a folha que no exato segundo se desprende da amendoeira e no zigue-zague do vento nunca despenca mas pousa na superfície do paralelepípedo nem um milímetro a mais nem um a menos de onde ficou- até que não se fique mais.
até que o carro passe
até que o passo apressado na Floriano Peixoto
até que a bengala do idoso de Copacabana
-tão frágil quanto a formiga que no azulejo azul e branco da cozinha carrega um despedaço da folha da amendoeira ventada pela bengala de Floriano Peixoto na orla de Copacabana em outubro de 1884-
a tire da inércia.
tão frágil quanto o tempo dos romances
-que até Graciliano tem sua última página
o tempo que começa antes do prefácio e continua até depois do fim limitado em areia e grão mas que nunca termina até que se quebre a ampulheta
tão frágil quanto a prisão
quanto o relógio cuco que não para que
não para que não para que não para
até que se pare um dia
como o coração
como a puta que pariu um negro um pobre um infeliz tão frágil quanto
a dor do útero que se desfaz
a dor do corpo contraído
no chão
tão frágil quanto o alívio
da água corrente que de tão quente também seria dor se não aliviasse a dor maior
ar-dor
tão frágil quanto a palavra
quando se desfaz e nem sempre fica
menor
ou melhor
ou menos brega
tal qual o amor
quando hiato
entre o sim e o não
entre você e eu
entre dois continentes
quantos oceanos?
a fronteira entre Minas e o Rio é uma ponte em Mauá tão frágil quanto
o silêncio antes do espirro o grito antes do espasmo minha imagem diante do espelho
no instante preciso em que o sol sumiu no horizonte e então se era dia agora não se é mais
tal qual o amor
tão frágil matemática quanto a fórmula de Bháskara
menos b mais ou menos a raiz quadrada não importa
a sequência de acasos que impedem o encontro entre duas pessoas que atravessam as ruas em sentido contrário e que não se encontram porque hão de se encontrar dali a três anos e cinquenta e dois minutos entre copos virados da madruga ou cafés da livraria ou
não importa
porque só dali a três anos e cinquenta e dois minutos o encontro há de ser um encontro
tão frágil quanto a pele e a bala que na Guerra do Golfo
no Alemão
na Maré
em Orlando
rasga o tecido e rompe as células e mata a frágil matéria de que são feitos os homens
de que são feitos os homens?
tão frágeis quanto os sonhos e o peso do teu corpo sobre o meu
tão fortes quanto as mulheres
de que são feitos os homens?
domingo, 19 de junho de 2016
_ _ _
//
UM- ela quer me destruir.
OUTRO- do jeito que você tá, qualquer um quereria.
UM- ela só me ataca.
OUTRO- ela não pode atacar outra pessoa.
UM- sair do mapa pode ser só azar de ter calhado de cair nas fronteiras erradas?
UM- ela quer me destruir.
OUTRO- do jeito que você tá, qualquer um quereria.
UM- ela só me ataca.
OUTRO- ela não pode atacar outra pessoa.
UM- sair do mapa pode ser só azar de ter calhado de cair nas fronteiras erradas?
//
OUTRO- Não dá pra competir com quem tira três seis de uma só vez.
UM- Ela sempre foi assim.
OUTRO- Sorte também se treina ou a sorte por si só já é uma questão de sorte?
UM- Ela sempre foi assim.
OUTRO- Não dá pra competir com quem tira três seis de uma só vez.
UM- Ela sempre foi assim.
OUTRO- Sorte também se treina ou a sorte por si só já é uma questão de sorte?
UM- Ela sempre foi assim.
//
UM: Perdeu o Oriente Médio.
OUTRO: Ela não tá nem aí pra Ásia.
UM: Ninguém conquista a Ásia por acaso. Já viu o tamanho desse continente?
OUTRO: Ela não tá nem aí pra Ásia.
UM: Ninguém conquista a Ásia por acaso. Já viu o tamanho desse continente?
//
OUTRO- Europa, América do Sul e um terceiro à sua escolha.
UM- América do Norte e Oceania.
OUTRO- Ela não tá nem aí pra Oceania.
UM- E o que ela tá fazendo com três tanques em Nova Guiné?
OUTRO- Nem todo mundo é objetivo com um objetivo.
OUTRO- Europa, América do Sul e um terceiro à sua escolha.
UM- América do Norte e Oceania.
OUTRO- Ela não tá nem aí pra Oceania.
UM- E o que ela tá fazendo com três tanques em Nova Guiné?
OUTRO- Nem todo mundo é objetivo com um objetivo.
//
OUTRO- Um contra três? Isso é suicídio.
UM- Ela sempre foi assim.
OUTRO- Suicida?
UM- Tudo ou nada.
OUTRO- Puta merda. Ganhou o Oriente Médio.
UM- O que eu te disse?
UM- Ela sempre foi assim.
OUTRO- Suicida?
UM- Tudo ou nada.
OUTRO- Puta merda. Ganhou o Oriente Médio.
UM- O que eu te disse?
//
OUTRO- Oceania, Ásia, África e América do Norte é um objetivo?
UM- Ela quer acabar comigo.
OUTRO- Conquistar o mundo é um objetivo?
UM- Ela tá acabando comigo.
OUTRO- Últimas palavras?
UM- Ela foi sempre assim.
OUTRO- Oceania, Ásia, África e América do Norte é um objetivo?
UM- Ela quer acabar comigo.
OUTRO- Conquistar o mundo é um objetivo?
UM- Ela tá acabando comigo.
OUTRO- Últimas palavras?
UM- Ela foi sempre assim.
resposta à G.Stein
vi unicórnio em miniatura nas profundezas do oceano e um guarda-chuva que não guarda é nada além de ar pra cacete. sobre as cartas e o amor não basta chegar rasgar o envelope ter cep e selo e sei lá mais o quê. sabe o quê? tem que ter ar e descompasso pra aguentar uma frase dessas que mais parece o cavalo Stone que disparou naquele filme, como é mesmo o nome?, meu avô apostaria nele e perderia porque o Stone corre pra caralho dispara tira o ar descompassa mas não chega nunca. nunca. nunca e sempre são opostos de um mesmo absurdo que se encontram depois daquela curva em Friburgo, saindo pelo lado esquerdo da estrada de terra, lembra? aquela que era sempre a próxima, mais dez passos depois do passo seguinte. esquece, vô, o cavalo Stone não vai nunca vencer. e o que eu dizia sobre as cartas as curvas o amor e o cavalo Stone é que o importante é outra coisa que definitivamente não é chegar.
11:12
Coisas místicas desviam de mim, acho que as bruxas não me gostam. Mão não coça, pombo não caga, nunca vejo 11:11 no relógio. Outro dia perdi uma orelha na calefação do meu quarto, tentando esquentar pra ver se pelo menos assim alguém falava mal de mim. Fiquei puta. Ninguém merece ouvir pela direita. Fui numa cartomante que não soube ler minha mão sem linhas. Paguei caro num astrólogo e meu mapa é uma linha inteira da Pavuna a General Osório. Um futuro promissor, ele disse. Já sinto a sorte mudar.
sexta-feira, 3 de junho de 2016
ser mulher
Ser mulher oral: exercito a língua na fala que vem dos cotovelos, nos beijos e nas coisas que tem sabor bom. Sorrio largo, lambo pratos, devoro chocolate, me lambuzo de manga, como com as mãos e lambo os dedos depois. gosto de sentir a roupa folgada, de vestir blusa grande, de não usar sutiã. em casa, quanto menos roupa, melhor- exceto no inverno argentino, e talvez até nele. Ser inteira, ser entregue, não ter pudor no que diz respeito aos sentidos, não ter pudor em qualquer coisa que diga respeito ao amor. Os deuses tem vários nomes e o meu é esse. Sair só para dançar, usar decote do tamanho que convir, beber uísque em copão e cerveja no gargalo. E não ter que pedir pra ser respeitada e não ter que me conter pra não ser julgada, porque isso é mínimo que espero de vocês. E nunca é só isso. A lua tem quatro fases e oito mil lados. A gente nasceu nu. No sangue que escorre todo mês entre as pernas, tem muito mais vida do que se vê. Tem sempre alguma morte. Tem sempre alguma sombra. E tá tudo misturado: tem riso, tem silêncio, tem solidão, tem choro, tem sexo, tem cheiro, tem angústia pra caramba; tudo isso é coágulo e tudo isso corre dentro, o tempo todo.
A gente precisa falar sobre isso
Hoje peguei um táxi e como de costume puxei papo com o motorista. Perguntei sobre Buenos Aires, sobre a profissão, sobre o que ele pensa, como gosto e costumo fazer com quem dá abertura. E em quinze minutos de conversa, ele me "elogia" dizendo "quem dera se as mulheres argentinas fossem assim, como as brasileiras".
Espera.
Assim como? Quem são as mulheres brasileiras que esse homem conhece tão bem?
E ele explicou que as argentinas são mulheres muito mal-humoradas enquanto as brasileiras, não. As brasileiras são mulheres alegres, livres, sem pudor. Citou até o carnaval.
Espera.
Assim como? Quem são as mulheres brasileiras que esse homem conhece tão bem?
E ele explicou que as argentinas são mulheres muito mal-humoradas enquanto as brasileiras, não. As brasileiras são mulheres alegres, livres, sem pudor. Citou até o carnaval.
Quis contrapor. Quis dizer que, não, amigo, isso não é a mulher brasileira. A mulher brasileira não é o que ele vê na Sapucaí. A mulher brasileira não é uma e muito menos é livre. Quis dizer que essa é uma visão machista e que a mulher não tem que ser alegre para um homem. Quis contar que não tem cinco dias, TRINTA homens estupraram uma mulher e fizeram disso uma festa nas redes sociais.
Quis dizer um tanto, mas em uma hora de engarrafamento até chegar em casa, não consegui dizer nada.
E pensei depois que isso também quer dizer muita coisa.
E pensei depois que isso também quer dizer muita coisa.
Fui pesquisar alguns dados bem concretos sobre ser mulher brasileira:
-Segundo Nadine Gasman, representante da ONU mulheres no Brasil, 50 mil mulheres são agredidas sexualmente por ano no país.
-Esse número não é certo, porque exclui todas as outras vítimas que se silenciam.
-A estimativa é de que 86% (oitentaeseisporcento) das mulheres brasileiras já sofreram algum tipo de assédio. (ONG Actionaid)
-Quase 5 mil mulheres morrem por ano no Brasil por questões de gênero, ou seja, por serem mulheres.
-Segundo Nadine Gasman, representante da ONU mulheres no Brasil, 50 mil mulheres são agredidas sexualmente por ano no país.
-Esse número não é certo, porque exclui todas as outras vítimas que se silenciam.
-A estimativa é de que 86% (oitentaeseisporcento) das mulheres brasileiras já sofreram algum tipo de assédio. (ONG Actionaid)
-Quase 5 mil mulheres morrem por ano no Brasil por questões de gênero, ou seja, por serem mulheres.
A gente precisa falar sobre isso.
A gente precisa falar sobre isso.
Com as mulheres, com os homens, com os taxistas argentinos, com as crianças nas escolas e em casa, em qualquer parte do mundo.
Que cultura é essa que mata todos os dias?
Que mídia é essa que banaliza o crime do estupro?
Que ministério da educação dá voz a um animal que se vangloria de ser um estuprador?
Que política é essa que tem Jair Bolsonaro exaltando o estupro e defendendo que gay tem mesmo é que levar porrada?
Que política é essa que tem como presidente da câmara Eduardo Cunha, criando um projeto de lei contra o aborto legal?
Que religião é essa que diz que tem um Deus maior do que a vida de uma pessoa?
A gente precisa falar sobre isso.
Com as mulheres, com os homens, com os taxistas argentinos, com as crianças nas escolas e em casa, em qualquer parte do mundo.
Que cultura é essa que mata todos os dias?
Que mídia é essa que banaliza o crime do estupro?
Que ministério da educação dá voz a um animal que se vangloria de ser um estuprador?
Que política é essa que tem Jair Bolsonaro exaltando o estupro e defendendo que gay tem mesmo é que levar porrada?
Que política é essa que tem como presidente da câmara Eduardo Cunha, criando um projeto de lei contra o aborto legal?
Que religião é essa que diz que tem um Deus maior do que a vida de uma pessoa?
A cultura do machismo tá na mídia, tá na política, tá na religião, tá na escola, tá no Brasil, na Argentina, no mundo todo. Tá também ao nosso lado, nos "elogios" dos desconhecidos, nos "conselhos" dos amigos, nas "piadas" dos colegas de trabalho. Tá no boca a boca enraizado que pra curar tem que ter voz.
E tá tendo voz. Tá tendo resistência. Tá tendo reflexão, protesto e luta.
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