quarta-feira, 18 de novembro de 2015

tem dias que não

tem dias que

não adianta café
rivrotril
óleo de peroba
incenso não adianta
não adianta
se olhar no espelho
e encarar a própria cara
quando, cara, não importa
o cabelo desgrenhado
nem minha blusa boi comeu
sutiã aparecendo
tempo sobrando
tem dias que não
importaria um dia ser dois
tem dias que o inferno
seria durar
tem dias que se dane
a previsão do tempo
promessas otimistas
principalmente horóscopos porque
tem dias que
não posso com essas paredes porque
o corpo não nasceu pressa cadeira
e também porque
a mente não senta nunca
tem dias que
nem
a feniletilamina
a serotonina
nem a menina
dá jeito,

tem dias que não.



*

fica mais
traz pra perto
cria espaço
deságua em manha
a noite toda
fecha os olhos
abre a porta
abre as pernas
pela pele
sente a língua
deixa salgar
só tudo isso
que grita
a-calma
por ficar

cicatriz

afia a língua
rasga as certezas
lambe a ferida
salga pra salvar

18/11

Não me dê o seu sorriso
Não quero teus cigarros
Não me trate como sua tia
Faz o que quiser
só não faz assim



terça-feira, 27 de outubro de 2015

o que importa

cuidar e lamber as próprias feridas
que só a saliva salva
viver bicho solto, deixar ir o que já não tá mais aqui
que nada nem ninguém merece tanto minhas raivas
-a dor que fortalece
faz da coragem vontade
que tem vida demais por aí.



quinta-feira, 22 de outubro de 2015

frustrações contemporâneas

1.
não gosto do jeito como as letras digitadas inspiram civilidade
é impossível estar puto num teclado
ohasdjiadoap´xkqwjihcoajcspkó
como se grita em Times New Roman?
não sei brigar em Arial
não tem Verdana que traduza o que minhas letras tortas
o que meu traço forte
caneta furando papel
não tem verdana que traduza meu rabisco
é impossível estar puto num teclado
E o CAPSLOCK é um equívoco GIGANTE
-porque ser grande é o oposto de tudo isso que sinto por você agora.
Estar puto num teclado é o pleonasmo da desordem,
pkawefnaerpojfwpajérgjper´verifjpejpvewko´fekvjfe!!!

NAS LETRAS ESCRITAS TUDO O QUE NÃO GOSTO GRITA.


sábado, 17 de outubro de 2015

17 de outubro

Em cem anos estaremos todos mortos. Até essa mulher que atravessa a rua, Será que um grama do veneno da aranha marrom ainda valerá 25 mil dólares? Os pinguins continuarão sendo criaturas incríveis e a migração dos esquimós talvez tenha mais a ver com a vida do que com a morte. O pescador, véi sabido da Amazônia, vai mais do que nunca reconhecer o tamanho do peixe só pela boiada. Da alfarrobeira não se sabe o destino mas a origem está fadada a eternidade: pra sempre uma árvore selvagem da costa do mediterrâneo, ainda que os japoneses façam delas brotar kiwis. As raízes -e os escritos- tem desse preciosismo, as palavras não dormem nunca.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

06 de outubro

Na parede
o espelho redondo quebrado, a cor rosa claro e palavras que gritam "gratidão é o caralho".
Acordei sem saber onde estava. O olho abriu e um universo inteiro se perdeu. Do que se trata a perda?
É impressionante o zunido rodopiado que duas hélices são capazes de fazer. A luz branca do dia anuventado -de nuvem e sem vento. Os barulhos das coisas que acordam aos poucos; portas batendo, louças em louças, água em louças, louças na mesa, esse cheiro de café. E os pássaros -que vêm sempre primeiro.
Do que se tratam as coisas que acordam?
Se toda essa luz não fosse ressaca e só outro sonho, ainda não despertado, de três dias atrás
Eu abriria os olhos e aquele amor, velho e cabível, feito as camisas -que tanto gosto- que já tem forma de corpo e bolinhas gastadas boas de cutucar,
ainda caberia.
Se ainda me coubesse. Se a gente ainda se vestisse
abrir os olhos seria apenas questão de costume.
Mas os pássaros vêm sempre primeiro.

domingo, 27 de setembro de 2015

27, setembro primavera

crisântemo bolinha
amarelo elo entre
minha janela e ela

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

setembro, 18

na falta das palavras, 
o pulmão se enche de ar.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

setembro dia 10

Da série memórias vivas dentro da gente. No ano de 2001 me mudei. De colégio, de casa, de bairro. Saí de Vila Isabel, bairro onde cresci, num apartamento de 70 metros quadrados em que o pouco espaço físico era compensado pela sobra de afeto. Tivemos tartarugas, hamsters, passarinho, o Neto, e volta e meio um filhote de pastor alemão, que nos fazia companhia durante uma semana até ir para o sítio, em Friburgo. Nesse prédio moravam todos os amigos. A Clara, que era irmã do Pedro e viria a ser também irmã da Luiza, era minha melhor amiga. Era comum eu descer um lance de escada levando um travesseiro e na fronha meu pijama e uma escova de dente pra dormir na casa dela, enquanto o Pedro subia do 501 pro 602–ele e meu irmão também eram amigos-irmãos. O prédio da Maxwell cresceu junto, as mães eram grávidas juntas e nós, as crianças, pela lei natural do tempo e dos encontros, também erámos um bando que crescia junto. Erámos muitas. E o play, nosso reino. Era queimado, pique-cola, pique-esconde, pique-alto, pique-tudo. Lembro que na fase dos tabuleiros –que pra mim continua até hoje- a onda era o jogo do Pokémon. Devia ser equivalente a War. Um, porque era um vício e, dois, porque virava uma guerra mesmo; um virava o tabuleiro e outro sempre virava o Charmander, ou a evolução da evolução dele. Nesse prédio tinha também a Dona Dalgisa, que morava no primeiro andar, na parte dos fundos, dando direto pra piscina. Costumava chover balinhas de caramelo –daquelas de embalagem transparente que não à toa tem gosto de infância- da janela dela. A Dona Dalgisa era a nossa alegria, mas desconfio que a gente era a dela também. E tinha essa piscina que hoje não chega na minha costela e que onde eu já tive a certeza de viver um tubarão. No horário de verão, dava tempo de voltar do colégio correndo para um mergulho de fim de tarde/ início de noite. Tinha também um porteiro loucamente apaixonado pelo Bangu – tanto que me esqueci o nome dele, mas o time não esqueço. Lembro que eu adorava descascar a tinta azul que cobria a caixa de correspondências e esse prazer de saber estar fazendo coisa errada. Uma distraía o porteiro, enquanto a outra arrancava a tinta –começávamos sempre pelos apartamentos dos que considerávamos menos merecedores do nosso carinho. Uma vez fomos pegas no flagra. Não paramos. Tinha a Mari, que os dois anos de diferença já eram o suficiente pra fazer dela alvo certeiro e amado das nossas brincadeiras. Fernandinha e a Fernandona. Tinha a Martinha, que era menor do que eu e com o cabelo até à cintura –diziam as más– provalvemente nossas- línguas que era promessa da mãe dela. Na copa do mundo de 98, nos reunimos todos no 602 pra ver o jogo do Brasil e picar papel. Mais pra picar papel do que pra ver o jogo do Brasil. Eu queria muito que ele ganhasse pra poder jogar todo aquele papel picado pela janela. Na dúvida, cada gol, cada pênaulti, cada falta a favor –contra também- a gente jogava um pouquinho. É engraçado o jeito como as memórias se desenrolam à medida que a gente vai lembrando delas. Acho que tudo é um pouco assim: vai, se a gente dá corda, se acredita; Foram dez bons anos de vida atenta entregue e compartilhada. Olhar de criança tem dessas facilidades. É bom lembrar pra não esquecer.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

setembro dia três

Quando o pouco é muito grande ele fica ainda menor?

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

ainda sobre o sentimento de setembro dia dois

Ainda bem que não faltou amor. Não gosto dessas extremidades de ou é tudo ou é nada -nada realmente me parece tudo ou nada, e isso em nada impede as minhas hipérboles. preto no branco, corpo ou espírito, e os pontos nos i's por vezes só deixam ainda mais reviradas as nossas coisas, e a nossa cama nunca foi tão arrumada. Tem i que não vai ter ponto e tem fim que não vai ter final, e assim é tão mais bonito; só o que não se esgota, vive. Nem todo fim precisa ser esgotado.

setembro dia dois

Saudade é coisa que acabrunha, estranha que nem o nome.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Copos-de-leite

É de dia e noite que se faz a morte dos copos de leite. De milímetro em milímetro, de um em um até chegar a mil e depois seguir em frente -que o fim, tal como o começo, é sempre uma questão de costume. Malditos sejam os costumes. tua mania de acordar bichinho, a língua entre os dentes para pronunciar algumas palavras ou o riso. o teu riso e os teus cigarros, afinal, é verdade o que dizem, amor e ódio moram lado a lado. Maldita obviedade que nos murcha e em estado de dormência se faz tempo. Nas pétalas dos copos de leite, o tempo é amarelo. De um amarelo sem graça feito as piadas do teu tio. Tudo que não têm fôlego, morre -como quem se rende aos poucos à beleza das coisas vivas. E não sei bem, mas me arrisco, é pela beira que o fim começa. Pela beira e pelo cheiro - que o cheiro sempre nos disse muito sobre a vida de todas as coisas. E olha que o seu nunca precisou ser o mesmo para que eu soubesse que não podia nunca ser nenhuma outra pessoa no mundo a entrar pela minha porta. É pela beira que a gente começa. É pela beira que se come a canja que de tão quente virou memória nas minhas papilas gustativas. E por falar em calor, os dias nunca foram tão infinitos quanto aquelas tardes. E por falar em memória, a gente sempre esquece. Os copos de leite tem qualquer coisa do frio das manhãs geladas que embaçavam as vidraças onde meu dedo brincava de lápis e os teus eu nem sonhava em encontrar um dia. As toras de madeira me mostravam um homem sendo engolido por uma baleia que, esquece, ninguém nunca viu. E essa mania de falar em passado, raios, continua a me tirar do sério. É que do futuro eu nada domino, mas se daqui a dois séculos ou 48 horas, teu corpo cruzar pelo meu, como a Presidente Vargas e a Rio Branco às seis da tarde de uma segunda feira, e se, não mais pela beira, mas no meio do caos sublime de todo o excesso que passa, teus gigantes olhos castanhos reconhecerem meus olhinhos miúdos e as coisas que em mim nunca apodrecem, daí  talvez o futuro faça algum sentido.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Ostra

menos interpretação, mais expressão
menos contração, mais expansão
menos couraças, mais entrega
se reinventar cotidianamente;
reconhecer nossa potência de afetar e ser afetado em movimento descontraído.
potência nasce do reconhecimento da morte da forma-
o que não te cabe mais?
tá fora da validade, joga fora
reconhece as tuas mortes pra reconhecer o te vive.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

//



tão frágil quanto 

a folha que no exato segundo se desprende da amendoeira e, no zigue-zague do vento nunca despenca mas pousa na superfície do paralelepípedo nem um milímetro a mais nem um a menos de onde ficou- até que não se fique mais.
Até que o carro passe até que o passo apressado na Floriano Peixoto
até que a bengala do idoso de Copacabana
-tão frágil quanto a formiga que no azuleijo azul e branco da cozinha carrega um despedaço da folha da amendoeira ventada pela bengala de Floriano Peixoto na orla de Copacabana em outubro de 1884-
a tire da inércia.
tão frágil quanto o tempo dos romances -que até Graciliano tem sua última página-
o tempo que começa antes do prefácio e continua até depois do fim,  limitado em areia e grão mas que nunca termina até que se quebre a ampulheta
tão frágil quanto a prisão
quanto o relógio cuco que não para que não para que não para que não para-
até que se pare um dia.
como o coração
como a puta que pariu um negro um pobre um infeliz tão frágil quanto
a dor do útero que se desfaz
a dor do corpo contraído
no chão
tão frágil quanto o alívio
da água corrente que de tão quente também seria dor se não aliviasse a dor maior
ar-dor
tão frágil quanto a palavra
quando se desfaz e nem sempre fica menor, ou melhor, ou menos brega-
tal qual o amor
quando hiato
entre o sim e o não
entre você e eu
entre dois continentes
quantos oceanos?
a fronteira entre Minas e o Rio é uma ponte em Mauá tão frágil quanto
o silêncio antes do espirro o grito antes do espasmo minha imagem diante do espelho
no instante preciso em que o sol sumiu no horizonte e então se era dia agora não se é mais,
tal qual o amor
tão frágil matemática quanto a fórmula de Bháskara
menos b mais ou menos a raiz quadrada não importa
a sequência de acasos que impedem o encontro entre duas pessoas que atravessam as ruas em sentido contrário e que não se encontram porque hão de se encontrar dali há três anos e cinquenta e dois minutos entre copos virados da madruga ou cafés da livraria ou, não importa, porque só dali há três anos e cinquenta e dois minutos o encontro há de ser um encontro.
Tão frágil quanto a pele e a bala que na Guerra do Golfo, no Alemão e na Maré rasga o tecido e rompe as células e mata a frágil matéria de que são feitos os homens. De que são feitos os homens?
Tão frágeis quanto os sonhos e o peso do teu corpo sobre o meu,
feito duas retas paralelas que nunca se cruzam e só se encontram no infinito.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

//

testa na testa se ama melhor

//

Poderia te encontrar transeunte estrangeiro
esbarrar contigo na fila do supermercado
no vão da porta da livraria
quando eu entro e você sai 
Poderia ser você amigo do amigo do amigo do bar
e entre copos virados, o encontro
um encontro nunca é um só
Poderia ser na padaria
se eu acordasse um pouco mais cedo, 
se eu soubesse talvez não fosse, 
mas sem espera, não tem pressa,
(não preciso de despertador pra te encontrar)
se eu acordasse um pouco mais cedo
cedo demais, 
se o xampú caísse no banho 
se eu derrubasse o café na cama
se o cão pedisse volta
se a vizinha puxasse conversa
se eu deixasse o disco correr
ou dançasse a música
ou descesse pela escada,
ou, e, mas, mais
nada.
Quantos acasos são precisos para a gente se encontrar?



quinta-feira, 18 de junho de 2015

˜

Acordei com memórias que nem sabia que tinha. Tipo achar dinheiro no bolso da calça, sabe? Quando não se espera. Quase sempre não esperar é melhor. Quase nunca lembrar é pior. Lembrei de nós duas há cinco anos atrás, em terras outras, pisando chão antigo, duas formiguinhas com curiosidade de elefante. Não sei se elefante é curioso mas, além de grandes patas, dizem que tem boa memória, o que pra mim já tá valendo. Enfim, nós duas, formiguinhas e elefantes. devagar e divagando, dividindo um tempo, que tempo, das cousas leves e passantes. é bom quando a gente sente o passar sem pressa, nem desespero. sinal que tá passando bem.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

00:25

meia noite e vinte cinco
de todas as noites dos meus vinte e cinco anos
por noite, um minuto
de cada minuto, um segundo de pensamento
de sono de sonho insônia de choro de riso de gozo
de medo de bêbado de espera de chuva
de sexo de dor de doce de branco de outro país
de só de meia de banho de mergulho de estranho
de vômito de letra de lupa de óculos descalço
de briga de grito de táxi de espanto
de história de fogo de mato
de você de outros de outra de tantos de mim



terça-feira, 28 de abril de 2015

01

Ando me sentindo tão sozinho que na semana passada quase comprei um cachorro. Mas desisti. Vai que ele não vai com a minha cara, sei lá. No domingo, vi uma promoção das lojas americanas, “2 por 1”, não quis nem saber.  Segunda, me peguei falando com a Antúrios da mamãe, só eu e ela naquela sala enorme. Fiquei tão assustado que decidi não regar nunca mais. Atravessando a rua, o sinal abriu, o bonequinho ficou verde e eu fiquei parado. Um dia ela parou de me amar. Assim, de repente, de um dia pr'outro. Feito relógio cuco, feito microondas velho, feito fusca enguiçado. Um dia ela parou e eu parei também, que até nisso a gente combinava.

28

a distância das palavras por aqui é quase sempre bom sinal de que você também não tá. e quando tudo anda tão calmo eu já nem sei se é porque tô perto demais de mim, ou longe demais de você. essa mania de ter que falar, de ocupar o espaço do ar com tanta bobagem, matando o silêncio de palavra em palavra. essa mania de ter que. de mudar a música, de encher o copo, de perder a hora pra evitar o que importa. é que silenciar sempre foi um perigo, porque é aí que a gente ouve tudo o que nunca foi capaz de dizer. é que nem cheiro de madeira queimada, sabe? ou vento gelado no rosto, ou folha de cipreste. me leva p'routros tempos. não é nostalgia barata. é coisa funda de quem não pára de ouvir, mas deixa a música correr.

sábado, 7 de março de 2015

Infinito recomeço

Se eu não te conhecesse diria que foi sempre assim
Porque a verdade é que o fim não passa de um ‘inda por vir
O fim não é a morte
O fim vive
em tudo que se esgota ao longo do dia
O fim vive
em mim e em você também
Na distância dos nossos corpos
Na cama que não dormimos
Nos cigarros perdidos
Em olhares não mantidos
Por entre
Pernas
Poros
Por
fim é o vício
na saudade
-do que não foi-
na falta
de sentido
-que não se sente-
Tá no vento de agosto
quando se está em março
Tá no chão de terra batida
-vermelha amarela quente-
que seu pé de menino não pisou
O fim tá no excesso(!)
-de roupa e fala e pano e medo-
que paraliza e mata de pouco em tanto
De vento em poupa
vamos nos findando
De resto, vida
Em ti, em nós

Tudo que move, fica

04 de fevereiro de 2015

Fiquei sabendo agora pouco, por uma dessas notificações aleatórias do facebook, que o João morreu. João não era o nome dele e o nome dele de verdade era uma das duas ou três coisas que eu sabia sobre ele. João não morava no meu continente, nunca nos vimos e só tivemos conhecimento da existência um do outro há uns meses atrás, por intermédio de um amigo em comum, que me disse que João poderia me dar boas dicas sobre o que eu estava procurando na época. Adicionei o João, ele me deu boas dicas mesmo e a última mensagem partiu dele. Era só uma pergunta, queria saber se tinha dado tudo certo. Eu não sabia se tinha e não respondi. De todas as coisas que eu não sabia sobre o João, sei que a pergunta foi sincera, desses interesses gratuitos, bonito de ver. Não falei isso pra ele -porque a gente quase nunca fala o que realmente importa. Bate agora esse sentimento esquisito de distância, que não precisa de dois continentes pra existir. Que encurtemos nossas distâncias, as de todos os dias. Tá tudo certo, João.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

-

A gente mede altura, a gente mede temperatura, a gente mede até bafo. Mas pro amor ainda não inventaram régua, balança, pau de selfie, ainda bem. Pro amor a medida não tá no peso, nem cabe em número. Amômetro. A medida é o afeto. Primeiro tentei medir o meu pra saber se correspondia ao seu, ao tanto que você diz e abraça e repete e derrete desse amor a cada segundo. E se desse diferente? A lei seca do amor. E se desse diferente, não por ser menor ou maior, mas por ser essa toda a graça? E se desse diferente porque eu acordo com o sol e você dorme até mais tarde? Feito pedra. Feito toupeira, que pra abrir o olho é uma guerra, como que se realidade e sonho te disputassem em campo de batalha. E se desse diferente porque enquanto você espera, eu atraso, e enquanto eu falo, você cala e de quanto em quanto a gente cresce em encontro? Vai ver é culpa da sua constelação de pintas, da minha cicatriz no joelho, da sua estrutura óssea larga, dos meus óculos de grau, do jeito que o seu corpo inclina quando você ri, da ponta fria do meu nariz, vai ver é porque você é kapha e eu sou pitta, vai ver não é por medo nem por falta de coragem. Eu te amo muito. Muito é o que? Grande? Cheio? Da altura do Giba e da largura do Jô? Do Oiapoque ao Chuí? Daqui até à eternidade? Você gosta de dizer e provavelmente gosta também de ouvir.  Mas é que ouvir não é escutar, ouvir é também compreender e talvez eu não esteja me ouvindo direito. É que de tanto saber do seu amor, esqueci de olhar pro meu. O meu, que é todo seu. É que o 'muito' virou parâmetro e aí o amor desmedido pensa que é menor sem nem saber o quanto é grande não ter tamanho. Então fica combinado que silêncio não é ausência, que muito não tem grandeza, que amor não se compara. Fica combinado que o nosso não é igual, e que isso não faz a menor diferença.