quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Sobre coragem

Lembro de uma série de coisas. Das tartarugas esmirradas compradas em sacos plásticos na feira da praça. Do tempo em que carnaval não cheirava à cerveja e a graça não estava além do quintal, dos sprays de espuma, das guerras de confetes, fantasias de Batman e cigana. Lembro das noites frias, iluminadas por lampião e o mistério dos copos que guardavam água, óleo e fogo. Passagens secretas, formas, rostos e onças pintadas. O homem-baleia gravado nas marcas do tempo sobre a madeira. A piscina que era mar e nossa alegria nos dias mais longos. Churros na porta da escola, o cheiro de giz, banhos de mangueira, o dia que choveu granizo. Do outro lado da memória estão os dias mais quentes, os pés na lama, os galhos e as pontes dos netos. Brincadeira da roça, primos distantes, os sotaques carregados e as charretes também. Acampamentos na carvoeira, liberdade de cavalos, histórias que me faziam sentir especial diante do mundo. O mundo era meu e eu tão dele. 
Um dia a gente acorda e as pernas não são mais pequenas e nós, menores do que nunca. Fica difícil saber quando se perde o passaporte, quando o mundo fica grande e dos outros. É que se a gente não tá atento, a criança cansa de não ser escutada, pega o mundo pelas mãos e vai dar uma volta com ele. Que eu tenha calma, ouvido e coragem pra confiar no que me sussurra a criança daquelas tardes que via nos piscas-piscas de uma árvore, a beleza do mundo inteiro. Chama a criança pra perto e embarca nessa viagem com ela.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Sobre aqui

Qualquer coisa de grande
existe no agora,
que a gente, distraído,
deixa pra depois

terça-feira, 17 de junho de 2014

Carta pra Si

Oi,
A gente tava falando sobre valer a pena; e sobre o tempo. Sobre como a gente gasta tempo com coisas que não valem à pena. E a gente só falou disso porque, em algum encontro casual da vida, você entrou na minha, contrariando toda nossa teoria. Porque até mesmo no vazio, existe o cheio. E até no mesmo no cheio, existe falta. E no encontro das nossas faltas, a gente se achou. E fez um trato de vontades. E o que eu estava dizendo é que essas vontades crescem, para os lados e para frente. Te contei como o dia de hoje passou como dez e como é engraçado o modo como trabalho e a rotina tomam conta deles e da gente. Quando ela não existe, abre espaço pra uma série de novos incômodos e percepções. Hoje percebi, por exemplo, como é o mar às três e meia da tarde. Bom, frio e azul. Te contei como só no dia de hoje pareceu que a lua mudou quatro vezes, perpassando por todas as fases, de nova à cheia, ou vice-versa. Tenho certeza sobre um tanto de coisa, mas aí ouço uma música, ou vejo um vídeo sobre a distância, e o chão se rompe, ela se desfaz. E o que ocupa o peito é coisa outra que não a mesma de segundos atrás. Alguma coisa tá incerta e em movimento de mudança. Confusão berra lá dentro, mas de dia é tanto barulho, que a gente só escuta se estiver atento. Acho que é por isso que eu gosto tanto das madrugadas. E acho que é por isso que eu gosto tanto de você.
Um beijo,
M.


sábado, 3 de maio de 2014

do meu gosto

gosto de fotografia
do instante petrificado em luz
e da sensação de tê-lo seguro
gosto do que me aconchega
e da incerteza que me faz ir
gosto da dança
gosto do traço, do desenho,
do desembaraço de quem não se basta em si
gosto de quando não há pressa
de quando a cidade agita
de quando a rua enche
e mais quando esvazia
gosto de doce e de sal, prefiro o mar
gosto do bom gosto de quem gosta de gostar
gosto de falar, mas mais de ouvir
gosto da música que toca por acaso
e de quando eu não preciso sorrir
gosto das paisagens desérticas passando pela janela
gosto do céu e desses assuntos de perguntas

-das coisas terrenas, pequenas riquezas em forma e cor, gosto de não escrevê-las

domingo, 13 de abril de 2014

De longe

Distância é coisa estranha
com estranhos,
palavras são distintas
Aqui e em qualquer lugar
-Perto? Aperto.


Nada mais importa


Nada mais importa, além dos nossos chinelos de criança, uns banhos de mangueira, o frio da serra, três panelas de brigadeiro, o calor do Rio de Janeiro. Nada além de algumas músicas, alguns filmes, algumas músicas de alguns filmes e eles eternamente. Não importa a política, que se danem as notícias,  os bancos, os anúncios, Paes e Cabral, esses dois em especial. Que se danem as rimas(!), os preços surreais, o coco de cinco reais, o natal da Leader Magazine e a Bruna Marquezine. Que se dane a TIM e a TPM, o dedinho do Itaú e a internet banda larga. Por favor, que se dane o feicebúqui e, mil vezes, essas milhares de fotos. Que nada mais importa além do riso nosso, um chope gelado, exageros inventados por quem gosta de inventar. E a gente gosta pra dedéu. Inventa moda e muda a cada segundo, a gente chora, dança, abraça, fala, cala, a gente muda e cresce junto. Que se dane Raimundo e a maior dor do mundo, que quem se tem sabe o valor do encontro e nada mais importa, tanto

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

A paz de ti

Na não pressa, a gente se percebe. E quando se percebe, a gente se escuta. E de repente, sem nem perceber, a gente nasce. A gente nasce da pausa, da fuga, da noite que some por trás das montanhas, pra lá de todo esse caos. A gente nasce e cresce na música- sua casa, sua fala, sua tão sua, onde eu fui te encontrar. Você me ensina o silêncio, e todas as coisas que ele nos diz. E o amor então não é nada daquilo. Eu te conto contos, que de já tão meus, não sei se da cabeça ou de outrora- quem se importa? A gente se encontra na fuga e foge pra mais longe. A gente vai embora. Pra lá do tempo dos ponteiros, onde tudo é tão nosso que só de ser já basta, dizem "é lá que a paz mora".