sexta-feira, 3 de junho de 2016

A gente precisa falar sobre isso

Hoje peguei um táxi e como de costume puxei papo com o motorista. Perguntei sobre Buenos Aires, sobre a profissão, sobre o que ele pensa, como gosto e costumo fazer com quem dá abertura. E em quinze minutos de conversa, ele me "elogia" dizendo "quem dera se as mulheres argentinas fossem assim, como as brasileiras".
Espera.
Assim como? Quem são as mulheres brasileiras que esse homem conhece tão bem?
E ele explicou que as argentinas são mulheres muito mal-humoradas enquanto as brasileiras, não. As brasileiras são mulheres alegres, livres, sem pudor. Citou até o carnaval.
Quis contrapor. Quis dizer que, não, amigo, isso não é a mulher brasileira. A mulher brasileira não é o que ele vê na Sapucaí. A mulher brasileira não é uma e muito menos é livre. Quis dizer que essa é uma visão machista e que a mulher não tem que ser alegre para um homem. Quis contar que não tem cinco dias, TRINTA homens estupraram uma mulher e fizeram disso uma festa nas redes sociais.
Quis dizer um tanto, mas em uma hora de engarrafamento até chegar em casa, não consegui dizer nada.
E pensei depois que isso também quer dizer muita coisa.
Fui pesquisar alguns dados bem concretos sobre ser mulher brasileira:
-Segundo Nadine Gasman, representante da ONU mulheres no Brasil, 50 mil mulheres são agredidas sexualmente por ano no país.
-Esse número não é certo, porque exclui todas as outras vítimas que se silenciam.
-A estimativa é de que 86% (oitentaeseisporcento) das mulheres brasileiras já sofreram algum tipo de assédio. (ONG Actionaid)
-Quase 5 mil mulheres morrem por ano no Brasil por questões de gênero, ou seja, por serem mulheres.
A gente precisa falar sobre isso.
A gente precisa falar sobre isso.
Com as mulheres, com os homens, com os taxistas argentinos, com as crianças nas escolas e em casa, em qualquer parte do mundo.
Que cultura é essa que mata todos os dias?
Que mídia é essa que banaliza o crime do estupro?
Que ministério da educação dá voz a um animal que se vangloria de ser um estuprador?
Que política é essa que tem Jair Bolsonaro exaltando o estupro e defendendo que gay tem mesmo é que levar porrada?
Que política é essa que tem como presidente da câmara Eduardo Cunha, criando um projeto de lei contra o aborto legal?
Que religião é essa que diz que tem um Deus maior do que a vida de uma pessoa?
A cultura do machismo tá na mídia, tá na política, tá na religião, tá na escola, tá no Brasil, na Argentina, no mundo todo. Tá também ao nosso lado, nos "elogios" dos desconhecidos, nos "conselhos" dos amigos, nas "piadas" dos colegas de trabalho. Tá no boca a boca enraizado que pra curar tem que ter voz.
E tá tendo voz. Tá tendo resistência. Tá tendo reflexão, protesto e luta.

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