sábado, 28 de maio de 2011

A pia

Dona Dalgiza não vive grandes entusiasmos na vida. Não lhe interessam as notícias: De economia, bastam-lhe as suas, e a política, "credo". Tem pavor à tecnologia, e à rapidez com que ela evolui. Desconfia de qualquer macro iniciativa, para ela o mundo se constrói de pequenas boas ações: Entre o regar das pimenteiras, "pra espantar o mau olhado!", e o distribuir das balas carameladas, alegria de Juca, Jonas e Joice, os trigêmeos do andar de baixo. Quando sol, gosta da rua, e mais das pessoas. Quando chuva, gosta de tango, e mais das cartas. E assim, em oitenta e cinco anos de micro atos, fez-se o nosso personagem: Semblante gordo e generoso, não havia quem negasse.

Mas em razoável tempo de vida, não há quem não estabeleça preferências. E de todas as micro manias, a que mais agrada Dona Dalgiza se encontra na cozinha: Na pia. Ali, naquele espaço entre a torneira e o fundo de alumínio, entre o sujo e o mal lavado, empilhava-se todo o caos, nunca visto, de dona Dalgiza. E diante dele, ela se perdia, e perdia horas de pura contemplação. Dependia da pia para reviver seu dias e construir sua memória. Mais um domingo, e do banquinho da cozinha, a dona admira sorridente a louça acumulada do dia anterior: Duas xícaras de porcelana com borrões de chocolate, uma colher de sopa amassada e um canecão com o inscrito "Viva o Verde". A pia, sempre a maior das confissões dos melhores deleites e orgias do dia.



Manhã, as xícaras e os borroes de chocolate:
Depois de meses sem me ver, Amélia veio me visitar. A safada criou alzheimer! Quanta ingratidão! Todas nossas memórias perdidas... A tradição com Amélia sempre fora o chá de tomilho. Ela adorava. Mas ela me adorava também...e agora mal sabe meu nome, a infeliz! Anos de amizade pra isso. Não podia deixar barato. Amélia sempre destestou chocolate. Tinha pavor de cacau. Preparei dois chocalates quentes, bem amargos, pra toda amargura que sentia. E não é que a sem vergonha bebeu, lambeu os beiços gordos e pediu mais? Vai entender essa tal de memória...

Tarde, a colher amassada:
Depois de duas horas lembrando e esquecendo o endereço de casa, Amélia foi embora. Graças! Deitei na rede pra apreciar o silêncio dos meus pensamentos, quando tocou a campainha. Não era Amélia. Era Juca. Juca, Jonas e Joice, o trio elétrico. Vieram reclamar minha ausência na varanda essa manhã, mas os danados queriam mesmo eram as balas carameladas. O estoque tinha acabado. "Sem bala, a gente não vai embora, dona dalgiza". Apelei pra mágica: "Hoje vou trocar as balas por um truque de mágica". Eles sorriram e eu respirei aliviada. Peguei uma colher, o velho truque da colher amassada. Eles acreditaram tanto na força do pensamento, que, como num truque de mágica, minutos depois os três sumiram contentes. Mas não mais que eu.

Noite, o canecão "Viva o verde":
Pós soneca. Chega à minha casa um jovem: "Com licença senhora. Estamos recolhendo integrantes para participar de uma passeata aqui na rua, daqui a pouco. A causa é nobre: Defendemos a preservação do verde". Me animei, achei bonito! Não a causa, o jovem, claro. Me uni àquelas pessoas exasperadas, gente, cruz credo, que multidão. tava nervosa, quase arrependida, mas aí o bonitão me ofereceu um cigarrinho, disse que relaxava. Não é que funcionou mesmo? Tava bem zen quando olhei pra cima e li a faixa: "Marcha da maconha: Viva a legalização!". Me lembrei de Amélia, que se estivesse comigo, e se lembrasse de alguma coisa, se desesperaria com a situação. Pensei em ir embora, sumir, feito mágica, feito Juca, Jonas e Joice. Mas decidi que gostava daquilo. O bonitão continuava do meu lado.

domingo, 8 de maio de 2011

مخفی

Embaçado, como os sonhos costumam ser.
Um casarão de outros tempos, de grande salão e janelas. Madeira e vidro, e o frio lá fora.
Nublado, como os céus quando não querem aparecer, apenas observar, preguiçosos, os caóticos aqui de baixo.
Então, eis que surgimos. Dois invisíveis num casarão passado. Ela brinca com o vinho, e canta com a taça. Ele não brinca, mas canta. Sem perceber que a canção já estava ali, muito antes dele chegar. Ela dança, cabelos soltos, no ritmo do vento- que ela não vê, lento, do lado de fora. Ele olha pro vidro, e vê o vento- mas, dentro, não a vê.
Ele poderia ser mais atento. Mas, nos sonhos, eu sempre te perdôo.