domingo, 26 de abril de 2009

Som da juventude

Oito da noite e aquela saída preguiçosa da faculdade. Horário em que bate a fome acumulada durante o dia, e qualquer exigência sobre o que comer é substituída pelo ''velho jovem'' critério do bom e barato- na verdade, mais jovem do que velho, e mais barato do que bom.
A promoção de um salgado e refrigerante por 2,50 determina o destino dos dois estudantes de comunicação. O vendedor, um setentão, magro com uma careca de respeito, senhor de muita idade e poucas palavras, pareceu se esforçar pra dizer ''Boa noite''.

-Boa noite, me vê dois mistos quentes no capricho com duas coca-colas, por favor.

Na espera do nosso rango, três jovens(não passavam dos vinte anos), também no ritmo da saída preguiçosa da faculdade, caminhavam e mantinham um diálogo, não sei se exatamente uma conversa:

-Puta, cara! Não acredito...
-caraaaalho, que merda, brother...
-é, porra, sem comentários!

O misto quente estava pronto e por um segundo eu pensei que não fosse mais comer. O vendedor, com a mão esticada segurando o meu pão, enrrugou mais a testa e, num balanço negativo com a sua careca, lançou um olhar de 'juventude perdida' para os estudantes:

- Esses jovens de hoje em dia... Eu juro que não entendo...A cada cinco palavras são dez palavrões! Acabou todo o respeito...

Olhos fixos no misto quente, uma resposta rápida da jovem faminta:
-É verdade! Pior que quando a gente acostuma, é foda!!

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Frágil coração.

-Tia, me dá um real?

Os olhos, força maior do menino, fixos no coração de cristal. Era um pingente raro, e o meu colo já havia se acostumado com ele. Um cordão de ouro, leve, quase não pesava, carregava o coraçãozinho transparente no meu pescoço.

Uma criança, eu e três corações.

-Não tenho um real.

Saliva gasta, eu sabia. Minha e dele (também não interessava a ele nenhum real naquele momento).

Tentei me afastar do rosto alucinado, que da altura do meu pescoço não passava. Dois passos e a aluninação, até então do menino, parecia ter vindo para mim. Os arcos da Lapa continuavam sobre nós, o vendedor do podrão a dez metros, o ''tunz-tun-tun-tun-tunzt-tun'' massacrante, sincronizado com a sirene vermelha que piscava, embalava dois policiais que"curtiam a boemia carioca''. Um segundo, e o rosto de dez anos se multiplicara em oito. Dez corações em uma só cena e todas as mentes focadas em um só, o menos importante dali.


Uma mão, um espanto, um grito e o cordão arrebentado. Dois corações atingidos de uma só vez. O primeiro perdido no chão, em uma rua qualquer, sabe-se lá o destino. O segundo, ferida mais grave, perdia a esperança na vida da criança, perdida no chão, em uma rua qualquer, sabe-se lá o destino...

domingo, 12 de abril de 2009

Acontece.

Tudo na vida acontece.
Cada fato de um ato,
Cada escolha, um novo atalho.

Acasos que se sucedem,
Uma grande pintura
Sem direito a rascunho.

De repente o mundo pára,
A rotina em preto e branco,
A memória já não clara,
Embaça a janela do passado.

A criança que ali dormia,
Acorda assustada.
O mundo de gente grande,
Não é nada, não é nada.

Sem castelos e sereias,
Sem mágicas e sem aviso,
O futuro se apresenta,
Se acomoda e fica.

Um piscar de olhos,
Escuridão fracionada.
O mundo sem lua, sem sol,
Taz a noite inesperada.

Cada passo é um pedaço
De uma estrada sem destino.
Cada dor, um cansaço,
Inevitável para o menino.

Se pudesse evitar,
Prever e não chorar,
Não teria a vida graça.

Se pudesse escolher,
testar antes de vencer,
Saberia que tudo passa?

Se pretendes não sofrer,
crescer sem ver, esquece.
Amadurecer dói,
E tudo na vida acontece.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Do que adianta o seu sorriso estampado?

Dispenso os falsos risos e o excesso de simpatia. Não busco elogios, nem os espalho por aí. Na verdade, prefiro as discussões a uma concordância mútua imediata. Tenho fome de conhecimento, quero trocas experiências, mastigar informações, sem deixar nunca de perder o apetite.
Eu não crio regras que restrinjam os meus dias, nem quero ao lado alguém que seja um falso inteiro dele mesmo. Prefiro aqueles que assumam uma meia verdade, que saibam ser impossível ser, por todo o tempo, apenas um. Por mais que não prometam uma eternidade, quero a companhia daqueles que expiram a sincera amizade. Uma amizade de momento, que seja, não importa. Não quero o social, o superficial. Existe aí a grande diferença entre o passageiro e o momentâneo. O momento acontece e ponto. Pode ser uma conversa, uma filosofia barata, uma piada; um olhar, um chopp, uma gargalhada. O momentâneo é humilde, não exige longa duração nem grandes eventos. Ele não pede mais do que você mesmo, basta estar presente para se tornar eterno.
Daí concluo que quero mais momentos e menos ''passagens''. Passagem para mim, só se for para a Europa...