Amanhã é luz
Acordam os olhos azuis,
os raios de sol,
novo, outro,
outro novo dia
[Mais feliz]
Acorda o sorriso,
ô menina
Vem pra cá,
que alguém te chama
[quem?]
novo, outro
outro novo alguém
Acorda e levanta,
que a vida quer viver
mas só,
só se for com você,
ô menina,
acabou a música, começou o dia
novo, outro
outro novo
novo dia
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Hematose pulmonar
Dias brancos sempre me trazem uma parte do vazio. Encho-me dele, que o corpo até pesa, penso que vomito, e quem dera, mas nada sai do vazio. Do que é feito? Cansa o mundo, e viver, de repente, parece um abrir e fechar e abrir de olhos. E o homem acorda. E abre-se e fecha-se e abre-se, o sinal, verde, amarelo, vermelho. Verde. Atravesso, e enquanto cruzo a neblina, o cheiro da maresia me invade os pulmões, abrem-se, fecham-se, abrem-se as vias respiratórias, o ar úmido entra e salga meu sangue. Sempre soube do sal, a purificação, o descarrego, o descomplexo, a leveza. E por um segundo, expiro parte do vazio. Hematose pulmonar, penso. Entra oxigênio, sai dióxido de carbono, entra o sal, sai o peso. A perfeita troca. E realizo a sabedoria inerente a nós, a facilidade com que a natureza, voluntária? ou involuntariamente, acontece. Por que os homens não são assim? E acontecer é tão difícil? Por que o dia não se faz como se faz o amor, de vontade, de prazer, e nunca sozinho? Quanto nos pagaram, quanto nos pagam, para vendermos nossos minutos de agora por dias futuros? Quando foi que nos acostumamos com o desprazer das horas e buscamos na distância, o conforto da impossibilidade? Por que a pergunta soa ingênua, e precisamente distante da realidade, se é pra mim tão recorrente? Porque é. Porque é a ordem ingrata, porém voluntária, dos homens.
Porque é a mediocridade, a indecência, o descaso, a mesquinharia crescente em nós que responde afiada a todas essas questões. Acontece que a humanidade perde muito (inspiro oxigênio e sal), enquanto ministros ganham mais ainda (expiro gás carbônico e vazio). Acontece que abro o jornal, e Luiz morreu. Luiz, 40, morador de Jamapará, avô de Maria, 3, também vítima de enxurradas, enchentes, deslizamentos. Luiz, Maria, e mais seis. E mais vinte, e mais oitenta, e mais três mil vítimas do descaso. Descaso, falta do acaso, acaso é involuntário e não acontece. O que acontece é voluntário, e sinto em mim um tanto de culpa. Como era Maria? Morena, esperta, tranquila? Se perguntaria Maria um dia o porquê da maldita ordem do mundo? Para Maria não tem dia branco. Não tem hematose. Não tem o peso do vazio. Maria é Maresia. Enche-me os pulmões de ar, os olhos de água, e me faz mais humana.
Porque é a mediocridade, a indecência, o descaso, a mesquinharia crescente em nós que responde afiada a todas essas questões. Acontece que a humanidade perde muito (inspiro oxigênio e sal), enquanto ministros ganham mais ainda (expiro gás carbônico e vazio). Acontece que abro o jornal, e Luiz morreu. Luiz, 40, morador de Jamapará, avô de Maria, 3, também vítima de enxurradas, enchentes, deslizamentos. Luiz, Maria, e mais seis. E mais vinte, e mais oitenta, e mais três mil vítimas do descaso. Descaso, falta do acaso, acaso é involuntário e não acontece. O que acontece é voluntário, e sinto em mim um tanto de culpa. Como era Maria? Morena, esperta, tranquila? Se perguntaria Maria um dia o porquê da maldita ordem do mundo? Para Maria não tem dia branco. Não tem hematose. Não tem o peso do vazio. Maria é Maresia. Enche-me os pulmões de ar, os olhos de água, e me faz mais humana.
domingo, 8 de janeiro de 2012
João coração sem fim
Quem nunca estudou geologia já sabe que a maior propriedade da areia é servir aos reis. Reis, mas também rainhas, príncipes, princesas e bobos, muitos bobos, que, convocados pelo grande astro e seus raios de calor, reuniram-se nesse domingo na praia do Arpoador. Sua benevolência - não a sua, muito menos a minha, mas a da areia- vinha em miudezas, do tamanho de um grão. E, de miudeza em miudeza, de grão em grão, tornava-se um tapete. Um enorme súdito entre a orla e o mar.
E foi nesse reino, nesse domingo, sobre esse tapete, que João nasceu p'ra mim.
João não era bobo.
"João, quem é você?", eu, súdita, quero saber.
João negro, braços finos e barriga cheia.
João, menino, era, de certo, a esperança p'ra toda aquela gente: A senhora que lia de óculos escuros, o Tiozão careca que alargava o sorriso, mas não largava a cerveja; O grupo de gringos -bobos da corte?- de olhar inquieto como quem procura sem saber o quê. O "quê" de jovens amigas, a magra, a gorda e a alta, esparramadas em cangas, de tamanhos não proporcionais a elas próprias. Em meio a eles, em meio a pombos, a ambulantes, ao barulho de gente, ao silencio do mar, João, mini-rei, chegou decidido a ficar.
-Vamos erguer um castelo.
"Mas joão, e o povo? e o tiozão careca, e a gorda da canga curta, e a magra da canga comprida? Onde todos vão morar?"
-Vamos construir um castelo enorme. Feito de areia e sal, de água do mar. No castelo, vai ter espaço para todos, e um teto solar. Lá, ninguém triste poderá ficar.
A segunda ordem já havia sido dada. E João não temia revoltas, porque, e sabia que, sabia agradar. Em seus cinco anos de vida, captara a importância do poder do olhar. A graça nos olhos, negros sem fim, dispensava redomas, descia-lhe do pedestal e lhe levava à conquista do povo.
- João, que castelo o quê, seu pirralho! Não sai dessa areia quente, gente, mas que coisa. Vou te levar é pro mar.
O grito inesperado ecoou por toda a corte. O pequeno e sem fim coração de João bateu acelerado. Clamor de revolta? Já? Que tipo de pessoa poderia prostestar contra um castelo de areia e sal, abrigo e garantia de fim de qualquer tristeza que ali reinasse? "João mini rei dos olhos negros e coração sem fim, não se acanhe! Não se renda à primeira dificuldade, não encha de lágrimas os poços profundos do rosto. Não flutue no mar, que a correnteza te leva e te tornas bobo, João!"
- Não! Não quero nadar, não quero o mar que a correnteza leva. Quero aqui, sobre o tapete de areia, sob o calor dos raios, construir o primeiro e maior castelo, onde nenhuma onda entrará, e só a felicidade vai reinar.
E como que num brado de guerra (e que se fizesse guerra, se necessário. "O reino por um castelo, João!"), João se tornou rei. Rei, pelo tempo que durasse sua coragem. Rei, ne guerra contra o tempo: Vencendo os anos que não o convencessem de que com areia, se constói castelos; De que com tapetes, pode-se voar.
Assinar:
Comentários (Atom)