segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

linguística

ressentimento: guardar água dentro e, de tanto não chorar, morrer afogado.
em espanhol, um "re-sentimento" 
és todo sentido que de tan grande 
no cabe
no cala, 
transborda. 


sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

entrevista de trabalho

O sr. me encarou com essa cara de quem conta os segundos até a língua mexer outra vez. Perguntou o que quer dizer uma especialização em “cortar raízes por abrigos temporários” e em como isso poderia ser útil para o negócio deles. Tentei explicar como pude e juntei numa mesma frase alguma coisa sobre fé e o movimento dos moinhos de Alkmaar, responsáveis por 84% de toda energia gerada na cidade. O sr cagou pra minha fé e também para os moinhos de Alkmaar, mas bem gostou da porcentagem, que eu vi: abriu um sorrisinho no canto da boca que durou menos tempo do que aquela peteca de penas tortas e coloridas no ar. Me agarrei ao sorrisinho. Então o sr gosta de número, sr? De que números o sr gosta? Prefere um três assim ou um nove assado? Como foi o seu primeiro grande número, sr? A boca do sr. tremeu, ele alargou um pouco o nó da gravata e pediu pro garçom aumentar a temperatura do ar condicionado. “voltemos ao que interessa”,  seguiu vociferando meu currículo.

-O que quer dizer B1?
-Como?
-“Em 1998, ganhei um B1”.
-Ah! B1. Um dos irmãos Banana de Pijama.

O sr piscou. Eu cantei.
-Bananas. De pijamas. Desceeendo as escadas. Bananas... não?

Não. Tem terrenos que não foram feitos para adentrar: bananas de pijamas, jograis, certas saudades.
Continuei.
-Na verdade, não sei se eles eram irmãos. Eles eram só bananas iguais e tinham pijamas listrados iguais e quem tem pijamas iguais se não irmãos gêmeos filhos de pais obsessivos, não é mesmo? Ou então aqueles casais, avós ou políticos, que compram tudo que é conjunto de seda e cor creminha. O sr. tem irmão gêmeo, sr?

O sr. me olhou e eu era um bicho de sete cabeças. Um bicho de pijamas listrados, todo feito de número engasgados. O sr ergueu o braço e gritou pro garçom uma equação inteira, sem gelo, por favor.

O garçom entendeu e aumentou o volume do rádio: https://www.youtube.com/watch?v=TgeF4V_NsbE

sábado, 24 de setembro de 2016

23 de setembro de 2013

Chove e é noite nublada. A gente não precisa de sol pra saber disso, basta não ver estrelas. Por um pouco mais de uma hora, eu corrompia minha rotina, atrasando minha chegada em casa. Às vezes dá vontade de fazer isso: atrasar, quebrar horários, só pra andar mais devagar, enganar o tempo e nós mesmos. Chove e eu entro no sebo, tiro da bolsa a folha amassada: Poulet, Milton Santos, Nora, nada. Nem um livro, nem um item riscado. Pesquiso sobre história, memória e espaço, penso que o prazo é apertado e que eu bem que podia ter me planejado, mas a antecedência não gosta de andar ao meu lado. Aceito comer, só pra esticar na rua. No restaurante, alguns rostos conhecidos, cumprimentos entusiasmados de quem se esbarra no acaso. Aquele lugar é bom, mas um pouco mais caro do que eu gostaria de pagar. E bem mais caro do que os quadros dali merecem. Isso é engraçado, várias mãos, tintas e traços, reunidos num mesmo espaço, vários pegadas apagadas no chão de pedra e quantas digitais lavadas na torneira de prata. Quanta gente e quanto nada. Com um amigo, divido a mesa, a conversa fiada e uma mini barra de chocolate amargo. Bom. Ainda chove, ele diz que não, a gente olha pra luz e descobre. Até o ponto de ônibus, sinais, poça, o cheiro de sopa e o metrô que passa, bem ao nosso lado, mais embaixo.
Chove e eu não quero esperar mais. Pego o primeiro ônibus que passa. O motorista avisa que vai pela Lagoa, e que pode ser mais demorado. Eu topo o atraso. No ônibus, um casal de namorados. Eles sorriem bobos, como fazem os apaixonados. Um freio e dois tiros. Secos. Um corpo caído no chão molhado. O ônibus pára e eu olho pro lado. Dois policiais armados, com o punho esticado, caminham, sem pressa, em direção ao homem estirado. A namorada grita para que o ônibus saia, corra, "que bala perdida é o que mais tem no Rio". Vida perdida. O motorista é certeiro, "se for vagabundo é bem feito. Vagabundo tem que morrer". A cobradora concorda.
Viramos na Lagoa e o motorista é certeiro, "a maré tá alta". A cobradora concorda. Em Ipanema, sinal fechado. Paramos ao lado de um restaurante caro -esse, eu vou ficar sem saber dos quadros. Do lado de dentro, a luz amarela ilumina casais e senhoras comportadas. "Um jantar são quatro semanas de trabalho", a cobradora ri. O motorista diz que ele é mais um churrasco.
O ônibus segue, mas o que ficou pra trás não pára. A cidade é movimentada e se faz entre um minuto e outro de atraso.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

esquece

um homem cortado por uma janela. metade dele é ela.

você sempre prometeu tanto que cumprir qualquer coisa já é um assombro.

faz uma lista e escreve "número um": encontrar o fulano que não vejo desde aquele ano de 68, desde aquela festa porreta na cobertura do prédio em cima do túnel, que cobertura, meu amigo!, que sala, que casa, que mulher. que mulher. escreve número um e pensa na letra D. escreve o nome dela em maiúsculas pra ver se não esquece, escreve e risca pra ver se esquece. feito chave de carro, número da loteria, caneta bic em mesa de bar, óculos na cabeça, esquece feito aqueles soldadinhos da árvore de natal e a tampa do liquidificador que você nunca achou, esquece e tira uma selfie cheia de dente pra garantir que esqueceu. não, melhor: esquece e tira três selfies faz um boomerang manda um áudio praquele grupo do whatsapp, não!, esquece, melhor esquece e manda um nude pra amiga de ontem, engasga com a tripa do peixe e vomita pra ver se esquece,

esquece.
faz uma lista e escreve: comprar bananas. e sente só o assombro!








quarta-feira, 17 de agosto de 2016

barrir

mas você está ótima para os 25, ela me disse, ótima.
camila, se eu te contasse como foi difícil dormir na noite passada, se você soubesse dos elefantes que marchavam na minha cabeça. talvez até tenha um perdido por aí. como a gente chama o uivo dos elefantes?
camila tem uma lupa nas mãos e esses olhos gigantes examinando minha bochecha, meu nariz, meus cílios. camila, como você é branca!, é tudo branco, as paredes, essa maca branca onde eu tô deitada e essa luz tão feia também é branca.
impressionante, ela me disse, impressionante. 25 com pelinha de 18.
peninha? nossa, aos 18, eu não sabia o que era ressaca. bebia até de manhã duas noites seguidas e acordava na terceira dentro da sala de aula, entende? aos 18 tem quase dez anos e isso é a idade da minha prima menor. aos dez anos eu sabia muita coisa, há dez anos eu sei cada vez menos.
camila estica o indicador de plástico branco em minha direção. posso tocar? é de verdade?
mais ou menos, camila, algumas pintas eu mesma pintei. essa do queixo, por exemplo.
adoro o seu queixo. o que você passa pra ele ficar assim?
camila, tá vendo essa ruga no meio da minha testa?
passa uréia que some!
ela nasceu ontem e eu já sou completamente apaixonada, camila, depois de quantas vezes será que um movimento vira marca? camila, quer ver minha cicatriz do joelho? eu consegui num telhado, tomei sete pontos e três doses de antitetânica pra evitar a morte boba e a hipocondria séria. sangrou dois baldes e eu só conseguia sorrir de tão bonito que era anestesiava a dor.
essas bolinhas aqui na sola pé, consegue ver? são aquelas pedrinhas cinzas que ficavam perto da piscina lá do sítio de friburgo, sabe, friburgo é um lugar frio do Brasil, mas não tão frio quanto aqui
camila esparrama um gel gelado na minha barriga e o estetoscópio no peito
quando eu sinto frio minha pele enruga que nem pele de galinha, você já viu uma galinha?, camila, quando eu era pequena tinha medo de pato, mas adorava chegar mais ou menos perto porque no fundo eu sabia que eles não podiam me matar. camila, eu arrepio fácil, olha só como esse pêlinhos levantam no braço! camila, você já sentiu uma montanha russa na barriga?
tudo congela. tudo. do jeito que tá, a camila, eu, a sala branca. tudo congelado por um, dois, três e um barrir agudo ocupa a gente. tudo treme, os olhos dela nunca foram tão grandes, camila, você encontrou!, camila ri uma ruga pela primeira vez em 180 anos
e a ultrassonografia mostra em 90 polegadas um elefante branco enorme que nada por mim

conto de rua 2

na tela preta, a frase branca:
te conto em pausas. Imagina assim. Uma mistura. Filme mudo em stop motion.

é dia e as coisas todas da rua passam rápido, como se corressem: árvore, pessoas, prédios, a mulher gorda com o pão debaixo do braço me acena enquanto passa também, já foi. obra: um trator quebra o chão e eu saio por debaixo da terra numa escada rolante de metrô que me tira do lugar sem nenhum movimento muscular meu, meu, eu olho só pra você. meu rosto cada vez mais perto, reconhece esse nariz?, dá até pra ver a sobrancelha mal feita. você pisca, eu sumo.



terça-feira, 16 de agosto de 2016

gif legal


























https://media.giphy.com/media/26BRK1oCxGCAN4u6A/giphy.gif

conto de rua 1


Uma avenida muito larga. O bonequinho fica verde. 10 segundos para os pedestres. Amontoado de pessoas avança em direção ao outro lado da rua. Na calçada, só fica seu Antônio, que cochila em pé, ali mesmo. 7 segundos. Um jovem passa correndo. Seu Antônio desperta assustado. Ele olha para um lado, olha para o outro, não sabe bem onde está – se bem que isso tem acontecido com frequência nos últimos anos. 4 segundos. Ele apruma a bengala, se prepara para dar o primeiro passo. 2 segundos. Ergue a bengala, olha para frente.  1 segundo. Primeiro passo. Bonequinho vermelho. Carros buzinam.  Um passo pra trás. Um amontoado de novas pessoas se acumula na calçada. Seu Antônio some entre elas. Bonequinho fica verde. 10 segundos. Amontoado avança. Só fica Seu Antonio, que cochila em pé, ali mesmo.

domingo, 31 de julho de 2016

matar cansa

começo assim, por listas. tecla no dedo e papel na caneta são a primeira ameaça pra calar o pensamento. cala a boca, pensamento! ou te afogo no café. um balde de café, por favor. um casaco e as chaves que eu preciso sair daqui, posso levar o corpo e deixar a cabeça em casa? de castigo. feito criança no alto da gangorra. uma casa dentro de um táxi, quero doar a metade dessas roupas, pra que tanto sapato, meu deus? trocava esses três por uma pantufa peluda igual àquela do ortman. amanhã já é agosto, e eu pensei, falei: primeiro de janeiro. cometo atos falhos o tempo todo. que nem ligar pra Decolar pra resolver a fatura da Tim. me inscrevi na academia, onde eu nunca sobrevivi mais que uma semana, mas é sempre bom tentar de novo, vai que eu mudei?, e vou começar aquela dança e aquele outro curso, olha, um edital!, quero ver esse filme e tem esse texto pra ler, matar cansa. cansa mesmo. pensar com o que eu vou ocupar meu tempo é uma forma burra de ocupar o tempo, sou péssima em downloads, por que não tem a segunda temporada no netflix? sai do facebook e vai pra argentina, me disse o fulano. o fulano não sabe mas eu já tenho até uma planta em casa, fulano! nunca antes uma planta durou tanto tempo comigo. três meses e algumas folhinhas a menos. deixei ela no quarto antigo pra morrer por lá, longe de mim, e aí eu ter a sensação de que comigo ela viveu pra sempre. tenho umas lógicas ridículas que às vezes funcionam e outras só me fazem rir, o que também é quase sempre sinal de solução. pensa no mar, como é mesmo aquele mantra? café. amanhã é dia 1 e segunda-feira, será que é lua nova? mudei. adoro quando as coisas pragmáticas, tipo calendário lunar e dia da semana e dia do mês, calham com meus movimentos pequenos que ninguém vê. cansei de pensar em você pode ir embora? pensar cansa, pensar é sempre sozinho, né? é agosto, o que você não está fazendo aqui? matar cansa, mas uma hora vai. as chaves, o casaco, que eu preciso voltar lá. te deixar naquele quarto, junto com o Shakusky, do lado daquela planta.

borda

É preciso borda
para transbordar
senão 
vira tudo uma coisa só
e a gente morre e mata o outro


despacio

No mapa geo-político da sexta série, a Argentina é amarela e roxa. Na bandeira, azul e branca. A 11mil metros de altitude, tudo é cinza. Dentro do El Federal, carlos calvo com peru 599, a luz é baixa e meu nível alcoólico um pouco alto faz uma mescla dos sonidos todos que me lembra uma banda punk-jovem-jazz de um bar subterrâneo em San Petersburgo. 

Dependendo do volume e da velocidade, o espanhol pode ser como russo, como cantar my way num karaokê coreano o mundo é uma sala com globo de luzes coloridas piscantes e poltronas estampadas de zebra e onça. Ele diz que parece um motel e eu um filme da Sofia Coppola. Mas se fosse um filme acabaria e a realidade é que são três e dezoito da manhã e a gente paga pra não sair. A gente paga pra não amanhecer, a gente paga pra ser um filme e eu pago pra não ser nunca a Mia Farrow. Eu não escuto você sai comigo? Deveria ser lei pagar por cerveja e receber amendoim.

Como tem velho nesse país. Como eles sobrevivem a essas calçadas e a esses carros e a essas curvas sem sinais? Alcancei um pacote de Danette na terceira prateleira do Día para uma senhora que me agradeceu durante quatro minutos. É fácil ser herói em Buenos Aires. Apostei uma corrida com o bonequinho do sinal. 15 segundos para atravessar a 9 de Julio e a Cerrito juntas. Ele disse que eu corro muito e que é possível conseguir mais devagar. 

Contei pra ele o meu histórico fracassado com tartarugas. A primeira enfartou; a segunda não resistiu a uma intoxicação alimentar produto de um alface podre; a terceira preferiu o suicídio a ter que conviver com a minha velocidade. 

Sua boca abre e fecha em sílabas mudas e eu não te escuto. O Matías tá louco fazendo um show sobre a mesa com três microfones, bye bye miss american pie, doc mclean com um beija-flor voando sobre uma cachoeira na tela, onde a gente tá? o brega é maior que o google maps. Sua boca abre e fecha em sílabas lentas e você tem razão: devagar é possível conseguir mais despacio.

take another little piece of my heart now

baby, 
avanzar e retroceder, hacia adelante y atrás, feito o movimento da minha bacia quando há amor e a mão psicótica dela, psicótica ela, que segura a faca e ameaça disparar furos contra o próprio peito

enquanto dança, 
para frente e para trás,
até o cabelo azul virar laranja 
e cair do pé
e rolar 15 anos de passado
quando o Lucas disparou num cavalo 
trinta anos para frente
quando não há de ter mais morro de terra 
nem bambuzal
nem avó nem zuza nem feijão tropeiro 
nem o vagalume que eu enterrei debaixo do terceiro tijolo da casa do caseiro dentro de uma embalagem de tic-tac que seria meu abajur piscante

tic-tac,
como o tempo voa, baby

have another little piece of my heart now

avanzar e retroceder,
sem nenhum triplo crime passional
para frente e para trás
sem nenhuma pá cavando a terra,
baby, cai na real,
não há ouro dentro dos ossos

break another little bit of my heart, now 

darling,
dorme, balança o pé,
para frente e para trás,
que o sono vem

baby, abre os olhos que eu venho
avanzar e retroceder
para frente e para trás
aprendi a dançar dormindo

vou te contar um indício

você ficaria maluco. compraria aquele fone de ouvido verde neon no mercado livre e cantaria até guilherme arantes, você mudaria até de país, só pra não ouvir minhas histórias que você chama de mentira, mas que não passam de indícios de que a vida pulsa também nos bueiros da 9 de Julio por onde corre, junto com as baratas e com as deságuas do ralo do vizinho, meus excessos do dia e as células-cadáveres meu corpo. 
{será que as células também sofrem ataques cardíacos? obesidade mórbida? ou será que as células, feito os peixes de aquário, só morrem de tédio e velhice?

você ficaria maluco! a verdade é que ontem escalei um pônei peludo do tamanho de um dromedário e com aquelas corcundas, sabe? aquelas corcundas onde eles guardam água -é nas corcundas que eles guardam água? ou isso são os camelos? a verdade é que é possível caminhar sentada entre duas montanhas feitas de água e deus me livre dos argumentos bíblicos e da grade da record, isso não tem nada que a ver com os milagres de Jesus. o milagre é a corcunda do camelo. como pode caber tanta água dentro?

eu li que uma pessoa normal perde 2,6 litros de água por dia. quanto será que a gente perde por dia?

você tá cantando alto, “daria tudo por meu mundo e nada mais”. você pega pesado, às vezes. roubo o controle remoto e aumento o som do chuveiro e você virou um pato de borracha e uma miniatura do hércules que marca a mesa do bar e o descascado do meu esmalte “manjar de tapioca” ou “marshmallow de alfazema”, quem inventa tanto nome?, o descascado que deságua pelo ralo, você corre por debaixo de tudo que é concreto
na 9 de Julio.

posso te contar um indício?

queda da bastilha

inspiração que marca o fim do declínio. dispenso meu mauvais français, mira, é tão fácil sentir em español. presente e passado não se medem em minutos mas tem sempre um segundo em que o pé pousa no chão e, um. passou. é no vôo que eu me encanto e só o encantamento move fica me finca os pés, que realidade demais não se acumula. qualquer coisa me liga, por questão de amor e segurança, lembro sempre antes de fechar a porta.
o que você fez com o seu cabelo? quando foi que você esqueceu como se voa? me cala uma mentira boa. às vezes não consigo abrir a garrafa de plástico e nunca é uma questão de força. 14 de julho, derrubo uma fortaleza. me ilumino: contra o absolutismo e os pousos de emergência, a revolução é todo dia.

barricada em defesa do sonho impossível

parte 1
cada Diego que morre mata um membro da liberdade.

parte 2
não reconhecer o autoritarismo como um órgão que já vem no nosso pacote biológico e que por isso, instintivamente, corre no nosso sangue.
o autoritarismo não é natural do homem, como não é natural do homem esse desejo louco de poder e posse sobre as coisas sobre o amor sobre o corpo -dos e sobre- os outros.

parte 3
se o autoritarismo fosse uma pessoa
seria um pai gordo cheio de cordões de ouro pendurados no pescoço, patriarca de uma família gigantesca desgraçada machista e opressora com quem ele não convive e para quem, de herança, ele só deixou o nome, porque né. vive sozinho em infinitos hectares de terra em Brasília com mansões espalhadas pelo mundo que ele nunca tem tempo de visitar. O sr. autoritarismo é um cidadão kane sem a memória do rosebud. Ele comanda a maior emissora de TV do país e todas as empresas de exploração de petróleo e as marcas de perfume escancaradas nos outdoors dos shoppings -e os shoppings. Almoça no Antiquarius e come Lasanha Sadia congelada de madrugada. Tá sempre com um relógio da moda pulsando no pulso e no peito sempre insatisfeito.

parte 4
o verdadeiro darwinismo: a lei da sobrevivência tá em Poder ser verbo. Poder ser prazer, poder ser o que quiser ser e brincar com isso sem medo de não poder dormir quando cansar para acordar no dia seguinte e brincar mais.

prescrição

se um pombo não tivesse inflado o peito e o ego no batente da janela na oitava série e me chamado mais atenção do que as leis da física católica, talvez eu tivesse aprendido alguma coisa sobre a força da retração e daí que certamente eu não prenderia um elástico de 2.533 quilômetros no meu calcanhar. a pressão intrapulmonar, por sua vez e minha sorte, segue involuntária. assim que, sim, sigo respirando e queimando limões na chaleira e roubando livros de cafés e rala-queijo da cozinha de quem não sabe seu valor. cumprimentei a mulher do primo do porteiro do vizinho “oi, como tá?” e vomitei três litros de água, que a recomendação médica é abrir espaço dentro.

introdução

fala sobre você?

do aprendizado de imaginar minhas calças ou simplesmente de aprender em que pensar se surpreender é possível assim como aprender habilidades ao seu lado sussurrando em seu ouvido quero você em outra cidade com espaço e geralmente a alcance passado e presente ficam confusos porque são considerados grandes detalhes inteiros não terão duração em minutos
sem nenhuma Coca-Cola, garanto comédias românticas e chance de baixo orçamento. podemos aprender muito com nossos próprios lençóis. 

é claro que ainda não acabou.