lado, já me sinto familiarmente flutuante. Meus dedinhos, naturalmente espremidos por sapatilha, se libertam e tocam os fiapos ásperos da corda como que se caminhassem sobre o campo coberto por um verde vivo e macio. Vivo.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Contraregra descabida

Realidade impregnada pela falta de tato, pelo pouco sentido que nos faz seguir em frente, procurando, ou não, nos estendermos em entendimento. Falta de sentido, pouco tato, falta muito entendimento, tanto faz. E é cheia dessa falta que ela se mostra a cada segundo do dia. Como imaginas a rotina da dona realidade? Monótona em sua normalidade, estranhamente assutadora: Vazamento de óleo que se alastra é só mais uma notícia passada. Não queremos nos contaminar. E a desculpa não é a distância, mas o alívio em que se traduz pela sorte de nos sentirmos inatingíveis ou inoperantes. Essa "distância" psicológica, muito mais do que física, criada pela necessidade de se ausentar, de aliviar qualquer possibilidade de culpa, principalmente a da consciência. Seguimos acenando, encenando, e sorrindo, sempre, claro, porque o importante é ser feliz. Uma felicidade limitada com destino final previamente decidido e trajeto traçado. O que você busca que, de tão anestesiado da vida, não consegue mais saber? Corra que o tempo voa, estude para entrar na faculdade, trabalhe para ganhar dinheiro, trabalhe mais, consuma mais, compre mais. Já nascemos com um manual, escasso de valores mas com instruções perfeitas sobre nosso posicionamento social, como quem defende a democracia e a liberdade em alto e bom tom: "Seja o que quiser, desde que não seja nada do que não queiramos".

E não se enganem também com esse argumento de discurso frágil e crítica debilitada de quem lhes escreve. Impulso do embate de idéias contrapostas em mim, vivo entre tudo. Contrastes insolúveis em hipocrisia. Ouvi falar do equílibrio, e não consta no manual. Mas se eu tivesse a chance de dizer, de gritar aqui do olho do furação para o resto do mundo, diria com convicção sobre como nada disso basta. Pequena porção de certeza, resguardo do invisível: A felicidade não é o destino. É o caminho.

domingo, 25 de abril de 2010

Nathiem

Eu, especialista de saudade, nunca a sentira com tanto sentido.

A saudade tem cheiro de hortência e gosto de feijão com paio. Cabaninhas de Edredom em beliches com histórias inventadas, lampião de luz falhada e lareira de tijolo vermelho. Arfadas de ar gelado, puro, privilégio de poucos. Chão da praça coberto de confetes e serpentinas com o batman e a Esmeralda em cavalos enormes, talvez fossem pôneis. Ovos de chocolate mal escondidos atrás do sofá e nós em esconderijos jamais revelados. O infinito da infância, tão pequena menina, revelava-se agora em flashes de memória, em noites em claro, só de céu. Céu escuro, escondido atrás de neblina ou via-láctea, palco antigo de onças pintadas, bruxas e borboletas azuis; Palco de mergulhos noturnos, cabanas na sauna, filosofias bêbadas de nexo e vinho. Havia um mistério entre as matas e os ipês, uma música não cantada feita só para lá. O último olhar, sempre o primeiro susto. Alma de bailarina, andava naturalmente nas pontas dos pés, com o cuidado de quem revive o passado entre um riso e outro, perdidos ali anos atrás. Não era fácil buscar todos. Estradas de terra, e água escorrida de chuva virara uma correnteza de folhas, correndo tanto quanto o menino que fugia do carro. Segredos de lanterna, planos de sótão, palavras de trio guardadas, "cartoon network yeah''. Ponte do rio que cai e redes, literalmente, caídas. Fondue de queijo e micos para quem deixasse o pão escorregar; Futebol de lama, corridas de papelão, mímicas nunca tão malfeitas e bem pensadas, terremotos em tabuleiro de War, disputas no baralho e na pesca de trutas. Poço feio, poço velho, algo por aí: Lindo. Mais uma arfada, um tanto de imagens e os olhos fechados, "aguando o bom do amor". Os restos construíam o todo: Moringa quebrada, ciprestes, eucaliptos, trilhas e pastores alemães. Sentados na estrada, esperando pela chuva ou pulando portões para a vista do sossego: Montanhas e pedras úmidas, com as mesmas ovelhas imóveis de sempre. Platô de reflexões, besteiras, fogueiras, refúgio de idéias.

Final de música, fim de tarde, descida da serra. E, pela primeira vez, voltava para casa com a certeza de que não esquecia nada ali. Nem nunca iria esquecer.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Paciência

"Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
A vida não pára
Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso, faço hora, vou na valsa
A vida é tão rara
Enquanto todo mundo espera a cura do mal
E a loucura finge que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência
O mundo vai girando cada vez mais veloz
A gente espera do mundo e o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência
Será que é o tempo que lhe falta pra perceber
Será que temos esse tempo pra perder
E quem quer saber
A vida é tão rara (Tão rara)
Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não pára (a vida não pára não)
Será que é tempo que me falta pra perceber
Será que temos esse tempo pra perder
E quem quer saber
A vida é tão rara (tão rara)
Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não pára (a vida não pára não... a vida não pára)"


Deixo ele falar por mim hoje.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Sexta-feira da Paixão, Sábado de Aleluia e Domingo de Páscoa

Sexta-feira do peixe, Sábado de descanso e Domingo de chocolate.

Confesso que estou longe de ser um poço de conhecimentos bíblicos e pratico diariamente o descostume de me aprofundar no assunto. No qual sou a típica piada daqueles almoços dominicais, passando da avó na cabeceira pela priminha e sua boneca do outro lado da mesa. Gafesinhas cometidas por pura falta de vergonha na cara para ler e descobrir sobre os sei lá quantos vales de Jesus e suas alucinações no deserto. Não tenho justificativas prontas pra isso, simplesmente não é o que mais me clama a alma, toma meu tempo ou aluga atenção máxima. Não sou uma alienada da história cristã, não é isso. Mas prefiro ir descobrindo aos poucos, entre um almoço e outro, o que contam os antigos (e invariavelmente os mais novos). Entrego-me, ponho o pensamento à tapa, confesso que gosto da Páscoa e, os católicos fervorosos que me perdoem, mas da história do chocolate eu entendo mais um pouco. E nesses três diasinhos que se seguem, sigo eu com minha espiritualidade, com meu espírito de gordo, juntos. Sempre com fé de que será mais um feriado a se lembrar, a me lambusar e - por que não?- aprender, entre um ovo e outro, um pouco do tanto que falta descobrir. Aprender que Abel era homem, e não há teimosia no mundo ou soar de tom feminino que o torne mulher.

domingo, 28 de março de 2010

Adeus você, minha cura oficializada

Não sumi, apenas nunca estive lá. Me afastei pra me buscar porque, embora fosse muito você, sempre havia sido mais eu. Me afastei porque não fazia sentido, não fazia futuro, só fazia besteira. Fui tola, cega e muda, quando não devia ser. Calei quando devia falar, sorri quando queria gritar, segui direitinho um jogo que não existia, que você criou, frio e calculista, bem típico de você. Fui covarde na minha fuga tardia, fajuta, pra poder me poupar, porque a verdade é que você me fazia mal; Ferida que doía, e eu sentia, extremamente prejudicial à minha saúde. Ai, se meu médico soubesse. Fugi porque cansei de estar, do mal estar de estar com você. Me afastei porque, como bem diz Martha Medeiros, "ausentar-se é risco", e qualquer tentativa era válida. Hoje sou ausente, com caráter de risco cumprido, e você? Você é alguém bem menos bonito. É um sorriso sem dono e carinho de muitas. Você é papo, é passado, é trama confusa que não faz mais sentido. É gênero alterado, romance, drama, terror e comédia. Você é a média que tanto gosta de fazer. Você já foi tudo e hoje é quase nada. E quando me fala da falta, é uma falta enganada porque quando achamos que me tinhas, eu que não era nada. Me afastei por forçar uma vontade inexistente, que hoje é o presente. Me afastei e minto quando culpo o trabalho, a velhice precoce ou a falta de tempo. Me afastei, sim, mas me afastei porque prefiro ser ausente pra você do que ser ausente de mim.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Espirro de moinho

Dança esquecida, quem se lembra?
Mergulho cego, ao fundo,
distância do mundo, desmaio do ego.
Terra-mar, ilhada em pensamentos,
somos migalhas embaladas pelo vento, invisíveis.
Invencíveis?
Somos farelo, elo perdido de tudo o que fingimos não ser.
Somos dó e ré, em perfeita melodia, sem pena de olhar para trás.
Palavras escondidas, vãs, previamente lidas por olhos de outras vidas sãs.
Buscas o que mais?
Somos e só somos.
Pares de destinos, lançados no moinho de ilusões,
entregues ao sopro que, por frações de segundo,
adormece o mundo e nos torna campeões.
Um espirro e basta.
O vento arrasta pelos mares vastos
todo acúmulo de segredos, sentidos
memórias e medos a pairar pelo ar
na espera, quem sabe mera,
de um moinho a espirrar.
E então, o que somos?

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Só no carnaval

E já havia perdido as contas. Já havia, inclusive, perdido as contas do quanto havia se perdido. Já havia sido Amélia, Alice e Aurora. Só cantava no chuveiro mas já fora como Janis Joplin; Batera um bolão como Garrincha, apesar de não gostar de futebol. De Chico, foi Carolina, de Tom, Luiza. Dos hippies, experimentou a paz e, mais, o amor; E como Colombina, sofreu por Pierrot. Já foi madame e mendiga, Chaplin e Tiririca. Já foi bombeira e era fogo, mas naquela quarta-feira de cinzas, somente era. Era esmalte vermelho descascado, era pós-banho, era calcinha e sutiã pensantes atirada na cama. Era aquela aflição nostálgica que quase dói, que aperta no fundo do peito e implora alto por mais um pouco. Por mais confetes e serpentinas, mais cores e fantasias, mais um resto dessa alegria tosca de quem encarna o que quiser e atira fora as máscaras da timidez e da sobriedade, só no carnaval. Por que o que seria de fevereiro sem ele? Para os complacentes, talvez, mais silêncio, menos fedor e engarrafamento. Para ela, para os amantes e apaixonados pelo carnaval, a resposta era ainda mais óbvia: Não seria. Porque isso era verdade: Só no carnaval todo mundo é enquanto deixa de ser. Homem vira mulher, branco vira negro e tem gente que vira Michael Jackson. As ruas viram avenidas e a multidão faz o desfile. No carnaval se bebe histórias e se conta cervejas. O que seria abuso vira brincadeira, a vergonha vira coragem, todo mundo se conhece e não importa o clima, no carnaval é sempre quente. E até as marchinhas que pulavam o carnaval do século passado, tocadas pelo menos cinquenta vezes em cada bloco, parecem inéditas, estranhas conhecidas que embalam os foliões pelo resto do dia. No carnaval, aliás, um dia se fantasia de dois e, assim como a disposição, parece não acabar.
Cabelo úmido, calcinha e sutiã pensantes ainda pensavam. E bebiam. Só para dar o gosto final, os últimos goles festivos que alegravam a memória, sambando cada vez mais no resto de mais um carnaval. E no meio do samba, pensavam cada vez menos e iam desistindo de tentar entender o porquê de tudo. Mas no fundo ela sabia. Sabia que tinha que acabar, que tinha que deixar correr o bloco e o dia raiar, sabia que no ano que vem teria mais. Tudo de novo e novo, como só no carnaval.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Teletransporte

Lembre-me depois. Não, melhor: Deixe-me esquecer. Fecho os olhos e faço meu próprio silêncio; Tampo os ouvidos e vejo um novo cenário, diferente desse ambiente tão excessivamente ambientado. Ocorre então a inversão dos sentidos, a mudança pela qual anseio a cada instante como esse. O zumbido de vozes, tão excessivamente conhecidas, vai se afastando, ganhando distância e perdendo intensidade, enquanto a chuva, figurante especial dessa noite, escapa de seu papel secundário e cresce: Molhando pra valer, se fazendo notar, dominando a cena principal com raios, trovões e ventanias. E eu me entrego, assim como ela, aos poucos. Aguço os sentidos e deixo vazar os pensamentos, a raiva, o impulso. Ah, ele não consegue se conter? Então que se vá, que se vá com as vozes para algum lugar escondido, longe de mim, não quero esta necessidade de discussão. Que chegue a chuva, que venha a música e todo seu silêncio, deixe que eles entrem. E de repente, há, me transporto...fui. Essa mínima liberdade é o que me faz tão bem, meu passaporte universal sem prazo de validade.
Mas é importante voltar, e voltamos sem perceber, já acostumados com o novo- até quando?- lugar. A mudança em mim já me conforta e estou pronta para retornar, iniciando o fim da pausa. Começo então a diminuir a música- pra onde ela vai quando termina?- e a chuva me acompanha, diminuindo também, voltando assim como veio, devagar. E deixo o pensamento se aquietar, o impulso já se foi. Destampo meus ouvidos, ouço as vozes conhecidas, tão excessivamente especiais. Abro os olhos e, ufa, estou em casa.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Tamanho? É relativo.

- Bom dia, procura pelo o que?
- Um mochilão, grande mas nem tanto...eu que tenho que carregá-lo.
- Você?! hum... grande mas nem tanto né?

E o homem de bigodes- sempre duvidei de homens de bigode, em especial esses no estilo 'Salvador Dalí' - lançou um risinho irônico no ar, transparecendo seu pensamento claro e provocativo de quem diz ''minha querida, pra você uma pochete bastaria''.
E a arte de levantar uma só sobrancelha seria enfim útil, criando a expressão facial de resposta mais eficaz no momento. Tá que sou pequena, mas aguentar sarcasmos de um bigode como aquele era pedir demais. E esperei uns 15 minutos, como que se demorasse tanto assim para encontrar um mochilão 'nem tão grande assim'.

-Só temos esse verde.

Eu preferia vermelho, mas que se dane; Desde que coubessem lá dentro minhas manias, vícios, planos e idéias, tava tudo certo. E lá estava eu. Na porta de saída para uma rua mais movimentada impossível, com um mochilão embrulhado em uma sacola visivelmente vergonhosa e desproporcional, disfarçando uma vergonha ainda maior lá dentro embrulhada.
(...)

-ah, filha...até que tá bonitinho.

''até que tá bonitinho'' em boca de mãe, se conforme, está no mínimo ridículo, uma desgraça completa. Era inacreditavel que aquele fosse o menor tamanho digno de um mochilão porque era visivelmente indigno de uso social. Mas não tinha mais tempo, nem dinheiro, muito menos disposição pra procurar outra coisa. Era isso, era aquele, o tão esperado mochilão que me acompanharia nas minhas viagens pelo leste europeu, deserto do Atacama e Indonésia? Não sei, mas pro Sul do país seria ele próprio, com todo seu tamanho e estilo, o meu companheiro. Mas não tenho problemas com isso, ou quase não. Mais um pouco e já o achava lindo, perfeito e praticamente compacto, ninguém me convenceria que não, nem mesmo o ''bonitinho'' vindo de minha mãe.

Na rodoviária, olhares desconhecidos se concentravam em minhas costas, não sei porque mesmo. Um garoto indiscretamente boquiaberto merecia uma caprichada sobrancelha levantada pra responder a pergunta que estava escrita em sua testa: "Que-porra-é-essa?!". E, na minha cabeça, eu começava a ouvir uma voz sarcástica e um risinho cínico, típico de vendedor de bigode, "nem tão grande assim né?''. Mas mal sabia ele, como todas aquelas pessoas, que na verdade o mochilão era pequeno pro que eu precisava. Foi preciso dobrar bem, enrolar, apertar e pular em cima para que coubessem ali dentro todas as minhas manias, vícios, planos e idéias.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Hai de ti

Ai, Hai de ti que não sabe o que é sorrir
Truque falho do destino, mãe que lhe fez parir
Em tempos de macelas, em campos longe daqui

Recusa indigente, tua gente já não espera
A mudança que não houve, as asas que não tivera

Ai, Hai de ti,
Ai dos teus, dessa vida desumana,
Desse Deus, desabafo,
Desespero de quem ama

Prato fundo de vazio
Vida rasa de esperança
Alaga portos sem príncipes
com o choro de criança

Ai, Hai de ti,
Ai dos teus, dessa vida desumana,
Desse Deus, desabafo,
Desespero de quem ama

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Sem mais lero-lero

Aproveito a insônia e faço dela minha fuga, minha companhia, pra noite a dentro, a válvula de escape do sono, do sonho e de qualquer outro desvio do pensamento que possa me tirar da realidade. Hoje não quero pensar em mais nada, não quero saber da festa, do agito, do que aconteceu com você, com quem saiu, se saiu. Não quero pensar no que não acontece aqui, comigo, agora. Lunática, instável, incerta e ultimamente quase dramática, eu não nego. Mas peço licença a mim pra deixar repousar esse meu lado 'poeta do rímel borrado' que se aproveitou do egocentrismo, e das oportunidades que favoreciam a fragilidade, para se aponderar quase por completo de mim. Peço licença, menos por vontade e mais por educação, pra convocar o eu esquecido, a parte forte, apoiada em otimismo, cheia de vida e do agora. Mais o dia, mais o que der vontade. Chega de pensar no improvável, de vagar em pensamentos que terminam no travesseiro, da lágrima de dor inútil antes de pegar no sono e depois do sol nascer. É hora de se preocupar menos com o que estar por vir e menos ainda com qualquer coisa que independa de mim; é hora de fazer acontecer, de cuidar do que importa, de quem importa e fazer valer a pena. Estamos atrasados na atitude, na iniciativa, valorizar o que se sente, pensar no que se fala e falar o que se pensa. Não temos tempo a perder, e a hora é agora. Que a graça de 2010 venha mais renovada, que tudo de novo, o tanto de novo, que ganhei em um ano, se prove ainda melhor, de maneira diferente. O tempo é pouco pro tanto que quero e me nego perder os segundos que não forem pro meu bem. Digo boa noite antes do sol entrar e algum eco da realidade me revela que viver assim vale muito a pena, poeta sem rímel.