quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Na bagagem


Nada do que trago me aperta o peito ou tão pouco pesa a alma. Ao contrário, me faz pássaro. Passa. Voa. Passa voando e fica. O que pesa é o que não trago: tudo aquilo que, por falta de asas ou excessso de chão, ficou sem passar. E que por isso pesa. Pesa porque existe sem ser. Está mas não é. Pesa o “quase” que cismo em não trazer.
Nas minhas costas pesou você.  Pesou o cordão arrebentado. Pesaram a mala e a piscina vazias. E pesa. Pesa a distância, todos os dias. Para aliviar meu esforço, esvaziei a mochila e deixei o silêncio pra lá. Errei. O erro também pesa. A falta do silêncio deixou um vazio, preenchido por palavras que pesaram muito mais.
Mas não páro. Sigo andando, sigo em frente. Feito gente que sente que a inércia pesa mais. Do tempo, não esqueço. E que não me esqueças também. Que me leve na bagagem, nos segundos que passam, pássaros, que voam, que ficam, leves. 

domingo, 17 de fevereiro de 2013

No vão do acaso

Na intermitência de tudo o que se partilha mora sozinho o silêncio. Os gritos em vão, o vão da memória, coincidências intrusas que irrompem da casualidade fortuita. Sorte a minha ter te conhecido. Por conta de um dia, de segundos, de no mesmo século nascidos. Tanto do século como do cão, que atropelado na rua parou o trânsito, impedindo minha mãe de conhecer o homem com quem se casaria. Conheceu, então, meu pai. Obrigada ao século e muito obrigada ao garçom, que trouxe o prato errado e atrasou os minutos até meu pai chegar. E aí eles se esbarram. E graças ao século, ao cão, ao garçom, ao salto bambo da sandália, o tropeço que me permitiu conhecer você. E quando mesmo conhecidos não somos capazes de cruzar nossos silêncios, a dor se faz. A dor é um papel amassado, um bilhete que não se vê, o desperdício contínuo de acidentes, falhos e meramente excepcionais, que só queriam te trazer até mim.


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

O que me é quando


Aflita.
Emaranhado de fios. Com início e fim que, quando juntos, parecem só meio. Muitos, muitos, muitos, muitos fios com extremidades coloridas pontilhando o caos. Quem lhes roubou a eletricidade? Aposto que é por isso, e apenas por isso, que não gritam.

Calma.
Ciprestes. Fico na dúvida se ciprestes ou o vento. Vento nos ciprestes é certeiro. Porque é na dança contida que os ciprestes me conquistam. Na dança e no cheiro. O cheiro das folhas que tem cheiro de vento, e assim uno os dois.

Êxtasiada.
Minha juba. Me revela para todos os lados. Enrola, embaraça, revolta, solta. É bicho selvagem que não se prende.

Fotofóbica.
Dia branco. Que dispensa sol e chuva e se faz, por si só, claridade. É nuvem ele todo, sem formas, homogêneo. Para que eu, e outros mais, não tenhamos a frustração de tentar, em vão, encontrar no céu qualquer traço de azul, de ave, ou luz. Sábia natureza.

Nua.
Caleidoscópio. Pequenos fragmentos de transparência colorida, em eterna mutação. A cada movimento, nova combinação. Agradável, ou não, ao olhar.