quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

A coisa das coisas

Toda coisa tem si uma coisa que é só sua. E eu, que sempre valorizei a forma abstrata como nasce o pensamento e, demasiadamente, sigo confiante na minha memória, me pego hoje de mãos e pés atados à concretude das coisas. Cato em cada canto do meu quarto os detalhes que me significam. A parede tom de cereja, a impressão dos girassóis, a garrafa de vidro de um reveillon feliz que hoje guarda a flor de bananeira feita à mão por um passante na Lapa. As fotos que revelam gente e gente que revela saudade. O piano que nunca toquei, o Dorival Caymmi que quase quebrei de tanto ouvir. Um violão herdado do qual só tiro, e mal tirado, um Belchior e olhe lá. A almofada azul e marrom, um quadro pequeno de uma ponte de Praga e um quadro grande de uma feira do Rio. Cada coisa traz em si um tanto de outras coisas que a cada "bom dia!" se distanciam delas próprias e me aproximam mais de mim.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Pedra dá passagem

Peguei minha bike e fui direto pela Orla. A neblina era tanta e tão baixa que dava a ilusão de um Arpoador sem pedra. Pedalei, pedalei, pedalei. Pedalei com a vontade dos amantes que dão o último beijo e da criança que não quer dormir nunca para não parar de brincar jamais. Pedalei tanto que fiz até ventar e a pedra apareceu, agora mais perto. Soltava as mãos do guidon, sem me lembrar de quando foi que aprendi a fazer isso. Subi na pedra e fiquei por lá, tentando lembrar um tanto de coisa sem começo, um tanto de outras sem fim. Acho que deve ser assim que os velhinhos se sentem um pouco a cada dia. Ouvi o mar bater na pedra, como tantas outras vezes ao longo desses quatro anos, mas diferente. Não tinha sol, nem calor, nem céu azul, e eu me arrependi de não ter ido de biquíni. Um filme passou na cabeça, riso e choro, aperto no fundo e no raso da alma, sabe? Nada melhor do que um dia branco pra sentir a liberdade. E como o sentir é passageiro, entrei no mar, só para deixá-lo por lá. Com a impressão de, a cada mergulho futuro, poder trazê-lo de volta.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Parar para escrever é dar brecha ao que no fundo, bem no fundo, vive adormecido. Cutucar a mágoa sem jeito que, feito mar em dia manso, feito rede em balanço, embalava a minha paz. Do silêncio virar saudade, da idade, um tempo atrás.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Sonho de uma pintura

Cabelos ventados que invadem os pés no chão. Todos sem rostos, só as pernas desnudas ou os sapatos bem calçados, fixos, parados, mas perdidos, apontando para todas as direções. A direção do vento é uma só. E bastou a menina soltar os cabelos para que eles ventassem também. Os fios eram longos e coloridos atravessando as pernas dos que ocupavam aquele salão, como vagalumes iluminando a noite escura. O único rosto era o dela e tinha os olhos fechados, talvez por não julgar necessário ver. Ela já sabia pra onde ir e era leve o caminho.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Dia dois

Bom dia, um dia, a gente se viu
e os dias ficaram grandes
só p'ra um. Bom dia, 
e os dias fizeram-se melhores
e foram outros
e tantos 
em tão pouco
em sorriso largo
de dois



Rastro de pássaro de aço
cortante no azul imenso
sumindo
indo
até que vai
até você
longe
onde o imenso é de outra cor

Agora é hora

Não há tempo melhor do que o meu Não há meu maior do que hoje para ser tudo o que falta

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Chá

Preciso
de um chá de ânimo
para enfrentar
o desânimo do que apenas circunda
mas não aprofunda em si
em mim em ti em nada
em
tudo que se vê por aí
Impreciso
chance de encontro
revés de quem se acostuma
em ser um só
Quem ama quer vir a ser
e quase sempre se esquece
que só pode querer ser,
quando já somos




domingo, 13 de outubro de 2013

Mil de mim

Do que se fez,
Do que sentiu,
Do que calado partiu-se
em mil, 
de mim
O que me vem
a cada dia
é uma esperança de vida
que cresce, e vai, e voa
espalha-se numa boa
aos quatro cantos 
do mundo, 
ora raro, por vez moribundo
basta um só segundo
pra se fazer assim
feito
sentido
calado
partido
em mil, de mim



segunda-feira, 23 de setembro de 2013

157

Chove e é noite nublada. A gente não precisa de sol pra saber disso, basta não ver estrelas. Por um pouco mais de uma hora, eu corrompia minha rotina, atrasando minha chegada em casa. Às vezes dá vontade de fazer isso: atrasar, quebrar horários, só pra andar mais devagar, enganar o tempo e nós mesmos. Chove e eu entro no sebo, tiro da bolsa a folha amassada: Poulet,  Milton Santos, Nora, nada. Nem um livro, nem um item riscado. Pesquiso sobre história, memória e espaço, penso que o prazo é apertado e que eu bem que podia ter me planejado, mas a antecedência não gosta de andar ao meu lado.       Aceito comer, só pra esticar na rua. No restaurante, alguns rostos conhecidos, cumprimentos entusiasmados de quem se esbarra no acaso. Aquele lugar é bom, mas um pouco mais caro do que eu gostaria de pagar. E bem mais caro do que os quadros dali merecem. Isso é engraçado, várias mãos, tintas e traços, reunidos num mesmo espaço, vários pegadas apagadas no chão de pedra e quantas digitais lavadas na torneira de prata. Quanta gente e quanto nada. Com um amigo, divido a mesa, a conversa fiada e uma mini barra de chocolate amargo. Bom. Ainda chove, ele diz que não, a gente olha pra luz e descobre. Até o ponto de ônibus, sinais, poça, o cheiro de sopa e o metrô que passa, bem ao nosso lado, mais embaixo. 

Chove e eu não quero esperar mais. Pego o ônibus que passa. O motorista avisa que vai pela Lagoa, e que pode ser mais demorado. Eu topo o atraso. No ônibus, um casal de namorados. Eles sorriem bobos, como fazem os apaixonados. Um freio e dois tiros. Secos. Um corpo caído no chão molhado. O ônibus pára e eu olho pro lado. Dois policiais armados, com o punho esticado,  caminham, sem pressa, em direção ao corpo estirado. A namorada grita para que o ônibus saia, corra,  "que bala perdida é o que mais tem no Rio". Vida perdida. O motorista  é certeiro, "se for vagabundo é bem feito. Vagabundo tem que morrer". A cobradora concorda.

Viramos na Lagoa e o motorista é certeiro, "a maré tá alta".  Em Ipanema, sinal fechado. Paramos ao lado de um restaurante caro, esse certamente não tem aqueles quadros.  Do lado de dentro, a luz amarela ilumina casais e senhoras comportadas. "Um jantar são quatro semanas de trabalho", a cobradora ri. O motorista diz que ele é mais um churrasco.

O ônibus segue, mas o que ficou pra trás não pára. A cidade é movimentada e se faz entre um minuto e outro de atraso.


quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Onda do mar


Se vem
Se leva ou me leva
Se deixa ou me deixa
Ficar

Vem só
que só
Você já não está,
estado é um segundo suspenso
no ar

Vem
Que ir é um novo
Jeito de voltar

E nada mais me prende neste lugar

Que ver é mais
Sincero que falar

E nada mais me prende neste lugar

Se 
Acaso minha sorte mudar
Levo do mar, o sal
Do presente, o meu mal
Deixo pra lá


Que nada mais me prende neste lugar


segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Sendo



Não poder ser tudo o que quero, 
nem tão pouco tudo o que deseja o outro,
me dá espaço pra ver muito de tudo
o que eu nem imaginava ser.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Já é revirada

Lençóis nunca me bastaram para assegurar o sono.
Eu preciso do peso. O peso de uma colcha remendada 
que desenha na cama os meus contornos.
Minhas curvas, minhas costas, minha coluna inclinada.
Quando acordo, a cama é revirada,
quente e amassada dos sonhos que dormem ali
De ti, mais nada
a leve lembrança pesada, que me cobre
o peito, a boca, minha manhã-madrugada.



quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Pés

Na última música,
a gente dança
a gente dança
a dança flutuante
Tudo estranho
como a primeira vez
como a primeira vez
que te vi

Quem está por cima?
Os dois estão sós
e nus
Quem nos guia?
Somos só nós
quando
os pés saem do chão

Tudo está como antes
a velha mesma canção
e agora é nunca mais
quando os pés saem do chão

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Pichações

Disciplina. Pra seguir o meu caminho.
Olhos e orelhas bem abertos para o mundo,
tudo me distrái. E você, muito.
Um muro pichado de política. Suja é ela, ele tá limpo.
Pichado está tudo. Tudo por onde pisas, o quer que toques, tudo.
Tudo me distrái, e você, muito.


terça-feira, 13 de agosto de 2013

O maior dos mistérios

A gente cresce e parece que esquece da gente

A gente sente no corpo, as mudanças
das nossas andanças
Mas a alma não mente

A gente ama e chora
implora, jura que sabe
o melhor pra gente

A gente briga e sofre,
vai embora, nada é tão sério
quanto a dor da gente

A gente cresce e parece que esquece da gente

De quando era criança 
e todo mistério
se fazia presente

Das coisas bonitas
que podem ser ditas
assim, de repente

Menino, querido,
todo homem crescido
brota da semente

A gente cresce e parece que esquece da gente

E o maior dos problemas
é a gente quem cria
por ter esquecido
como é fácil sorrir












segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Sem você

O fim é um espaço entre nós
que, em si, nunca termina. O corpo.
Coberto de pele, feito de osso.
Meu corpo agora oco.
Por que Choras?
É agua que transborda de dentro, do fundo
do peito cheio,
que quase afoga.

No fim não reconheço
o contínuo recomeço
quem em mim agora mora?
É não querer ficar,
nem tão pouco ir embora
-quando tudo já se foi.


Do futuro fez-se hipótese
Da viagem, miragem
Do começo, memória
Da canção, vontade
Do sonho, o sono
Do sim, o não
Do todo, pedaço
Da força, cansaço
Do medo, abismo
De um, dois
De dois, distância
Do dia, dor
De dúvida, certeza
Do cheiro, falta
Do raso, o fundo
Do travesseiro, o mundo
De vazio o peito
De tanto, ainda
De inteira, fiz-me meia



domingo, 4 de agosto de 2013

A hora da saudade

Tentei hoje reparar com cuidado na tarde que vira noite.
O sol vai sumindo, sumindo, indo, até que foi. E aí a luz é um meio termo, nem clara, nem escura. As pupilas, ainda miúdas, se dilatam para saudar o véu azul marinho que se sobrepõe, se instaura e deixa tudo mais escuso.

Se existisse uma hora para a saudade seria essa que o sol se vai. A hora do vazio: a praia mais fria, a brisa que chega e as sombras que somem; é como um código secreto, o toque de recolhida: pra onde foi a multidão, o falatório e o calor de tudo isso? Calou. O dia despede-se das cores vibrantes, dos vendedores ambulantes. A "hora da saudade" antecede os bares cheios, o agito nas ruas, as pessoas que saem de suas casas esperando voltar com algo mais, nem que seja um porre.  É hora que transide e não demora: discreta, é preciso estar calmo para não perdê-la.  Na hora da saudade, qualquer silêncio vale mais. E as palavras que saem são todas crias dele.


terça-feira, 30 de julho de 2013

30.

O dedo e o vício

-nas mesmas palavras

A mente e o vício

-na fala apressada

A noite é o início

-de tudo que cala


Demais. Nas notas noturnas, só Charles, anjo 45, fala.
Como é que é, my friend Charles? Como vão as coisas chartas?























quarta-feira, 10 de julho de 2013

Passantes

Rua cheia, Hoje é dia, O dia em que as coisas acontecem, O dia da urgência, sem amanhã, que é o que mais se aproxima dos (bons) romances já lidos, O minuto que, não podendo esperar o seguinte, nos conduz à sua frente, para  fora do tempo dos relógios, para além das amenidades corriqueiras, E é nesse instante de pressa, de instinto, de vontade, que eu te encaro nos olhos. E aí. E aí vem os pontos. As pausas. Os passantes que passam os dias que lhe esperam. Os dias que? Perdão. Os dias não esperam, a gente é que vive esperando. Não é isso? Remediando um tempo que. Perdão. O tempo não tem cura. A gente é que vive matando. A gente. Na fila, no banco, no trânsito, nos pontos de ônibus, nas esquinas que cruzamos, no descaso que acostumamos, salários, sorrisos, orgasmos, respostas de tantos. A gente vive esperando. A gente. A rua tá cheia. E eu não te vejo mais.

domingo, 7 de julho de 2013

Se

Minha coluna curva
foram os dias quem fizeram
E nada aqui lembra você.
Feitos de "se", nada fizemos
era só parar o tempo
numa noite qualquer
Estender o momento,
Fazê-la de vida inteira,
mulher.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Adormeceres

Vem, me abraça forte, 
de você não vou saber
mais do pouco que sei?
Eu sei, é só medo 
de querer
de você, mais do que
eu podia ter
Os rabiscos ainda estão no quadro,
a sala, as cadeiras, a desordem da luz 
quando o sol te trazia
Mais um dia
Sem dizer o tanto
que guardo de gostar
de você.


sexta-feira, 7 de junho de 2013

Menina

Me sufoco em palavras que não saem. O que eu meu corpo pede é o respiro que ninguém pode dar, do ar que não existe em nenhum lugar, se não aqui. Dentro. O corpo que remói sentimento, cai a noite, mais uma noite, seguidas de tantas. A poesia nasce dela e morre com o dia. Com o esquecimento.  Com o bem que só de bem não me alimento. Busco nas cinzas, nas memórias frias, na canção que fazia dormir e me implorava pra não crescer, ser sempre o seu anjinho, quantas saudades eu vou ter. Vai ver crescer é um salto, um susto, o dia que nasce e a poesia que morre. Mas que pessimismo, menina. Ouça a canção que toca pra você. Just back into home. Porque tudo está aqui, aí, ardendo, queimando, você é fogo, cabelinho na venta, nariz que olha pro céu e esses olhos cinzentos? Da boca e do vento. Menina, você é bonita. Me dá um beijo e me faz de momento. Ninguém tem nada com isso, nada. nada. nada mar adentro, que o horizonte não é reto, nem é certo um só caminho.

O mar que vai

Frequentemente te desconheço.
Entre tantas coisas para não dizer, rompo o silêncio. Te falo. Te vejo. Nunca mais como te vi um dia. E a gente não precisa deixar o tempo passar, porque ele passa assim mesmo. O mar vai e areia fica. E o que é uma vida para todas as rochas que o vento desfez? Penso nas miudezas, nos bichinhos estranhos que vivem no breu, lá no fundo do mar. Somos também uns bichos estranhos. Sempre desviando das maneiras de amar. Muitas pessoas cruzam a rua e os dias poderiam ser diferentes. Não precisamos de tanto, além de tudo o que não temos. Tudo é pensamento, fragmentado e mal digerido entre um jantar e outro. Entre bom dia e como vai. Entre concreto e concreto. Te quero como sinto a música, só agora e nunca mais. Para sempre. 

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Notas

Algumas notas que me abrem a passagem de ar.

Um.
Não precisar dizer que está quando não está coisa nenhuma. Não está a paciência, nem eu tão pouco ciente das vias que vão nos guiando. Que vida estamos levando? Levar, eu levo o casaco para a noite fria do boteco aqui da esquina. O resto eu deixo por conta dela.

Dois.
A letra embolada turva a visão, ou a visão, já turva, faz da letra embolada?

Três.
Tenho sonhado muito e frequentemente me lembro de quase tudo. O sono é leve mas minha viagem, profunda. Vou lá em qualquer canto fantástico do inconsciente e resgato coisas bonitas, que vi - que vivi- em algum lugar não muito longe daqui.

Quatro.
Ficar a beira do caminho é não ir nem vir, deixar o cabelo apontar para a direção do vento.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Respiração

Encolhe.
Estufa.
Encolhe.
Estufa.
Encolhe.
Estufa.
Encolhe.
Estufa.
Encolhe,
Estufa.
Escolhe.

sábado, 25 de maio de 2013

Manhã de hoje

Às vezes me bate uma inércia. Buraco no peito que não se preenche.
Preciso ter fome. Fome de dia, de gente, fome de nomes e lugares.Mas hoje acordei enjoada.
Não quero comer nada
que aqui existe.
O gosto da boca vem do âmago do estômago. Vazio e Cheio.

Estiro meu corpo na cama e tento sentir o sangue pulsando. Cada membro termina em si mesmo. Dedos, unhas, pêlos. Como são estranhas as orelhas.

O homem na janela tem barba e me sorri sem jeito. No quarto tem cacto, toalhas, lençóis embolados. Avião passa. Voa longe, bem alto. Lá no céu.

Para onde será que vai? O tempo é sangue que corre pelas veias, pelas vias da vida.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Fiapo

um triz
um traço
triste
timbre
de fim

Fiapo
Assim
feito fio
de nailon
fugaz
farrapo
fagulha, em mim.

Fiapo,
tão fino
permeia
emaranhado
feitio de teia
você, do outro lado.

Fiapo
palhaço,
não és corda de aço!
se rompa
à vontade
me faça
estilhaço
em cada pedaço
metade
inteira
de mim.









 enfim,
feito corda
de aço
Fiapo, palhaço,
vê se larga de mim.
por que não se parte?
Me faz de metade





Triste fim
de mim
um trizim

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Nós, de vagar

Vago. Do nada para o nada, como fantasmas que dançam -
aparecem. E desmancham-se-
do início ao fim do filme.

Vago, todo entendimento humano
a mosca que pousa na sopa
o retalho de três panos
a barriga que respira
já um sono de criança

Vaga, a sorte que me sopra
devaneios e lembranças
Vaga morte logo brota
e renascem os instantes

Vago as dores
Vagas carnes
Vago os músculos que contraem-em
riso pranto amores um tanto
de odores espantos me fazem sonhar

Vagos lugares
em terra de cruzes
a vista
tão vaga não posso enxergar

Vagos lugares
minas, milhares
a ilha
distante onde quero abarcar

Vago o sangue
vagas hemácias
vagas moléculas
excretas, me vago.
me esvaio
me vou
me vai
me vem,
ainda que vago
um bocado de ninguém.




quinta-feira, 11 de abril de 2013

Salto não dado

Expurgo os fantasmas. Quando já não encontro as palavras, expurgo os fantasmas. Águo algo oco que vem de dentro e transborda, amarra meus pés como a corda que enforca e liberta. Me faço aberta, assim, só de quando em quando. Sou, então, o rastro que traço nessa terra, minério, áspera matéria. Um corpo que se arrasta, mas as rédeas estão soltas. Quem me guia? Fecho os olhos e me vem a imagem: não mais a estrada, o chão, essa terra mapeada. O azul. Luz que pinta os olhos, cor de um mundo só. são. não sou. A estrada continua, para onde vou? O tempo não foi feito para a pausa, o tempo, este bem e mal criado, nosso rei e nosso escravo, não foi feito para o amor. A memória me retalha em fragmentos: mãos compridas, um prato, a praça em ruínas e o terraço, o corte, a morte, meu vínculo e um laço, em ondas, a espuma, teus cabelos, enrolados. Eis que não demos o que podíamos. Eis que tínhamos: corpo, gestos e os joelhos flexionados. As palmas das mãos unidas apontando para baixo, lá, onde as vozes gritam, imploram pelo salto. Mas o cérebro falou mais alto e, como o médico que poupa o descanso aguardado, poupou-me do mergulho, minha válvula de escape. Os gritos continuam lá embaixo. Os gritos e todo o resto inesperado: tudo aquilo o que não fiz, o que não fui e não fomos, tudo por questões insanas chamada juízo e realidade.


.     

terça-feira, 2 de abril de 2013

Epifania

De tudo o que me vem
e p'ra tudo que me vai
um respiro

momento suspenso
na imensidão do tempo
o poeta e a montanha
o poeta e o amor
o poeta e o abismo

de tudo o que me foi.



sábado, 16 de março de 2013

Globo ocular


O encontro se dá no peso de tudo o que de mais leve há.

Sombra.
Zomba, puro desnudo dó,
primeira nota
primeiro o cheiro
à mingua,
a língua, o peito inteiro só
O que te faz seguro
sepulta a loucura,
instante obscuro maior.
Amor é se dar, não se dó
em sentimento tácito,
intensa, em tensa, graça
desfazer o nó
no âmago, na gente, um segundo. E só.
Em vôo noctívago a coruja vê o mundo.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Dreznica

A consciência me abduz do dia, como fazem as constelações pelos olhos noturnos. Cada ato, um abandono, cada passo, palavra, cada "sim", um abismo entre o eu e o mim. A coerência não exige permanência, permaneço. Embora a mente vá. O motor ainda gira, movimenta sonhos, cheiros, traz à tona tudo o que é ausência, o que não sei é o que me falta. Deixe ir. Deixe-me ir. Deixe vir. Bem te vi em algum sonho me disse que passa. Passa rápido e então deixe ir, deixe-me vir.

INDIGESTOS



ELISA, (40) - Mulher insatisfeita.
RENATO,  (43) - Marido acomodado.


JANTAR SERVIDO. UMA GRANDE TRAVESSA DE BETERRABA SOBRE A MESA. ELISA ENCARA O VAZIO DA CADEIRA À SUA FRENTE E SE SERVE COM UMA ÚNICA BETERRABA. RENATO CHEGA E SE SENTA NA CADEIRA ATÉ ENTÃO VAZIA.

Renato: Esse trânsito do Rio tá impossível! Sem falar na chuva, que agora até no metrô chove! Sorte é chegar em casa e ter um jantar quentinho me esperando. Estou com uma fome, Elisa, uma fome, que você não tem ideia.  Como foi o dia?

Elisa (encarando a beterraba): Normal. E o seu?

Renato: Normal também. Amor, me passa a beterraba?

ELISA ENCARA A BETERRABA EM SEU PRATO. UM OLHAR DE SERIEDADE E PENA, QUASE HIPNOTIZADA.

Renato: Amor?

Elisa: Olha só pra ela. Tão solitária...

Renato (olha para os lados): Quem?

Elisa: Sem nenhum acompanhamento. Perdidinha na imensidão do vazio.

Renato: Do que você tá falando, Elisa?

Elisa (aponta para o prato): A beterraba.

Renato: Nem sabia que você gostava de beterraba.

Elisa: Estamos trabalhando numa nova relação.

Renato: Você e a beterraba?!

Elisa: Chega um momento da vida em que precisamos repensar nossos desejos.

RENATO NÃO ENTENDE, FICA CONFUSO. MAS PREFERE NÃO DAR CORDA PARA LOUCURA DA MULHER.

Renato (tenta pegar a travessa de beterrava): Uhm, sei. Meu bem, me passa a bete-?

ANTES QUE RENATO PONHA A MÃO NA TRAVESSA, ELISA A PUXA PARA PERTO DE SI.

Elisa: Já parou para pensar como é tênue a linha entre o “não gostar”e  o “se acomodar”? Acho que eu me acomodei em não gostar de beterraba. E passei a não gostar mesmo sem lembrar do gosto. Até um dia em que pensei: “por que não?”. E foi aí. Foi aí que ela não me saiu mais da cabeça. Já pensou nisso, Renato?

Renato: Sim.

Elisa: Sim?

Renato: Não exatamente.  Amor, tô com uma fome! A beterraba tá com uma cara ótim-

Elisa: (cochicha para ele) Sabe que até nos sonhos ela tem me perseguido? Literalmente.  Já te contei? Eu tô andando na rua e aí uma beterraba gigante aparece atrás de mim. Mas é gigante mesmo. E roxa, muito roxa. Não é fofinha como essa aí que você tá comendo, não.  

Renato: Que tô tentando comer, né, Elisa.

Elisa: Isso. Aí eu acelero o passo e ela começa a me perseguir. Ela corre, corre, corre mas eu corro mais. Eu corro, corro, corro. E quanto penso que escapei, PÁ! O beterrabão aparece e se reparte em infinitas mini beterrabinhas. Não é incrível?

Renato: Incrível.

Elisa: O que será que quer dizer?

Renato: Não quer dizer nada, amor. Sonhos são assim. Incríveis.

Elisa: Quando a gente se casou, você adorava interpretar meus sonhos. Lembra? A gente ficava a manhã toda na cama, viajando em cada significado. Até Freud a gente lia!

Renato: Normal, Elisa. Os jovens usam a fantasia pra substituir a realidade. Depois que viramos adultos, é a realidade que substitui a fantasia. (pausa) Me passa a beterraba, amor?

Elisa: Passar? Passar, Renato? Passar você passa roupa, Renato. Eu aqui falando de carinho, cuidado, relação e você me vem com grosseria. Tratando a beterraba como que se ela fosse... fosse...

Renato: Uma beterraba?

Elisa: Uma camisa amassada!

Renato: O que foi, meu amor, o que tá acontecendo?

Elisa: Nada, meu bem, deixa pra lá.

Renato: Pode se abrir comigo, Elisa.

Elisa: Não é nada. Bobagem.

Renato: Você tá com algum problema? Essa cara, essa cara que você faz é cara de problema. Precisa de dinheiro? Quer fazer escova outra vez?

Elisa: Que mané escova, Renato! Meu cabelo é natural! Não é nada disso.

Renato: Fala, Elisa. Então o que é?

Elisa: IH, Renato! Já falei que não é nada!

Renato: Então tá bom. Me passa um pouquinho de bete-?

Elisa: Então tá bom?! Esse é o problema, Renato! Não está nada bom. Você não se preocupa com o que eu penso, com o que se passa dentro de mim. Você chega do trabalho, a gente janta, você me pergunta como foi o dia, eu digo que “normal”, você diz que “normal”. A gente não consegue nem mais rir um da cara do outro! Ou contar uma piada. Você contava tantas piadas...

Renato: Elisa, mas isso é normal.

Elisa: Aí, não tô dizendo?! Normal. Normal. Normal. Normal. Eu não quero normal. EU NÃO QUERO NORMAL! Me conta uma piada, Renato.

Renato: Elisa. Eu...

Elisa: Anda, Renato, uma piada.

Renato: Eu... tá... O que é o que é...

Elisa: “O que é o que é” não é piada, Renato. Eu quero uma com história!

Renato: Com história?! Tá, tá.. Eu...

Elisa: Você não lembra né, Renato?!

Renato: Já sei! Duas beterrabas estavam atravessando uma rua. Aí uma disse para a outra: cuidado com o carro! SPLAT. A outra: Que carro? SPLAT.

RENATO FORÇA UMA RISADA. ELISA SÉRIA.

Elisa: Tinha que matar a beterraba né, Renato?! E não é beterraba. É tomate. Beterraba não faz SPLAT, faz PLOC.

Renato: Tomate, beterraba, tudo legume!

Elisa: Tomate é fruta e beterraba, raiz, Renato.

Renato: Falando em beterraba, estou faminto! Você pode, pelo amor de Deus, me passar a bete-?

Elisa: Você anda tão trágico, Renato.

Renato: Trágico? Agora eu sou o trágico?

Elisa: Você não era assim. Ah, não era. Mas não era mesmo. Não sei o que tá acontecendo. Até piada tem que ter morte! Tão agressivo.

Renato: Agressivo?

Elisa: Eu reparei o modo como você tem fechado a porta do carro. (ela imita o gesto) POW! Pra que, Renato? Pra quê isso? E pra lavar a louça? PÁ! SHHHH, Aquele jato d’água que quase arranca a mão, SHHHHH, e dale desperdício! Fico até com pena dos pratos. Agora me diz. Tem necessidade, Renato?

RENATO RESPIRA FUNDO, SENTA NA MESA, CONTA ATÉ CINCO, RESPIRA FUNDO OUTRA VEZ. ELISA O ENCARA, INDIGNADA.

Renato (com calma e diplomático): Me passa a beterraba, amor?

Elisa: É tudo o que você tem pra me dizer? Que você quer beterraba? Então, toma beterraba, Renato! (atira beterraba nele enquanto fala) Toma! Toma mais uma!

RENATO DESVIA DAS BETERRABAS E SE ESCONDE EMBAIXO DA MESA.

Elisa: Quer mais? Toma outra! (se vira pra platéia, atirando beterraba) Toma beterraba aí também! Tem p’ra todo mundo! Agora chega que tem que sobrar pro Renato. (atira nele novamente)

Renato: Que isso, Elisa? E o desperdício? Tá maluca? Enlouqueceu? Nós somos da paz, lembra? Dos Beatles!

Elisa: Rolling Stones, Renato! Nós sempre fomos dos Rolling Stones! “I cant get no, satisfaction”, lembra? É claro que não lembra, porque você não é o Renato. Não foi com você que eu me casei. A gente se perdeu. E eu estou sozinha. Sozinha. Sozinha. Sozinha. Sozinha! Como a beterraba no prato.

RENATO SAI, CAUTELOSO,  DE BAIXO DA MESA.

Renato: Beterraba essa que não tá te fazendo muito bem.

Elisa: A beterraba está me fazendo ótima, Renato! Ótima! Vitamina A, B1, B2, B5, C, potássio, sódio, fósforo, cálcio, zinco, ferro E manganês. Me dá tudo o que você nunca me deu.

Renato: E como eu vou te dar vitamina, Elisa? Eu te dou a beterraba, oras! Porque isso é verdade. Se não fosse por mim, pelo meu suor, pelo meu esforço, pelo meu trabalho “NORMAL” nos meus dias “NORMAIS”,  não teria beterrabinha nenhuma nesse seu prato! Há anos eu sustento isso calado. Agora chega. Chega. E digo mais: A partir de hoje, acabou!

Elisa (no impulso): Acabou! Ótimo, acabou. (PAUSA) Como assim acabou? Acabou o quê, Renato?

Renato: Não é isso o que você quer ouvir? Que acabou? Pois bem, acabou, Elisa! Acabou. Chega um momento da vida em que precisamos repensar nossos desejos. Não é assim que você fala? Vá procurar vitamina em outra raiz!

Elisa: Outra raiz? A essa altura do campeonato?!

Renato: O que não falta é raiz dando sopa por aí!

Elisa: Que outra raiz, Renato? 

Renato: Tanto faz, Elisa. (enfático) Tudo, tudo menos beterraba.

RENATO SAI DE CENA. ELISA SE SENTA DESOLADA E A ENCARA A BETERRABA NO SEU PRATO NOVAMENTE.


FIM.