Vai.
Que a dor me toma o peito,
alarda, funda e sem jeito,
e me grita 'inda em tempo:
Corre!
Que
se aqui dentro a dor é branda,
é que, dentro, ainda andas e.
Vai!
Que
a dor maior que existe
é aquela que insiste
em viver assim tão só
que se dói
é porque vive
e a vida é maior
Melhor, Sai!
Que
não morras aqui dentro
-miúdas!
em mais um eu que aqui jaz
Que
lá fora o pulso é firme
que lá fora dói bem mais
vivas dores, viva Dolores!
Que nem sempre os vivos vivem
e tão pouco morrem os mortos
Que nem sempre a morte é triste
E quem dirá feliz a sorte
desses mortos
que ainda vivem
sem sentir o pulsar forte
Desses vivos,
que sem pão
que sem cama
que sem teto
que sem tato
que sem olhos,
que só sentem
que só amam
que só fazem
que só cantam
que só no duro,
na raça,
na vida
em desgraça,
sorriem,
que, só, nunca estão.
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
# cena um
COMPOSTO NÃO PRESTA.
HILDA: 48 anos
NANDA: 20 anos
HILDA: Já disse que na minha casa não entra mais nome composto!
NANDA: Você vai adorar.
HILDA: É composto, eu posso sentir.
NANDA: Mas pra você pode ser Joca, mãe. Simples. Joca.
HILDA: Joca? E isso lá é nome?
NANDA: Apelido.
HILDA RESPIRA ALIVIADA.
NANDA: O nome é Jordânio Carlos.
HILDA LEVA A MÃO AO PEITO ESQUERDO E COMEÇA A SE ABANAR, TENSA. NANDA A ENCARA SEM SUSTO, COM OLHOS DE QUEM JÁ VIU A CENA ANTES.
HILDA: Ai. Ai, meu coração. Meu santo Benedito! Eu sabia, eu sabia! Lá vem outra praga.
NANDA: Você nem conhece o Joca, mãe.
HILDA: Mas conheço o histórico. João Fagner, Guilhermino Américo, Adalberto... Adalberto o que? Aquele que vivia me pedindo couve-flor.
NANDA: Xande.
HILDA: Adalberto Xande! Minha nossa senhora. O que leva uma mãe a dar um nome desses pro filho? Pior. O que leva a minha filha, minha princesinha, a se interessar por esses... esses...
TEMPO.
HILDA: Compostos. Já te avisei e você insiste no erro: Nome composto não presta.
NANDA: Mãe. Meu nome é composto.
HILDA: Mas você é a exceção que confirma a regra, Fernanda Maria.
NANDA: O joca é diferente. Especial. Dá uma chance, mãe. Você vai adorar.
HILDA RESPIRA FUNDO.
HILDA: Flanelinha? Pipoqueiro? Funkeiro?
NANDA: Empresário.
HILDA DESCONFIADA.
NANDA: Da Coca- Cola.
HILDA ABRE UM SORRISO.
NANDA: Empregado há trinta anos.
HILDA (comemorando): Empregado!
HILDA FICA SÉRIA.
HILDA: Há trinta anos? E quantos anos esse homem tem?
NANDA: Ah, mãe. Sei lá. Chato perguntar essas coisas, né? Não passa de cinquenta...e cinco. Mas com corpinho de quarenta.
HILDA SE JOGA NO SOFÁ DE COSTAS (engasgada, sua voz mal sai): cinquentão.
NANDA: Não era o que você vivia me dizendo? Encontrar alguém maduro, trabalhador. E ele trabalha o dia todo, não pára. homem de família. E, olha, vou te dizer uma coisa, mãe. Vamos ser uma família e tanto.
HILDA: Oi?
NANDA: Tô grávida. Um mês! Mas não se preocupa, tá? Ele já tá ajeitando os detalhes do casamento. Você vai adorar.
HILDA (tensa): Casamento? Filho, minha filha? Filho!
NANDA: E ele é tão romântico, mãe. Acredita que outro dia me entregou um buquê de rosas vermelhas? Vermelhas! Lembra que você reclamava que o Guilhermino Américo só me dava flor de plástico? O Joca me dá rosas, mãe.
HILDA TENSA. CAMINHA DE UMA LADO PARA O OUTRO DA SALA.
HILDA (repetindo para ela mesma): tá tudo bem. Tá tudo bem. Tá tudo bem.
NANDA: E ele é tão elegante, mãe. Bom gosto, sabe? Não usa regata, não liga para boné. E não tem nenhuma pochete, que eu já conferi.
HILDA SE JOGA NO SOFÁ. NANDA SENTA AO LADO DELA. HILDA PEGA A MÃO DA FILHA E A ENCARA NOS OLHOS.
HILDA: Ele é mesmo da Coca-Cola?
AS DUAS SE ENCARAM. TENSÃO.
NANDA: Ser ele é. Há trinta anos é chamado para distribuir os flyers da empresa.
HILDA: Flyers?
NANDA: Aqueles papésinhos, sabe? Propaganda.
HILDA ATÔNITA. NANDA RI. HILDA A ENCARA.
HILDA: Que foi? Ainda não acabou?
NANDA (entusiasmada): São gêmeos. Combo duplo, mãe!
HILDA PEGA UM LENCINHO, ASSOA O NARIZ E CHORA.
HILDA (chorando): que ótimo. (assoa o nariz). Eu tô muito (assoa o nariz) muito feliz. Já escolheu os nomes?
NANDA ABRE UM SORRISO DE ORELHA A ORELHA. HILDA QUASE CHORANDO.
NANDA: Você vai adorar.
FIM.
Pinta
Tinha uma pinta na barriga e eu dizia, "o umbigo do mundo". Era para lá que eu me escorria, nas miúdas mortes de todos os dias. Nua, levo só o necessário: a rua Maxwell, a fábrica de apitos, alguns poucos e bons amigos. Pega o Tito! Que passarinho não sabe viver aí fora sozinho. Traz feijão e a zuza, que ninguém faz igual. Ciprestes, o nosso monte de areia, o cavalo da vovó. Traz o ré, o mi e o dó, e com eles as Gerais. Traz o frio e as lembranças do final da minha infância, que avança e se esvai. Das dores, as maiores. Que os amores já vem junto. Do que sou, o mergulho. Que é o encontro mais profundo.
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
Fragmentos indigestos
- a construção do pensamento.
um,
E quando a dor dilacera o peito
E quando o mundo é a palma da mão
E quando o quanto é pouco
E quanto mais, a razão.
E cada qual em seu canto
Do grito todo, o perdão
Em mais um passo, a distância
Dos que ficam em vão.
dois,
Me agudo em presença de quem não sente. Ser humano não é ser gente. Indolor, indiferente, pode passar a minha frente. Vou com calma e aos poucos, p'ra não perder o costume. P'ra não perder as pessoas. P'ra não esquecer da lição. Que a vida, meu caro, se faz de coração.
três,
Quem te traz e quem te esquece, vivem todos em mim.
Pra trazer, abrir os olhos.
Pra esquecer, acordar.
quatro,
Que a vida é coisa séria. E coisa séria, pra mim, é amor.
um,
E quando a dor dilacera o peito
E quando o mundo é a palma da mão
E quando o quanto é pouco
E quanto mais, a razão.
E cada qual em seu canto
Do grito todo, o perdão
Em mais um passo, a distância
Dos que ficam em vão.
dois,
Me agudo em presença de quem não sente. Ser humano não é ser gente. Indolor, indiferente, pode passar a minha frente. Vou com calma e aos poucos, p'ra não perder o costume. P'ra não perder as pessoas. P'ra não esquecer da lição. Que a vida, meu caro, se faz de coração.
três,
Quem te traz e quem te esquece, vivem todos em mim.
Pra trazer, abrir os olhos.
Pra esquecer, acordar.
quatro,
Que a vida é coisa séria. E coisa séria, pra mim, é amor.
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
Quando crescer
Quero ser ilustradora. Desenhar, pintar e colorir. Quero ser escritora e cineasta, criar livros e filmes, com a liberdade de fazê-los por paixão. Quero ser fotógrafa e poeta, de luz e lápis. Quero ser dançarina, me espalhar do chão ao ar, em palcos e tecidos. Quero ser viajante e poder brincar. Crescer sem virar adulto, não desses que conhecemos por aí.
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
Alvoroço
No escuro é mais silêncio. E com a gente também, sempre mais no não dito. Na noite que não desemboca no dia e vive de vinho e culto e inversão, nos vejo tão bem. Noite breu, sem lua e nem estrela, nos vejo tão bem. E é na dança, pernas, pêlos, espasmos, mão que traz o braço e leva o corpo inteiro num só passo, que a gente se dá. Entrelaço de ideias, nos vejo tão bem. Somos eu e você, encontro não falado. Seu sorriso, outro-bem mais sincero. No alvoroço, a gente funciona em paz. Na alvorada, te vejo e não reconheço mais.
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
Minha semântica nossa
Esses dias li um poeta. Talvez Torquato. E ele falava sobre o esgotamento. Não usava essa palavra exatamente, mas foi o que escolhi entender. O "esgotamento das palavas", que de tanto usadas acabam nos limitando em sentimento. Achei essa ordem estranha, as palavras virem antes de nós. Não seriam os gritos, os silêncios, as pausas, o roer das unhas, o embrulho no estômago, o choro, o riso, tímido ou sem vergonha? Não seriam eles a escolher, certeiros, as palavras a serem escritas? Pensei, então, que o problema talvez seja, sim, o esgotamento. O do sentir, antes do semântico. Um esgotamento de sentidos, produto de vícios, só nossos. Na mesma música que vai sempre me trazer você- que talvez já nem seja mais o mesmo; Na mesma marca de cigarro, nem tão boa assim, mas que deixa um gosto de sempre na boca . No mesmo sapato, no mesmo vestido, no mesmo traço, no mesmo passo, na mesma rota que faço. Nos mesmos sempres, sempre tão limitantes. Apaguei o cigarro, troquei a faixa da música. Repeti pra mim: as palavras como consequência de nós.
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