terça-feira, 28 de abril de 2015

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Ando me sentindo tão sozinho que na semana passada quase comprei um cachorro. Mas desisti. Vai que ele não vai com a minha cara, sei lá. No domingo, vi uma promoção das lojas americanas, “2 por 1”, não quis nem saber.  Segunda, me peguei falando com a Antúrios da mamãe, só eu e ela naquela sala enorme. Fiquei tão assustado que decidi não regar nunca mais. Atravessando a rua, o sinal abriu, o bonequinho ficou verde e eu fiquei parado. Um dia ela parou de me amar. Assim, de repente, de um dia pr'outro. Feito relógio cuco, feito microondas velho, feito fusca enguiçado. Um dia ela parou e eu parei também, que até nisso a gente combinava.

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a distância das palavras por aqui é quase sempre bom sinal de que você também não tá. e quando tudo anda tão calmo eu já nem sei se é porque tô perto demais de mim, ou longe demais de você. essa mania de ter que falar, de ocupar o espaço do ar com tanta bobagem, matando o silêncio de palavra em palavra. essa mania de ter que. de mudar a música, de encher o copo, de perder a hora pra evitar o que importa. é que silenciar sempre foi um perigo, porque é aí que a gente ouve tudo o que nunca foi capaz de dizer. é que nem cheiro de madeira queimada, sabe? ou vento gelado no rosto, ou folha de cipreste. me leva p'routros tempos. não é nostalgia barata. é coisa funda de quem não pára de ouvir, mas deixa a música correr.