segunda-feira, 23 de setembro de 2013

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Chove e é noite nublada. A gente não precisa de sol pra saber disso, basta não ver estrelas. Por um pouco mais de uma hora, eu corrompia minha rotina, atrasando minha chegada em casa. Às vezes dá vontade de fazer isso: atrasar, quebrar horários, só pra andar mais devagar, enganar o tempo e nós mesmos. Chove e eu entro no sebo, tiro da bolsa a folha amassada: Poulet,  Milton Santos, Nora, nada. Nem um livro, nem um item riscado. Pesquiso sobre história, memória e espaço, penso que o prazo é apertado e que eu bem que podia ter me planejado, mas a antecedência não gosta de andar ao meu lado.       Aceito comer, só pra esticar na rua. No restaurante, alguns rostos conhecidos, cumprimentos entusiasmados de quem se esbarra no acaso. Aquele lugar é bom, mas um pouco mais caro do que eu gostaria de pagar. E bem mais caro do que os quadros dali merecem. Isso é engraçado, várias mãos, tintas e traços, reunidos num mesmo espaço, vários pegadas apagadas no chão de pedra e quantas digitais lavadas na torneira de prata. Quanta gente e quanto nada. Com um amigo, divido a mesa, a conversa fiada e uma mini barra de chocolate amargo. Bom. Ainda chove, ele diz que não, a gente olha pra luz e descobre. Até o ponto de ônibus, sinais, poça, o cheiro de sopa e o metrô que passa, bem ao nosso lado, mais embaixo. 

Chove e eu não quero esperar mais. Pego o ônibus que passa. O motorista avisa que vai pela Lagoa, e que pode ser mais demorado. Eu topo o atraso. No ônibus, um casal de namorados. Eles sorriem bobos, como fazem os apaixonados. Um freio e dois tiros. Secos. Um corpo caído no chão molhado. O ônibus pára e eu olho pro lado. Dois policiais armados, com o punho esticado,  caminham, sem pressa, em direção ao corpo estirado. A namorada grita para que o ônibus saia, corra,  "que bala perdida é o que mais tem no Rio". Vida perdida. O motorista  é certeiro, "se for vagabundo é bem feito. Vagabundo tem que morrer". A cobradora concorda.

Viramos na Lagoa e o motorista é certeiro, "a maré tá alta".  Em Ipanema, sinal fechado. Paramos ao lado de um restaurante caro, esse certamente não tem aqueles quadros.  Do lado de dentro, a luz amarela ilumina casais e senhoras comportadas. "Um jantar são quatro semanas de trabalho", a cobradora ri. O motorista diz que ele é mais um churrasco.

O ônibus segue, mas o que ficou pra trás não pára. A cidade é movimentada e se faz entre um minuto e outro de atraso.


quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Onda do mar


Se vem
Se leva ou me leva
Se deixa ou me deixa
Ficar

Vem só
que só
Você já não está,
estado é um segundo suspenso
no ar

Vem
Que ir é um novo
Jeito de voltar

E nada mais me prende neste lugar

Que ver é mais
Sincero que falar

E nada mais me prende neste lugar

Se 
Acaso minha sorte mudar
Levo do mar, o sal
Do presente, o meu mal
Deixo pra lá


Que nada mais me prende neste lugar


segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Sendo



Não poder ser tudo o que quero, 
nem tão pouco tudo o que deseja o outro,
me dá espaço pra ver muito de tudo
o que eu nem imaginava ser.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Já é revirada

Lençóis nunca me bastaram para assegurar o sono.
Eu preciso do peso. O peso de uma colcha remendada 
que desenha na cama os meus contornos.
Minhas curvas, minhas costas, minha coluna inclinada.
Quando acordo, a cama é revirada,
quente e amassada dos sonhos que dormem ali
De ti, mais nada
a leve lembrança pesada, que me cobre
o peito, a boca, minha manhã-madrugada.