domingo, 25 de abril de 2010

Nathiem

Eu, especialista de saudade, nunca a sentira com tanto sentido.

A saudade tem cheiro de hortência e gosto de feijão com paio. Cabaninhas de Edredom em beliches com histórias inventadas, lampião de luz falhada e lareira de tijolo vermelho. Arfadas de ar gelado, puro, privilégio de poucos. Chão da praça coberto de confetes e serpentinas com o batman e a Esmeralda em cavalos enormes, talvez fossem pôneis. Ovos de chocolate mal escondidos atrás do sofá e nós em esconderijos jamais revelados. O infinito da infância, tão pequena menina, revelava-se agora em flashes de memória, em noites em claro, só de céu. Céu escuro, escondido atrás de neblina ou via-láctea, palco antigo de onças pintadas, bruxas e borboletas azuis; Palco de mergulhos noturnos, cabanas na sauna, filosofias bêbadas de nexo e vinho. Havia um mistério entre as matas e os ipês, uma música não cantada feita só para lá. O último olhar, sempre o primeiro susto. Alma de bailarina, andava naturalmente nas pontas dos pés, com o cuidado de quem revive o passado entre um riso e outro, perdidos ali anos atrás. Não era fácil buscar todos. Estradas de terra, e água escorrida de chuva virara uma correnteza de folhas, correndo tanto quanto o menino que fugia do carro. Segredos de lanterna, planos de sótão, palavras de trio guardadas, "cartoon network yeah''. Ponte do rio que cai e redes, literalmente, caídas. Fondue de queijo e micos para quem deixasse o pão escorregar; Futebol de lama, corridas de papelão, mímicas nunca tão malfeitas e bem pensadas, terremotos em tabuleiro de War, disputas no baralho e na pesca de trutas. Poço feio, poço velho, algo por aí: Lindo. Mais uma arfada, um tanto de imagens e os olhos fechados, "aguando o bom do amor". Os restos construíam o todo: Moringa quebrada, ciprestes, eucaliptos, trilhas e pastores alemães. Sentados na estrada, esperando pela chuva ou pulando portões para a vista do sossego: Montanhas e pedras úmidas, com as mesmas ovelhas imóveis de sempre. Platô de reflexões, besteiras, fogueiras, refúgio de idéias.

Final de música, fim de tarde, descida da serra. E, pela primeira vez, voltava para casa com a certeza de que não esquecia nada ali. Nem nunca iria esquecer.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Paciência

"Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
A vida não pára
Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso, faço hora, vou na valsa
A vida é tão rara
Enquanto todo mundo espera a cura do mal
E a loucura finge que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência
O mundo vai girando cada vez mais veloz
A gente espera do mundo e o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência
Será que é o tempo que lhe falta pra perceber
Será que temos esse tempo pra perder
E quem quer saber
A vida é tão rara (Tão rara)
Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não pára (a vida não pára não)
Será que é tempo que me falta pra perceber
Será que temos esse tempo pra perder
E quem quer saber
A vida é tão rara (tão rara)
Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não pára (a vida não pára não... a vida não pára)"


Deixo ele falar por mim hoje.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Sexta-feira da Paixão, Sábado de Aleluia e Domingo de Páscoa

Sexta-feira do peixe, Sábado de descanso e Domingo de chocolate.

Confesso que estou longe de ser um poço de conhecimentos bíblicos e pratico diariamente o descostume de me aprofundar no assunto. No qual sou a típica piada daqueles almoços dominicais, passando da avó na cabeceira pela priminha e sua boneca do outro lado da mesa. Gafesinhas cometidas por pura falta de vergonha na cara para ler e descobrir sobre os sei lá quantos vales de Jesus e suas alucinações no deserto. Não tenho justificativas prontas pra isso, simplesmente não é o que mais me clama a alma, toma meu tempo ou aluga atenção máxima. Não sou uma alienada da história cristã, não é isso. Mas prefiro ir descobrindo aos poucos, entre um almoço e outro, o que contam os antigos (e invariavelmente os mais novos). Entrego-me, ponho o pensamento à tapa, confesso que gosto da Páscoa e, os católicos fervorosos que me perdoem, mas da história do chocolate eu entendo mais um pouco. E nesses três diasinhos que se seguem, sigo eu com minha espiritualidade, com meu espírito de gordo, juntos. Sempre com fé de que será mais um feriado a se lembrar, a me lambusar e - por que não?- aprender, entre um ovo e outro, um pouco do tanto que falta descobrir. Aprender que Abel era homem, e não há teimosia no mundo ou soar de tom feminino que o torne mulher.