quinta-feira, 31 de maio de 2012

Cais

Partem de mim, muitos navios.
Tanto quanto nunca cheguei a ver.
Tanto quanto as palavras
a boca não sabe dizer

Parte todo e nada,
incompleto como eu - sempre quando penso.
Mas não só. Não só como eu.
Incompleto também como as rugas, que revelam a idade.
Como o coração inquieto.
São os primeiros passos, como os coques de balé. Malfeitos.

E é preciso ser imperfeito, sempre.
E é preciso dizer sim
E apesar do não,
Alegrar o peito
e ir.

Por isso, navio,
parte todo e parte nada,
parte terra, parte água,
me espalhe.
De norte a sul do mundo, aos bons ventos que vierem. 


domingo, 13 de maio de 2012

Convite

Amarga a vida
embrutece o poema
perde-se o tom
não acontece, apenas
um dia é só mais um dia
seguido de sol e lua
os fatos, os dados, os fardos
não brotam
da estrada crua
E o tempo, homem,
tampouco é adulto
O tempo é seu,
e errante.
Adentra teus cachos,
teus passos
teus falsos cansaços
e,
engana-se.
engana-te.
Não se aprisione, homem,
na casca da ignorância:
aos cinco,
aos dez,
aos trinta,
serás sempre criança.
Se permita, homem,
a gargalhada transbordante:
aos tantos,
aos trancos,
aos montes,
A vida te chama,
menino.




correio 2

Domingo, 13 de maio de 2012

Uma felicidade aguda me invadiu o peito, quando li seu nome no papel. Demorou, dessa vez. Pensei mesmo que não fosse mais ter respostas. Não me refiro nem aos versos "confusos", mas às perguntas simples que tanto fiz. Bom saber dos seus dias, e como vão bem. Os meus...bem. Esses dias tropecei num paralelepípedo da rua da Quitanda. Não cheguei a cair, mas o pensamento tombou. Foi para longe; lá para tempos passados e frios e cinzas e felizes, quando quem tombava era você e quem te segurava, era eu.
Quem te segura hoje? Espero que não tombes tanto. Aqui comigo, enquanto lia sua carta, imaginei uma cena engraçada: Você, com bigodes de Dalí, e traços mais doidos do que os do Picasso. Você gostava dele! Mas não entendia meus versos"fora de ordem". Um dia ainda volto para essa terra. E quem sabe, andando pelas ruas, tropeçando em postes, me depare com traços seus; em livros de vitrines que passarei a cada esquina.

 Por  todos os cantos. 


Hoje, vou no Juraí. Juraí, o lago, lembra dele? Não o dono da relojoaria. Aliás, abandonei aquela mania de relógio! Nem pergunto mais pelas horas. Do que adianta? Bem que você dizia, o tempo só falta quando passa. Quando já passou... Volta e meia, você me vem à cabeça. E a gente se encontra e ainda se esbarra.

p.s: Sublinhadas, elas não ficam tão perdidas assim. 


Um beijo,
E.








sexta-feira, 11 de maio de 2012

correio 1

Sexta-feira, 11 de maio de 2012.


Entro. Pedindo lincença discreta, só porque ainda me resta aquilo que chamam de educação. E me resta a vontade também. Posso entrar? Gosto do jeito como vocês lidam com a vida. E gosto muito do jeito como ela nos escreve. Ontem cheguei tarde em casa, exausta do dia à toa na sala branca. Entrei descalça e fui me despindo. Aos poucos. Bolsa na cozinha, Casaco -aquele vermelho, lembra?- na sala,  vestido no corredor. A ducha fria escorria e enquanto eu olhava o ralo, começei a pensar em um tanto de coisas. Para onde vai tudo o que se lava (e não se leva) durante o dia? E aí lembrei de você. Não por conta do ralo. Sei lá, talvez um pouco por conta do ralo. Aliás, li suas cartas. Não entendi muito bem o que você pretendia dizer com aqueles versos. Não entendo versos e essas palavras que ficam bonitas fora de ordem. A casa tá fora de ordem. Tudo fora do lugar, mas eu não. Nada de tão novo que justifique a mudança; ainda não estou pintando. Mas estou decidida de que quero, sem querer. De que vou deixar vir, e traçar minhas metas, claro, aqueles planos não morreram. É que de repente, no meio do desespero, da zona, das roupas espalhadas, eu sorri.

Um queijo,
L.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Dia 04.

Estrada sem fim
começo é terra,
meio de mim.

A história está em todo canto.