terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Desconcerto
De quem só tem o ar, respiro fundo, trago a tinta p'ra escrita e desenho e traço, no espaço, as linhas do infinito. Busco, porque sempre buscamos, sem pressa, porque o tempo é nosso amigo. Amo como queria amar- será que dá?, sei que choro, e não entendo, o caminho, fim. Sei que a vida é sentida, e deveria ser mais. Estrada esquecida de tempo atrás. Fino hino dos heróis, retiro de amor, e paz. Tudo isso, esconderijo. Deles e de nós. Nossa luta é pela música (plena música?), pelo encontro no "deserto de almas", alguém já disse, cheio de gente. Nossa luta, plena gente. Quem nos dera a fantasia, trago o ar, cuspo agonia. Quem lhes desse só os olhos de quem vive todo dia. Nosso hino, soltas palavras, p'ra quem tem memória fraca, "the touch of your love, makes my heart yours", ou algo por aí.
sábado, 24 de dezembro de 2011
Pollyanna
Ponta de lápis feito ponta de faca,
feito língua afiada
que não mede palavras
Boneca de porcelana,
que cantos tem cantado?
O que foi que te disseram?
Esqueceste assim tão fácil?
Faz da voz, antigo riso,
palacete de nós bobos
Abra a porta, e os ouvidos,
Deixe o ódio lá p'ros outros
No teu peito
tão pequeno
sei que tem tão mais espaço
cabe eu, o céu, o mundo
cabem todos os abraços
feito língua afiada
que não mede palavras
Boneca de porcelana,
que cantos tem cantado?
O que foi que te disseram?
Esqueceste assim tão fácil?
Faz da voz, antigo riso,
palacete de nós bobos
Abra a porta, e os ouvidos,
Deixe o ódio lá p'ros outros
No teu peito
tão pequeno
sei que tem tão mais espaço
cabe eu, o céu, o mundo
cabem todos os abraços
sábado, 10 de dezembro de 2011
Entre a Vela e o Vento
“Parabéns pra vo-cê”
- FALA MAIS ALTO, ou chega mais perto. Assim não te escuto.
- Só SuSSurro, Sou aSSim.
- COMO É? FALA MAIS ALTO! Isso que dá ficar aí fora, vagando sozinho, dia e noite, noite e dia. Credo. É pra pirar qualquer um, não é não?
- …SSSS…
- HEIN?! FALA PRA FORA! Sopra com força, abre essa janela! Você é um vento ou uma brisa?!
- Você é pavio curto.
“nessa da-ta que-ri-da”
- Não te vejo, não te sinto, e o que ouço é tão pouco, que tá mais pra voz da consciência. Como sei que você existe?!
- Pirado fica, quem fica em cima do bolo.
“muitas fe-li-ci-da-des”
- Alto lá! Em cima não, NO TOPO. Cercada de gente e de aplausos. Os anos passam e eu continuo aqui, acesa, esbelta, adorada!
- Seu ano é um dia.
- Todo dia é um ano, e todo ano é festa. Você tá é com inveja. Mas não enquenta não, que a culpa não é tua.
- Não esquento, só esfrio.
"Muitos a-nos de vi-da!"
- Você não fala coisa com coisa, hein! Parece que tá sempre perdido! Mas é isso, sina de vento é diferente.
- Assopra, faz um pedido!
-
Agora sim! Agora te escuto. Cada vez mais alto! Cada vez…mais…perto.
- FALA MAIS ALTO, ou chega mais perto. Assim não te escuto.
- Só SuSSurro, Sou aSSim.
- COMO É? FALA MAIS ALTO! Isso que dá ficar aí fora, vagando sozinho, dia e noite, noite e dia. Credo. É pra pirar qualquer um, não é não?
- …SSSS…
- HEIN?! FALA PRA FORA! Sopra com força, abre essa janela! Você é um vento ou uma brisa?!
- Você é pavio curto.
“nessa da-ta que-ri-da”
- Não te vejo, não te sinto, e o que ouço é tão pouco, que tá mais pra voz da consciência. Como sei que você existe?!
- Pirado fica, quem fica em cima do bolo.
“muitas fe-li-ci-da-des”
- Alto lá! Em cima não, NO TOPO. Cercada de gente e de aplausos. Os anos passam e eu continuo aqui, acesa, esbelta, adorada!
- Seu ano é um dia.
- Todo dia é um ano, e todo ano é festa. Você tá é com inveja. Mas não enquenta não, que a culpa não é tua.
- Não esquento, só esfrio.
"Muitos a-nos de vi-da!"
- Você não fala coisa com coisa, hein! Parece que tá sempre perdido! Mas é isso, sina de vento é diferente.
- Assopra, faz um pedido!
-
Agora sim! Agora te escuto. Cada vez mais alto! Cada vez…mais…perto.
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Um dia muda
Um dia acordei de mau jeito, com fobia do dizer
Um dia o homem da vila saiu para o bar
Sentou na calçada,
pediu a cachaça,
sorriu pra mulata, chamou pra sambar
pediu a cachaça,
sorriu pra mulata, chamou pra sambar
Um dia o doido sentiu, no peito, uma fisgada
Da janela, gritou o nome dela
Desceu as escadas,
Confessou amor e mais nada
Um dia a esquina
Cansou de seguirDesceu as escadas,
Confessou amor e mais nada
Um dia a esquina
Dobrou a avenida
Brigou com a rua
E continua a irUm dia o dono
Não quis mais vender
Ligou para o filhoAmigo, neto, bisneto
Que não viu crescerUm dia o boi
Não quis mais pastarIsolou-se do gado
partiu para o mato
Deixou o sertão p'ra lá
Um dia as palavras
Decidiram não sair,
é greve!
Escondidas do mundo
Ninguém mais quer ouvir
terça-feira, 1 de novembro de 2011
Nó
Tudo o que não é sólido, líquido, ou gasoso
quem dera fosse "só"
"Só", que vem do simples,
e não de sozinho
"Sozinho", que não é sólido, líquido, gasoso,
e que devia ser junto.
"Junto", que vale quando vem de "só"
"só", que vem do simples,
e não de sozinho.
quem dera fosse "só"
"Só", que vem do simples,
e não de sozinho
"Sozinho", que não é sólido, líquido, gasoso,
e que devia ser junto.
"Junto", que vale quando vem de "só"
"só", que vem do simples,
e não de sozinho.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
teusambameu
Em batuque e tamborim,
Eu,
de mim,
pedi licença
P'ra abarcar,
sem desavença,
nesse tom qu'é tão teu
Bamba,
de mansinho feito samba,
Vi teu eu
em meu
refrão
Soube
.então.
.Sem desatino. Que
ali nosso destino
despistara a solidão
Nosso,
que você 'inda não sabe.
Que
teu samba é meu disfarce
Meu embalo,
tua canção
Que
meu eu não mais se engana,
Aprendeu todo compasso
de viver
do coração
domingo, 2 de outubro de 2011
[ ]
Pedido de gosto de sal
e sol
Posso dizer? P'ra quê tanto...
tempo
tempo
tempo
Peço prazer de gosto pedido
(de sal e sol)
e sol
Posso dizer? P'ra quê tanto...
tempo
tempo
tempo
Peço prazer de gosto pedido
(de sal e sol)
domingo, 18 de setembro de 2011
Que vem, e vai. Mas volta.
Dói o peito. É aperto. Da distância. Que a verdade é que a paz é anestesiante e se faz em silêncio, quietinha, bem folgada para não incomodar. E depois de um tempo, que se passa por eterno, a paz já não é paz, é desespero. É a falta do choro, do grito de dentro, é aguda, é a falta do extremo. E embora eu não assumisse para o espelho, assim como as primeiras palavras (em. pausa. e aos poucos.), cada passo para a rua me avisava que era hora. Que era preciso ir; Eu, em frente. A paz, embora.
Paz que nasceu do choro que me secou por dentro. E que já morria afogada, por todas as lágrimas que há tempos não punha pra fora. E ontem fomos, eu e ela, aos muitos: Cada uma para um lado. Como eu e você. E um tanto de coisas mais.
Paz que nasceu do choro que me secou por dentro. E que já morria afogada, por todas as lágrimas que há tempos não punha pra fora. E ontem fomos, eu e ela, aos muitos: Cada uma para um lado. Como eu e você. E um tanto de coisas mais.
quarta-feira, 31 de agosto de 2011
Pero no Mucho
Me sorprendes tu
(pero no mucho)
cuando vas a irte lejos
(pero no mucho)
en la búsqueda de algun
(pero no mucho)
porque
que,
aunque (mucho) conocido,
necesitas ocultarse
(pero no mucho,
pero no por mucho tiempo).
(pero no mucho)
cuando vas a irte lejos
(pero no mucho)
en la búsqueda de algun
(pero no mucho)
porque
que,
aunque (mucho) conocido,
necesitas ocultarse
(pero no mucho,
pero no por mucho tiempo).
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
Chove chuva, chove indigesta
A boca tremia de um movimento contrariado. Contra o grito, contra o vômito de palavras indigestas que mal desciam esôfago abaixo. Contra a sucessão de imagens e rostos passados que invadiam seu cérebro, involuntariamente e muito. Nas mãos, os comprimidos, eficazes bolinhas brancas, por onde ele entrava procurando a saída e de onde, e de novo, nascia a escuridão.
Cílios compridos, "cortinas da alma", era o que dizia, erguiam suas pálpebras revelando um azul muito claro onde as pupilas se perdiam e ele -mais- se encontrava. O corpo imóvel, estendido sobre uma cama de madeira frágil. Sobre o corpo, um lençol surrado que não cobria os pés gelados pelo vento de agosto. "Porra. A janela aberta". Ventava. E ele ventava também.
Ouvia uma forte tempestade que não era o chuvisco lá de fora, que não era de hoje, mas de um só dia, "porque a chuva nunca é igual". Uma tempestade de nuvens carregadas e de noite negra e de rede na praia e de amigos na rede que admiravam os raios e em silêncio engrandeciam os trovões.
- Que coisas?
- Que coisas o quê?
- Que coisas você tá pensando agora?
- A chuva nunca é igual. Ouve só.
- Hm. O que tá acontecendo, Raul? Você não vai encontrar emprego em comprimidos! A vida tá lá fora. E os médicos também. Devia sair dessa cama, procurar um psicólogo, fazer análise, entrar na natação, abrir um restaurante, qualquer coisa que te trouxesse de novo. Devia era...
A voz feminina e aguda continua a soar, mas as palavras são inaudíveis, abafadas por trovões, cada vez mais fortes. Da grande janela, uma luz vazada de dia branco ilumina o quarto e torna ainda menor as pupilas perdidas. A mulher, de pele tom -quase-pálido, se levanta da poltrona ao lado da cama e, num só movimento, fecha as cortinas. Como um reflexo, nele fecham-se os olhos.
-A chuva nunca é igual, já percebeu? Ouve só esse barulho...Ele nunca mais volta igual pra você.
O rosto jovem, a graça do sotaque. Os cabelos compridos ("parece índia!"), aquela que sorria com os olhos sorri.
Ele, mais cabelo e menos barriga, pula da rede estendida na varanda, corre para a areia. A existência cede espaço à vida, que se sente pé pós pé, passo pós passo, deixados nas pegadas sobre os grãos empapados de água do mar vinda do céu.
-VEM! Vem sentir! Estão chovendo os segundos! Choveu um, choveu dois, ó outro ali...Eles não param!
Da varanda, três amigos riem e brindam a tempestade. Ela, índia dele, não dispensava a chuva e nunca fechava as cortinas. Dança da chuva, dele e dela. Dança do tempo. Pulo e giro e grito e beijo e ela se molhando de segundos que nunca mais voltariam para ele.
Cílios compridos, "cortinas da alma", era o que dizia, erguiam suas pálpebras revelando um azul muito claro onde as pupilas se perdiam e ele -mais- se encontrava. O corpo imóvel, estendido sobre uma cama de madeira frágil. Sobre o corpo, um lençol surrado que não cobria os pés gelados pelo vento de agosto. "Porra. A janela aberta". Ventava. E ele ventava também.
Ouvia uma forte tempestade que não era o chuvisco lá de fora, que não era de hoje, mas de um só dia, "porque a chuva nunca é igual". Uma tempestade de nuvens carregadas e de noite negra e de rede na praia e de amigos na rede que admiravam os raios e em silêncio engrandeciam os trovões.
- Que coisas?
- Que coisas o quê?
- Que coisas você tá pensando agora?
- A chuva nunca é igual. Ouve só.
- Hm. O que tá acontecendo, Raul? Você não vai encontrar emprego em comprimidos! A vida tá lá fora. E os médicos também. Devia sair dessa cama, procurar um psicólogo, fazer análise, entrar na natação, abrir um restaurante, qualquer coisa que te trouxesse de novo. Devia era...
A voz feminina e aguda continua a soar, mas as palavras são inaudíveis, abafadas por trovões, cada vez mais fortes. Da grande janela, uma luz vazada de dia branco ilumina o quarto e torna ainda menor as pupilas perdidas. A mulher, de pele tom -quase-pálido, se levanta da poltrona ao lado da cama e, num só movimento, fecha as cortinas. Como um reflexo, nele fecham-se os olhos.
-A chuva nunca é igual, já percebeu? Ouve só esse barulho...Ele nunca mais volta igual pra você.
O rosto jovem, a graça do sotaque. Os cabelos compridos ("parece índia!"), aquela que sorria com os olhos sorri.
Ele, mais cabelo e menos barriga, pula da rede estendida na varanda, corre para a areia. A existência cede espaço à vida, que se sente pé pós pé, passo pós passo, deixados nas pegadas sobre os grãos empapados de água do mar vinda do céu.
-VEM! Vem sentir! Estão chovendo os segundos! Choveu um, choveu dois, ó outro ali...Eles não param!
Da varanda, três amigos riem e brindam a tempestade. Ela, índia dele, não dispensava a chuva e nunca fechava as cortinas. Dança da chuva, dele e dela. Dança do tempo. Pulo e giro e grito e beijo e ela se molhando de segundos que nunca mais voltariam para ele.
terça-feira, 5 de julho de 2011
O rio pelo mar.
Manhã que chega,
Noite não tarda
Tarde era antes,
Agora é passado.
Foi um nãoseiquê de instante, o silêncio da distância, o excesso da proximidade. Seu rosto perto demais do meu, meu corpo longe demais do seu. Alguma coisa que um dia se fez, e desfez. E então acordei sem sentir a pontada no peito, a fisgada no estômago, esses gritos da alma no corpo que, em dor, exclamam vida. Gritos que berravam por você, mas que no fundo (e eu sabia) sussurravam por mim. E neles te vivia assim: Próximo, bem perto, bem vivo, como nunca fora. E aí a saudade era boa e a dor anestesiante. A verdade é que em meandros de alma e corpo, fisgadas, espasmos, sorrisos e gritos, talvez fosse só amor. De um amor mais meu, mais por gosto de mim, do que por apego a você. Amor egoísta, mas não menos bonito. Até que um dia, uma noite, ele não deu sinal de vida. Cadê a fisgada? Não sinto o aperto. Olhei sua foto, e forçei lembrar. Não dos erros, não. Dos porquês, dos "por onde". Por onde eu te encontrava, tão fácil em mim, que agora mal consigo ver? E a resposta veio, não em gritos, mas em sussurros, que baixinho anunciaram a calmaria. O lado bonito em que mora a saudade, e nada mais.
(Entrego ao acaso a chance de te encontrar,
quem sabe um dia,
de novo, aqui).
Noite não tarda
Tarde era antes,
Agora é passado.
Foi um nãoseiquê de instante, o silêncio da distância, o excesso da proximidade. Seu rosto perto demais do meu, meu corpo longe demais do seu. Alguma coisa que um dia se fez, e desfez. E então acordei sem sentir a pontada no peito, a fisgada no estômago, esses gritos da alma no corpo que, em dor, exclamam vida. Gritos que berravam por você, mas que no fundo (e eu sabia) sussurravam por mim. E neles te vivia assim: Próximo, bem perto, bem vivo, como nunca fora. E aí a saudade era boa e a dor anestesiante. A verdade é que em meandros de alma e corpo, fisgadas, espasmos, sorrisos e gritos, talvez fosse só amor. De um amor mais meu, mais por gosto de mim, do que por apego a você. Amor egoísta, mas não menos bonito. Até que um dia, uma noite, ele não deu sinal de vida. Cadê a fisgada? Não sinto o aperto. Olhei sua foto, e forçei lembrar. Não dos erros, não. Dos porquês, dos "por onde". Por onde eu te encontrava, tão fácil em mim, que agora mal consigo ver? E a resposta veio, não em gritos, mas em sussurros, que baixinho anunciaram a calmaria. O lado bonito em que mora a saudade, e nada mais.
(Entrego ao acaso a chance de te encontrar,
quem sabe um dia,
de novo, aqui).
terça-feira, 28 de junho de 2011
Logo mais a frente, estamos iguais.
Quero a poesia e o poema
do templo, a casa
do tempo,
delírio efêmero,
onde enterramos o amor
Roda viva entre nós
que não sabemos da razão
que no canto, vemos tanto,
tempo não importa mais
Dos anos, espero eu,
me espero logo ali
No canto do amanhã,
o reencanto,
o reencontro
de todos
nós
do templo, a casa
do tempo,
delírio efêmero,
onde enterramos o amor
Roda viva entre nós
que não sabemos da razão
que no canto, vemos tanto,
tempo não importa mais
Dos anos, espero eu,
me espero logo ali
No canto do amanhã,
o reencanto,
o reencontro
de todos
nós
quinta-feira, 2 de junho de 2011
ponto sem nó
Quando o dia é retalho,
manga sem pano pro dia qu'vem
-Quando o dia é de sempre-
Há'de'se desconfiar
se a roupa ainda lhe convém
manga sem pano pro dia qu'vem
-Quando o dia é de sempre-
Há'de'se desconfiar
se a roupa ainda lhe convém
sábado, 28 de maio de 2011
A pia
Dona Dalgiza não vive grandes entusiasmos na vida. Não lhe interessam as notícias: De economia, bastam-lhe as suas, e a política, "credo". Tem pavor à tecnologia, e à rapidez com que ela evolui. Desconfia de qualquer macro iniciativa, para ela o mundo se constrói de pequenas boas ações: Entre o regar das pimenteiras, "pra espantar o mau olhado!", e o distribuir das balas carameladas, alegria de Juca, Jonas e Joice, os trigêmeos do andar de baixo. Quando sol, gosta da rua, e mais das pessoas. Quando chuva, gosta de tango, e mais das cartas. E assim, em oitenta e cinco anos de micro atos, fez-se o nosso personagem: Semblante gordo e generoso, não havia quem negasse.
Mas em razoável tempo de vida, não há quem não estabeleça preferências. E de todas as micro manias, a que mais agrada Dona Dalgiza se encontra na cozinha: Na pia. Ali, naquele espaço entre a torneira e o fundo de alumínio, entre o sujo e o mal lavado, empilhava-se todo o caos, nunca visto, de dona Dalgiza. E diante dele, ela se perdia, e perdia horas de pura contemplação. Dependia da pia para reviver seu dias e construir sua memória. Mais um domingo, e do banquinho da cozinha, a dona admira sorridente a louça acumulada do dia anterior: Duas xícaras de porcelana com borrões de chocolate, uma colher de sopa amassada e um canecão com o inscrito "Viva o Verde". A pia, sempre a maior das confissões dos melhores deleites e orgias do dia.
Manhã, as xícaras e os borroes de chocolate:
Depois de meses sem me ver, Amélia veio me visitar. A safada criou alzheimer! Quanta ingratidão! Todas nossas memórias perdidas... A tradição com Amélia sempre fora o chá de tomilho. Ela adorava. Mas ela me adorava também...e agora mal sabe meu nome, a infeliz! Anos de amizade pra isso. Não podia deixar barato. Amélia sempre destestou chocolate. Tinha pavor de cacau. Preparei dois chocalates quentes, bem amargos, pra toda amargura que sentia. E não é que a sem vergonha bebeu, lambeu os beiços gordos e pediu mais? Vai entender essa tal de memória...
Tarde, a colher amassada:
Depois de duas horas lembrando e esquecendo o endereço de casa, Amélia foi embora. Graças! Deitei na rede pra apreciar o silêncio dos meus pensamentos, quando tocou a campainha. Não era Amélia. Era Juca. Juca, Jonas e Joice, o trio elétrico. Vieram reclamar minha ausência na varanda essa manhã, mas os danados queriam mesmo eram as balas carameladas. O estoque tinha acabado. "Sem bala, a gente não vai embora, dona dalgiza". Apelei pra mágica: "Hoje vou trocar as balas por um truque de mágica". Eles sorriram e eu respirei aliviada. Peguei uma colher, o velho truque da colher amassada. Eles acreditaram tanto na força do pensamento, que, como num truque de mágica, minutos depois os três sumiram contentes. Mas não mais que eu.
Noite, o canecão "Viva o verde":
Pós soneca. Chega à minha casa um jovem: "Com licença senhora. Estamos recolhendo integrantes para participar de uma passeata aqui na rua, daqui a pouco. A causa é nobre: Defendemos a preservação do verde". Me animei, achei bonito! Não a causa, o jovem, claro. Me uni àquelas pessoas exasperadas, gente, cruz credo, que multidão. tava nervosa, quase arrependida, mas aí o bonitão me ofereceu um cigarrinho, disse que relaxava. Não é que funcionou mesmo? Tava bem zen quando olhei pra cima e li a faixa: "Marcha da maconha: Viva a legalização!". Me lembrei de Amélia, que se estivesse comigo, e se lembrasse de alguma coisa, se desesperaria com a situação. Pensei em ir embora, sumir, feito mágica, feito Juca, Jonas e Joice. Mas decidi que gostava daquilo. O bonitão continuava do meu lado.
Mas em razoável tempo de vida, não há quem não estabeleça preferências. E de todas as micro manias, a que mais agrada Dona Dalgiza se encontra na cozinha: Na pia. Ali, naquele espaço entre a torneira e o fundo de alumínio, entre o sujo e o mal lavado, empilhava-se todo o caos, nunca visto, de dona Dalgiza. E diante dele, ela se perdia, e perdia horas de pura contemplação. Dependia da pia para reviver seu dias e construir sua memória. Mais um domingo, e do banquinho da cozinha, a dona admira sorridente a louça acumulada do dia anterior: Duas xícaras de porcelana com borrões de chocolate, uma colher de sopa amassada e um canecão com o inscrito "Viva o Verde". A pia, sempre a maior das confissões dos melhores deleites e orgias do dia.
Manhã, as xícaras e os borroes de chocolate:
Depois de meses sem me ver, Amélia veio me visitar. A safada criou alzheimer! Quanta ingratidão! Todas nossas memórias perdidas... A tradição com Amélia sempre fora o chá de tomilho. Ela adorava. Mas ela me adorava também...e agora mal sabe meu nome, a infeliz! Anos de amizade pra isso. Não podia deixar barato. Amélia sempre destestou chocolate. Tinha pavor de cacau. Preparei dois chocalates quentes, bem amargos, pra toda amargura que sentia. E não é que a sem vergonha bebeu, lambeu os beiços gordos e pediu mais? Vai entender essa tal de memória...
Tarde, a colher amassada:
Depois de duas horas lembrando e esquecendo o endereço de casa, Amélia foi embora. Graças! Deitei na rede pra apreciar o silêncio dos meus pensamentos, quando tocou a campainha. Não era Amélia. Era Juca. Juca, Jonas e Joice, o trio elétrico. Vieram reclamar minha ausência na varanda essa manhã, mas os danados queriam mesmo eram as balas carameladas. O estoque tinha acabado. "Sem bala, a gente não vai embora, dona dalgiza". Apelei pra mágica: "Hoje vou trocar as balas por um truque de mágica". Eles sorriram e eu respirei aliviada. Peguei uma colher, o velho truque da colher amassada. Eles acreditaram tanto na força do pensamento, que, como num truque de mágica, minutos depois os três sumiram contentes. Mas não mais que eu.
Noite, o canecão "Viva o verde":
Pós soneca. Chega à minha casa um jovem: "Com licença senhora. Estamos recolhendo integrantes para participar de uma passeata aqui na rua, daqui a pouco. A causa é nobre: Defendemos a preservação do verde". Me animei, achei bonito! Não a causa, o jovem, claro. Me uni àquelas pessoas exasperadas, gente, cruz credo, que multidão. tava nervosa, quase arrependida, mas aí o bonitão me ofereceu um cigarrinho, disse que relaxava. Não é que funcionou mesmo? Tava bem zen quando olhei pra cima e li a faixa: "Marcha da maconha: Viva a legalização!". Me lembrei de Amélia, que se estivesse comigo, e se lembrasse de alguma coisa, se desesperaria com a situação. Pensei em ir embora, sumir, feito mágica, feito Juca, Jonas e Joice. Mas decidi que gostava daquilo. O bonitão continuava do meu lado.
domingo, 8 de maio de 2011
مخفی
Embaçado, como os sonhos costumam ser.
Um casarão de outros tempos, de grande salão e janelas. Madeira e vidro, e o frio lá fora.
Nublado, como os céus quando não querem aparecer, apenas observar, preguiçosos, os caóticos aqui de baixo.
Então, eis que surgimos. Dois invisíveis num casarão passado. Ela brinca com o vinho, e canta com a taça. Ele não brinca, mas canta. Sem perceber que a canção já estava ali, muito antes dele chegar. Ela dança, cabelos soltos, no ritmo do vento- que ela não vê, lento, do lado de fora. Ele olha pro vidro, e vê o vento- mas, dentro, não a vê.
Ele poderia ser mais atento. Mas, nos sonhos, eu sempre te perdôo.
Um casarão de outros tempos, de grande salão e janelas. Madeira e vidro, e o frio lá fora.
Nublado, como os céus quando não querem aparecer, apenas observar, preguiçosos, os caóticos aqui de baixo.
Então, eis que surgimos. Dois invisíveis num casarão passado. Ela brinca com o vinho, e canta com a taça. Ele não brinca, mas canta. Sem perceber que a canção já estava ali, muito antes dele chegar. Ela dança, cabelos soltos, no ritmo do vento- que ela não vê, lento, do lado de fora. Ele olha pro vidro, e vê o vento- mas, dentro, não a vê.
Ele poderia ser mais atento. Mas, nos sonhos, eu sempre te perdôo.
segunda-feira, 25 de abril de 2011
Parte do resto
O que em ninguém cabe é o que se esconde.
Todo o resto, que não é excesso, mas falta.
Falta, mas não se perde, porque está escondido entre quem é o que é, e não se deixa não ser.
Entre quem vive só um mundo, externo, visível, declarado. O escondido está no risível. Disfarçado entre um gesto e outro de verdade, entre um solo e outro de guitarra, entre olhares que falam nos segundos do tempo. Quando, pelo acaso ou consciência, topo com esse mundo desencontrado, me sinto não sendo, e só aí sou por completo.
Quando não pertenço, quando estoura o clarão de entendimento, quando não e sim se ausentam.
Sou pelo breve dos momentos em que tudo faz sentido, e se torna tão pequeno. Quando a vida- mentida, mantida de todos os dias- é mais do que poesia, e tão quão, muito mais do que damos a ela chance de ser. Quando o menino tem o que comer, quando o amor não é desculpa para sofrer. Quando, entre engulhos, mergulho ao íntimo do que nunca foi dito, e, sendo o que não sou, vago entre mundos. E volto.
Liberto o pensamento no labirinto regrado e torço para que ele escape. Espalho pela calçada acimentada minhas pegadas invisíveis- que corram para o mundo! Lanço na multidão meu grito calado, com todas as palavras, não tão bonitas, e toda a esperança, tão vívida, de imigrante perdido, descobrindo os cantos de todo o resto escondido.
Como é bonito não ser.
Todo o resto, que não é excesso, mas falta.
Falta, mas não se perde, porque está escondido entre quem é o que é, e não se deixa não ser.
Entre quem vive só um mundo, externo, visível, declarado. O escondido está no risível. Disfarçado entre um gesto e outro de verdade, entre um solo e outro de guitarra, entre olhares que falam nos segundos do tempo. Quando, pelo acaso ou consciência, topo com esse mundo desencontrado, me sinto não sendo, e só aí sou por completo.
Quando não pertenço, quando estoura o clarão de entendimento, quando não e sim se ausentam.
Sou pelo breve dos momentos em que tudo faz sentido, e se torna tão pequeno. Quando a vida- mentida, mantida de todos os dias- é mais do que poesia, e tão quão, muito mais do que damos a ela chance de ser. Quando o menino tem o que comer, quando o amor não é desculpa para sofrer. Quando, entre engulhos, mergulho ao íntimo do que nunca foi dito, e, sendo o que não sou, vago entre mundos. E volto.
Liberto o pensamento no labirinto regrado e torço para que ele escape. Espalho pela calçada acimentada minhas pegadas invisíveis- que corram para o mundo! Lanço na multidão meu grito calado, com todas as palavras, não tão bonitas, e toda a esperança, tão vívida, de imigrante perdido, descobrindo os cantos de todo o resto escondido.
Como é bonito não ser.
quinta-feira, 21 de abril de 2011
Trevo
Vem ver o verde
em que vive
o vão
o vão entre ver e vir
é o verde
do viver
Vive vão
o verde que vem
e não é visto
Isto! Verão? Vem viver o verde que o mundo (não) vê.
em que vive
o vão
o vão entre ver e vir
é o verde
do viver
Vive vão
o verde que vem
e não é visto
Isto! Verão? Vem viver o verde que o mundo (não) vê.
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Ponto e vírgula
Pára, não adianta mais. Não por mim, nem por você. Não pelo que temos, mas por tudo que nem chegou a ser. Ser e ter. Seremos? O que temos? Não somos pela falta. E o que nos falta é o absurdo dos detalhes - os detalhes! Pequenos que nos tornariam grande. Mas ninguém vê. Talvez você saiba. Talvez você saiba da vontade de só ser. E ser só nessas pequenas coisas, nos menores dos momentos. Qual o mistério? Não sabemos. E aos pouquinhos, em pequenas doses, como tudo o que temos, vamos nos perdendo. Até um dia eu nem saber mais o por que de toda a dor. De todo incômodo, já indolor. Você veio, mas só passou. Que tal o contrário? Romanceêmos mais a vida. E vamos deixar o casual só para os momentos especiais.
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Pra você, é mais.
Em tanto - E mais -
Se resumem meus votos procê:
No carinho que sinto
E no tanto que falta
No perto que é longe
- E mais -
No espaço que vivo
O bem que você faz
Em tanto, e mais:
Que o fim seja o meio,
E o começo só depois
Que a saudade seja boa
E os momentos, nada à toa
E em tudo, MAIS.
Mais a poesia
Mais os discos
Mais a falta do por que.
Mais viver!
Mais da gente nesses anos que esperam por você.
(Que não precise de nada além da vontade pra se tá por perto. Parabéns, os mais sinceros!)
sexta-feira, 1 de abril de 2011
# Pra não se inutilizar
O que falta é perceber que não há modo certo de ser. Foi assim, entre todo aquele mundo estranho, que não me assistia da platéia, porque era todo um palco só, quando tudo ficou tão claro. A liberdade de ser o que quisermos, e levar o melhor de tudo isso. O drama faz parte. Assim como é tolice reprimir o que vemos, é tão maior a besteira de negar a simplicidade de nos fazermos bem. O mundo tá aí, com planos de fundo e trilhas sonoras, só esperando por nós. Não me deixe esquecer de como me sinto agora. Obrigada, John.
sexta-feira, 25 de março de 2011
Segredo do mundo
"O coração, se pudesse pensar, pararia" O meu palpite hoje não é puro, nem palpável, nada homogêneo. Não está no alfabeto, porque não é feito de letras. Aurélio não sabe o segredo. Talvez o guardem os chineses, em um de seus anagramas, protegidos por dragões seculares. Ou os Celtas! Na queda da noite daquelas festas místicas, um druida talvez o tenha percebido. Nesse caso, já era. Tá lá, sob o solo europeu, alimentando, com o segredo do mundo, a vida orgânica de milhões de microorganismos. Bem embaixo de nossos pés! Sapatos e saltos altos os pisam todos os dias, enquanto chapéus e óculos escuros não nos deixam nem a chance de procurá-lo pela via láctea, entre uma nuvem e outra que passa, entre uma geada e outra que quase nunca cai. O segredo do que? É o segredo da alma. Da vida que grita e sufoca, mas nós a sufocamos mais, porque a humanidade hoje é isso. É o epicentro do nosso umbigo. "Nosso" é um eufenismo, claro. A humanidade mesmo é o epicentro do umbigo do Obama. Do Kadafi. Do google! E o segredo dela é estampado, todos os dias, em outdoors, semanalmente nas novelas, e no Faustão aos domingos. O segredo escancarado e sem vergonha de quem manda e não quer ser visto, mas todo mês à mostra e em promoção nas vitrines. Certamente não falamos a mesma língua. O segredo que procuro é mais raro, discreto e um pouco menos exclusivista. O rumo que me sugerem, vem de um mapa criado por um umbigo, e eu não quero ser seu epicêntro. Não é esse o segredo do mundo, escondido em processos de evaporação ou no subsolo terrestre. Se eu fosse o celta que viu a queda da noite naquela festa mística, apostaria no palpite de que nada disso é tão relevante como dizem por aí. Por via das dúvidas, não deixo de atentar para o céu, para o solo, para a chuva, e quem sabe um dia, seja eu a ver tudo isso.
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
Quartzo de amantes
Seguiu como seguem seus textos, assim, passo pós passo, não estava: Passava. Respirando as sílabas engasgadas das últimas palavras não ditas. O que foi que eu disse? Horas desencadeadas em nossos segundos, encadeados em areia, partículas secretas de milhões de anos. O tempo e o grão. Todo minimalismo cedia espaço para nossa imensidão, e ninguém nunca mais a recuperaria. Talvez seja esse o segredo de toda grandiosidade. Nós, testemunhas de nós mesmos; do corpo, dos olhos, do vento nos cabelos. Nós, enredo inventado, deitados em segredos de anos atrás. Nós, nosso próprio rochedo, sedimentos presentes de futuros sinais. Quem vai ser o sábio da vez? Porque a graça é não saber, é o ir e vir de passar sem correr. Ouvimos o conselho do mar, e seguimos adiante, como seguem os amantes de uma noite, talvez.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
domingo, 23 de janeiro de 2011
Assalto, salta fora ilusão
Quem pensas que és
para de tirar de mim
o que não te falta
Sim,
meu sossego agora salta,
samba em outro endereço
meu sossego não tem preço
não tem prazo
só as pernas e o abraço
que me envolvem num acaso,
num espaço para dois
Quando o fim da canção dança
só me resta a esperança
de dançar mais uma vez
Quem acha que dançando
só se embroma mais um passo
Não arrisca o descompasso
de viver pelo talvez
Pois, meu bem,
já não é espanto,
quem não sabe que o encanto
não exige perfeição
Nada digo, tudo calo
Pelos olhos sei que falo
admito seu perdão
Pois agora já é tarde
Já roubaste meu sossego,
Me deixou sequer um "não"
O batuque da canção,
faz dançar a alvorada
é o fim da temporada
das promessas, dos amantes
Muda, arrisco mais um passo,
Sigo em frente, radiante,
Não verás em mim um traço
nem um rastro de ilusão
Pois, meu bem, minha mentira
é enganar meu coração
Já sabemos que o silêncio
é o embalo da paixão.
para de tirar de mim
o que não te falta
Sim,
meu sossego agora salta,
samba em outro endereço
meu sossego não tem preço
não tem prazo
só as pernas e o abraço
que me envolvem num acaso,
num espaço para dois
Quando o fim da canção dança
só me resta a esperança
de dançar mais uma vez
Quem acha que dançando
só se embroma mais um passo
Não arrisca o descompasso
de viver pelo talvez
Pois, meu bem,
já não é espanto,
quem não sabe que o encanto
não exige perfeição
Nada digo, tudo calo
Pelos olhos sei que falo
admito seu perdão
Pois agora já é tarde
Já roubaste meu sossego,
Me deixou sequer um "não"
O batuque da canção,
faz dançar a alvorada
é o fim da temporada
das promessas, dos amantes
Muda, arrisco mais um passo,
Sigo em frente, radiante,
Não verás em mim um traço
nem um rastro de ilusão
Pois, meu bem, minha mentira
é enganar meu coração
Já sabemos que o silêncio
é o embalo da paixão.
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Conversa de indulgentes
- Cara, não foi assim. Não foi assim que eu percebi tudo. A questão é que crescemos acreditando em amor isso, amor aquilo, que merda de amor é esse que une duas pessoas a ponto de abandonarmos o infinito de pessoas no resto de todo o mundo? E por que? Por que essa necessidade de ter uma única pessoa ao lado para o resto da vida?
- Necessidade? Amor é necessidade agora? Palavras dignas de um machista nato. Necessidade é respirar, dormir e evacuar.
- Evacuar? Palavra digna de uma romântica insólita.
- Insólita, Bernardo?
- Engraçado, apostei que o "romântica" te incomodaria mais que o "insólita". Vai dizer que não? Você é completamente inabitual, Isa.
- Inabitual é um bom adjetivo. Insólita também seria, se não tivesse a carga de sarcasmo nada inabitual a você.
- E romântica?
- O romantismo hoje é não dizer ''cagar''? Que merda.
Os dois amigos se olharam com um olhar complacente, que só poderia ser compreendido assim, daqueles que não cabem ambiguidade ou mais reflexões. Tolerando com os olhos o que não seria retificado com risadas.
- O que eu quero dizer, Isa, é que o romantismo e o amor são duas coisas diferentes. Nunca duvidei do romantismo, pelo contrário, sou favorável a ele. É um rastro real do amor, porque não é mascarado. Todo mundo sabe que o romantismo é construído, e ninguém questiona isso. O que me incomoda é a naturalidade que as pessoas conferem ao amor.
- Você fala como que se o amor fosse uma lei. Um golpe de estado. Um truque de Adam Smith para reforçar o capitalismo. E o amor é tão óbvio, só não enxerga quem não quer. É simples: Se eu amo, eu quero estar junto, e isso não é imposto por nenhuma força oculta da sociedade, simplesmente se sente. Óbvio demais para ser inventado.
- O clipe é só uma presilha com função de mola para prender folhas e papéis. Bem simples, bem inventado.
- Nossa! Que comparação mais infeliz.
- Não, não é não. Aliás é BEM feliz, porque o amor também tem a função de prender pessoas. Caralho! Nunca tinha chegado a uma metáfora tão real: O amor é um clipe.
- Eu não tô ouvindo isso. E as pessoas são papéis, né?
- Pelo menos os representam o tempo todo. Os mais voláteis papéis.
- É, Bê. Você agora, por exemplo, tá assumindo o papel do "revolucionário dos trocadilhos".
- Viu só como concordamos? Eu não sou com a minha mãe o que eu sou com você e nem sou com você o que sou com meu chefe, ou com meu vizinho. Quando compro pão e mortadela toda manhã, o "bom dia" que desejo ao padeiro é o mais ordinário papel que assumo. Qual é o seu mais trivial papel?
- Talvez o da romântica insólita. E talvez por isso você não tenha se apaixonado por mim. Quem sabe? Jogar o seu jogo é tão fácil, Bernardo Campos. O amor não existe. Assim como a moda, como os vícios, como o mais reles dos papéis. É tudo tão bem articulado que não pode ser construído por nenhum ser humano. Tolo é amor? Tolo é você que confere a alguém a capacidade de inventar o que não existe. E se não existe nada, por que continuar vivendo? Vamos nos entregar e abdicar da vida, como o clipe que não prende bem e vai para lata do lixo. O meu palpite é esse: Basta acreditar que o clipe é um clipe para que ele exista para sempre.
- Isadora Reis, eu amo você.
- Necessidade? Amor é necessidade agora? Palavras dignas de um machista nato. Necessidade é respirar, dormir e evacuar.
- Evacuar? Palavra digna de uma romântica insólita.
- Insólita, Bernardo?
- Engraçado, apostei que o "romântica" te incomodaria mais que o "insólita". Vai dizer que não? Você é completamente inabitual, Isa.
- Inabitual é um bom adjetivo. Insólita também seria, se não tivesse a carga de sarcasmo nada inabitual a você.
- E romântica?
- O romantismo hoje é não dizer ''cagar''? Que merda.
Os dois amigos se olharam com um olhar complacente, que só poderia ser compreendido assim, daqueles que não cabem ambiguidade ou mais reflexões. Tolerando com os olhos o que não seria retificado com risadas.
- O que eu quero dizer, Isa, é que o romantismo e o amor são duas coisas diferentes. Nunca duvidei do romantismo, pelo contrário, sou favorável a ele. É um rastro real do amor, porque não é mascarado. Todo mundo sabe que o romantismo é construído, e ninguém questiona isso. O que me incomoda é a naturalidade que as pessoas conferem ao amor.
- Você fala como que se o amor fosse uma lei. Um golpe de estado. Um truque de Adam Smith para reforçar o capitalismo. E o amor é tão óbvio, só não enxerga quem não quer. É simples: Se eu amo, eu quero estar junto, e isso não é imposto por nenhuma força oculta da sociedade, simplesmente se sente. Óbvio demais para ser inventado.
- O clipe é só uma presilha com função de mola para prender folhas e papéis. Bem simples, bem inventado.
- Nossa! Que comparação mais infeliz.
- Não, não é não. Aliás é BEM feliz, porque o amor também tem a função de prender pessoas. Caralho! Nunca tinha chegado a uma metáfora tão real: O amor é um clipe.
- Eu não tô ouvindo isso. E as pessoas são papéis, né?
- Pelo menos os representam o tempo todo. Os mais voláteis papéis.
- É, Bê. Você agora, por exemplo, tá assumindo o papel do "revolucionário dos trocadilhos".
- Viu só como concordamos? Eu não sou com a minha mãe o que eu sou com você e nem sou com você o que sou com meu chefe, ou com meu vizinho. Quando compro pão e mortadela toda manhã, o "bom dia" que desejo ao padeiro é o mais ordinário papel que assumo. Qual é o seu mais trivial papel?
- Talvez o da romântica insólita. E talvez por isso você não tenha se apaixonado por mim. Quem sabe? Jogar o seu jogo é tão fácil, Bernardo Campos. O amor não existe. Assim como a moda, como os vícios, como o mais reles dos papéis. É tudo tão bem articulado que não pode ser construído por nenhum ser humano. Tolo é amor? Tolo é você que confere a alguém a capacidade de inventar o que não existe. E se não existe nada, por que continuar vivendo? Vamos nos entregar e abdicar da vida, como o clipe que não prende bem e vai para lata do lixo. O meu palpite é esse: Basta acreditar que o clipe é um clipe para que ele exista para sempre.
- Isadora Reis, eu amo você.
sábado, 1 de janeiro de 2011
Três Marias
Fria Fria
Noite cai
Manto negro perfurado
pontos claros
demarcados
cá em cima
tanto antes
Fina Fina
Agulha aponta
para a manta da menina
mãos,
outrora olhos aprendizes,
fiam fáceis
órion, hércules, seus cruzeiros
Minha Velha, cá embaixo
ensaia o balanço da cadeira
Maestra,
entre a dança de seus dedos,
linhas traçam
seus segredos
Noite e manta
E minha velha
Três marias de milênios
Uma estrela, que idade?
Uma ruga, qual o brilho?
Uma agulha no tecido
Ponto a mais
Noite a dentro
Noite passa
Ponto dentro
Noite e Manta
e Minha velha
Para sempre
Três marias
Noite cai
Manto negro perfurado
pontos claros
demarcados
cá em cima
tanto antes
Fina Fina
Agulha aponta
para a manta da menina
mãos,
outrora olhos aprendizes,
fiam fáceis
órion, hércules, seus cruzeiros
Minha Velha, cá embaixo
ensaia o balanço da cadeira
Maestra,
entre a dança de seus dedos,
linhas traçam
seus segredos
Noite e manta
E minha velha
Três marias de milênios
Uma estrela, que idade?
Uma ruga, qual o brilho?
Uma agulha no tecido
Ponto a mais
Noite a dentro
Noite passa
Ponto dentro
Noite e Manta
e Minha velha
Para sempre
Três marias
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