terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Ainda que cedo

Dos fones nos meus ouvidos, nenhuma música. Só o silêncio, que abafa o barulho. O chão é meu ar e por aqui que meus pensamentos voam, terrenos. Penso que me prendo e que a saída é nao pensar, nadar. Quase nenhuma vontade de nadar contra corrente, mergulho. Me deixo levar, em resistência de quem flutua rio a baixo. Me leva a rotina, que me suga o desejo de. dessa coisa toda que chamam de juventude. Cadê? Sei que há vida em cada canto, por detrás da paredes, vida. Nos canteiros, nas montanhas que ainda não vi, vida. Por metros de oceano, extensões de campos e mesmos nos tijolos, na lama, nos terrenos sem donos, vida. Nas peneiras, nas piabas, nos pés descalços, na leitera da velha vó, vida. Em quase toda forma de música. E em tudo o quanto clama, perto e longe. Mas não dentro de mim. Por agora, por enquanto.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Coisas que a gente não diz

É que antes de pensar no mistério das estrelas e no sol que nascia por trás daquele morro. Morro que fazia tempos existia e quanta coisa já havia de ter visto. Com olhos calados de quem vê e não fala, guarda. Assim como eu. Quanta coisa feia e quanta beleza de vida guardadas em tamanha rochosidade. Que palavra engraçada, rochosidade.Mas as palavras não importam. O que importa é. O que importa mesmo? Lurdes diz que meu pensamento é remendado. Que pareço criança. Também criança eu já pensava no morro. E no caminho do pão dentro da gente. Logo o pão, feito de farinha e de calor, transformado em migalha, intestino adentro. E digerido e terminado em descarga, em esgoto, em um oceano qualquer. Oceano de água que evapora e vira chuva que molha o morro. E logo imaginava meu pão molhando meu morro. Lurdes me acharia louco. Coisas que nunca disse a ela. Nem a ninguém. É que. Que barbaridade! Essas coisas que a gente não diz e as coisas que a gente não vê. O que estou dizendo? Lurdes é quem tem razão: o importante é o finito. Digo que finito é tudo, mas ela não gosta. Lurdes gosta do finito de agora.  Do breve. A conta de luz, o extrato bancário, os calmantes da noite, uma boa piada, a mulher que se ama e a que um dia se amou. Essa última parte Lurdes não diz. Por onde andaria Pilar? Será que ainda vive? Ah, Pilar. Finitos sejam os teus seios! E o verde dos olhos de Maria Lúcia. E meus pensamentos também. Que Lurdes não me ouça. Ainda bem que se pensa calado. Como aquele morro, logo ali do outro lado, o morro de todos os dias que o prefeito quer por fim. Diz que é obra das grandes e que vai virar túnel e que vai dar acesso, muita gente, muito carro, muita fumaça. Muita fumaça por cima do morro. E então, também você, meu amigo, será finito. E breve, enfim. Lurdes já vai acordar.