Os deuses tem vários nomes, várias cidades. A saudade tá no
meu sangue e é impossível estar em dois lugares ao mesmo tempo. Pratico a
distância pra transformar também isso, pratico muito a imaginação. Ação. Desaparecer
é todo dia. Todo dia é um espanto. A forma como alguém fala rápido em outro
sotaque, uma criança embolotada em roupa e capuz, o jeito como o seu cabelo
fica fora do lugar e isso pode ser lindo. Isso aqui é tão curtinho e é tudo que
a gente tem. Impossível estar em dois lugares ao mesmo tempo. O erro é
construção a gente é construção não tem como dar errado, já deu. Não acredito
muito em fins e pelos muitos lugares por quais já me apaixonei e pelas poucas
pessoas pelas quais já me apaixonei, não acredito muito em fins.
segunda-feira, 23 de maio de 2016
sexta-feira, 20 de maio de 2016
o ruim das cenas, mas elas já vêm, é que não se pode dizer direto e tão fácil algumas coisas que eu gostaria de te dizer como: eu também me entedio muito com as cenas de ação e com as paredes de um escritório e com toda essa gente que precisa de gritaria e falatório e bombas e tiros e sganzerla para se sentir vivo. acho que é uma boa fuga pra quem não quer escutar o próprio silêncio. tenho uma tia que tem toc, ela sabe de cór a ordem de todos os seus livros da estante e eu mesma já testei mudar um e outro de lugar, sem avisar, só pra ver no que dava, deu que ela percebeu e pôs em ordem outra vez o que não tava desordenado. essa minha tia tem uma bagunça interna fodida, a vida emocional dela é um caos completo. e eu acho que isso explica muita coisa sobre tanta ação e tanto horário pra cumprir. e eu acho que pode ser essencialmente bom o seu incômodo.
raro hacer el proprio tempo. tem alguns lugares que acolhem e eu ainda não descobri uma livraria aqui equivalente ao sebo do Rio onde tinha café bom e livro barato, então eu paguei um pouco mais caro pra almoçar numa luz amarela. voltando do café do cortázar, peguei o metrô e sentei do lado de um menino jovem pré-adolescente. ele tava lendo um livro e eu li uma frase que dizia: “dont you know the next door is closed, Juliet?”. o garoto tava iniciando sua vida sexual com Bukowsik e não com playboys (certamente que com playboys também mas não no metrô), e eu quase disse: hermoso empiezo.
posso te contar um sonho bom?
Pesadelo 16 05. Tava numa mesa de jantar comprida com minha família e tinha alguma coisa sobre uma viagem com monges. minha mãe falava desses monges e eu saía de lá. Corta. Lugar amplo, encontrava vários amigos: o clima era de festa mas eu não me sentia mt bem ali, eu não queria encarar as pessoas. Até que aparecia um cara que eu já fui muito afim e eu não conseguia olhar pra ele mas ficava feliz dele tá ali e chegava o pedro, que é meu primo que faz circo e eu pulei nele e prendi minhas pernas ao redor dele e não soltava mais. Fiquei brincando de soltar os braços e ficar presa só pela perna na cintura dele e ele me rodava e a gnt ria muito, eu não queria soltar. Corta. Eu dormia no chão mas tinha medo e dava a mão bem forte pro meu irmão e ele deitava comigo no chão mas era como q se eu soubesse que algo ruim fosse acontecer que alguém fosse chegar e eu tava com medo e nervosa. Corta. Eu me despedida da minha avó que já morreu, ela tava sentada e queria marcar comigo de ir em algum lugar na segunda feira mas eu não sabia se confirmava. Eu não queria dizer não mas ao mesmo tempo eu pensava que talvez essa segunda feira fosse o último dia meu com você, eu lembrava disso. Detalhe: a bolsa dela aberta eu via coisas dela: batom perfume e pensava em pegar alguma coisa mas não pegava nada e eu saía meio q apressada seguindo por um corredor comprido. Olhando pra ela que ainda falava comigo e ficava cada vez mais longe. E eu sai do portão com minha bolsa e vi um assalto rolando do outro lado ds rua. Um homem com uma arma encostada numa mulher, roubava e atirava e ela gritava e eu tentei voltar, entrar no portão de volta mas não deu tempo. eu gritava pro homem que era tipo um porteiro guarda e tava do lado de dentro: rápido! Mas ele tava muito calmo e não fazia ideia do que se passsva comigo do lado de fora. Eu ainda tentei passar a bolsa entre as grades do portão, mas não deu tempo. o bandido me agarrou, e eu consegui me soltar e me escondi atrás duma arvore. O porteiro guarda sacava uma arma pra atirar no bandido que ainda apontava a arma pra mim. E o porteiro não atirou por medo de errar e o bandido me acertar primeiro. E eu tava morrendo de medo e queria ajudar o porteiro guarda a me salvar, mas não eu tinha muito medo de fazer qualquer movimento, e me senti paralizada. E aí eu acordei.
cometa cariño
cometo de falar e esse céu não é o mesmo do de ontem,
bombom é como eles dizem “brotinho”
comprei 10 incensos coloridos por 10 pesos
pisei numa palavra enterrada
e a gente ainda nem começou,
cariño!
cometa de passar perto
que isso já é dar certo
porque o fim já cabô
quando começô
passa passa passa passa,
cometa cariño,
tem carona p'ra dois? passô.
queria ter você perto pra poder olhar e tocar hoje e dizer tudo isso sem o medo de parecer te soar tão longe ou tão brega, será que a música que toca no fundo faz diferença?, se sim, eu te indicaria alguma, feito diálogo de filme que com trilha sonora cai sempre muito bem. Sem saber onde voce tá ou o que vc ouve ou o que você vai pensar, rabisco dizer que é bom arriscar te escrever
A vida é questão de tempo e ultimamente tem passado muitos anos. Nunca fiz marcas na parede, no corpo muitas. Não cresço em centímetros, cresço em pintas –ontem mesmo nasceu uma na minha saboneteira esquerda. Tem sempre um segundo em que a coisa acontece. Qual foi o segundo que você gostou de mim? Já se encarou bem perto no espelho até o nariz parecer uma coisa estranha nunca antes vista? É como repetir mil vezes a mesma palavra, até perder o sentido e virar outra.
outraoutraoutraoutraoutraoutraoutraoutraoutraoutraoutraoutraoutra.
Será que com os dias é assim também? Eles brincam de repetir até perder o sentido e a gente virar outro. Quando foi que a gente deixou de ganhar sentido?
Os segundos são exímios corredores, será que não cansam nunca? Eu me canso muitas vezes.
Hoje parei o relógio pra ver se o tempo parava também. Não funcionou.
(é que tempo se pára d’outro jeito)
Ver os vídeos do capanema e das ocupações todas me dá vontade de tá aí. Senti meu peito acelerar, fechei todas as guias e fui correr. Corri muito. Apostei corrida com os segundos, mas eles vencem sempre.
sexta-feira, 6 de maio de 2016
cartão postal -a paisagem sou eu.
Ontem choveu um pouquinho pela primeira vez desde que cheguei e hoje eu chorei um pouquinho pela primeira vez desde que cheguei tô treinando o silêncio e às vezes é difícil e importante não verbalizar o frio deixa tudo mais lento, o corpo mais lento, podia também deixar mais lenta a mente mas acho que isso independe de fatores climáticos. é tanta roupa que dá vontade de comprar medialunas e café ruim de moletom e eu faço isso mesmo ontem comprei parlantes que é como eles chamam as caixas de som -genial. mas as minhas eram mudas e não parlavan nada nem tudo funciona sempre da maneira como a gente quer e encontrar alternativas é também um gesto de amor, así que eu cantei qualquer coisa pra lá de marrakech. bom acordar sem saber como vai ser o dia e eu que achava longe descer uma ladeira. se eu fosse muito rica hoje, filha de algum político ladrão, pegaria um avião só pra ir na festa da Nalú e quem sabe até te ver por lá às vezes é difícil essa preguiça-barricada que me joga no looping inerte entre facebook e google, mas isso também independe de coordenadas geográficas. isso tá dentro, tá quase tudo dentro, como falar de banalidades sem ser banal? acho que eu não sei fazer um filme sobre um pouco mais que nada. às vezes queria querer menos saber do seu dia, me conta alguma coisa vai, não precisa ser novidade, pode ser qualquer coisa, um placar de futebol, quem você viu atravessando a rua, me conta do elias, do seu gaveteiro, vai caber gaveteiro?, me conta do tempo me diz até que anda pensando nela, que ontem dormiu com outra mulher, porque qualquer verdade tá valendo ouro ultimamente e a política daqui me excita, ontem fui na feira internacional dos livros e comprei só dois porque foi o que deu pros meus pesos leves, um lacan e um corella, pra exercitar o espanhol e o paradoxo. aconteceu uma coisa engraçada que eu nunca pedi autógrafo nem pro Caetano mas ontem peguei o meu primeiro com o ex-ministro da economia do governo Kirchner, ri sozinha, você já aprendeu a ficar sozinho? nem eu, mas sigo treinando mais e mais e mais e mais que é maravilhoso [me] ter por perto todo amor que houver nessa vida. vai ser maravilhoso te ter por perto também. vem? um beijo bom dia.
domingo, 1 de maio de 2016
Maria
Tem gente que se perde no tempo e é como que se nunca mais visto entrasse num túnel numa ponte do rio que cai, outro espaço-esfera, onde vivem as pessoas que nunca envelhecem, como o meu primo de 4 anos e a Maria. A idade da Maria eu nunca soube, não se conta por calendário, mas sim pela estatura baixa, a cor negra, pele grossa, cabelos crespos onde a mão afundava em fios brancos-cinzas-pretos. A idade da Maria se conta muito pelos decibéis, pela frequência da voz da Maria que nunca haveria de parar de falar (agora mesmo, nesse outro espaço-esfera, ela fala com a gente, tá ouvindo? ou com a gente, ou com o gato, com com a tábua de passar, ou com o cãozinho que de tanto que ela gostava até falava mais baixinho, assim, no diminutivozinho).
A Maria entrou nas nossas vidas pelas roupas. Pelas ceroulas do vovô, pelas saias da vovó. Segurava o ferro quente e passava cestos e mais cestos como que se nada mais passasse. Como se o tempo não. Passasse. E, passando, Maria migrou para os vestidos de mamãe e as camisas de papai. Foi com essa idade que nos conhecemos as duas, dois ponteiros em sentido contrário, força empuxo, segunda lei de Newton: eu amassava p'rela desamassar e ela desamassando preu amassar outra vez. E assim a gente ia se "ando". E de ando em ando, um dia a gente virou ou. Um dia, não me lembro quando, a Maria não chegou. Não voltou. Cadê a Maria. Maria, cadê você que sempre morou tão longe e tão perto e que da vida nunca brotou um filho, nem um neto, nem paixão teve Maria? Nunca falou de amor, a Maria. Como pode, mamãe, a Maria não casou? Será que Maria é virgem? Por que importa tanto a vida sexual de Maria? Por que a gente se absurda sempre primeiro com as coisas do amor? Onde será que cabe tanto medo de ficar só? Só Maria sabia. Maria, rainha do gerúndio, passando a solidão com ferro quente, passando a vida no meio da gente, a saudade hoje passou por aqui.
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