quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Pés

Na última música,
a gente dança
a gente dança
a dança flutuante
Tudo estranho
como a primeira vez
como a primeira vez
que te vi

Quem está por cima?
Os dois estão sós
e nus
Quem nos guia?
Somos só nós
quando
os pés saem do chão

Tudo está como antes
a velha mesma canção
e agora é nunca mais
quando os pés saem do chão

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Pichações

Disciplina. Pra seguir o meu caminho.
Olhos e orelhas bem abertos para o mundo,
tudo me distrái. E você, muito.
Um muro pichado de política. Suja é ela, ele tá limpo.
Pichado está tudo. Tudo por onde pisas, o quer que toques, tudo.
Tudo me distrái, e você, muito.


terça-feira, 13 de agosto de 2013

O maior dos mistérios

A gente cresce e parece que esquece da gente

A gente sente no corpo, as mudanças
das nossas andanças
Mas a alma não mente

A gente ama e chora
implora, jura que sabe
o melhor pra gente

A gente briga e sofre,
vai embora, nada é tão sério
quanto a dor da gente

A gente cresce e parece que esquece da gente

De quando era criança 
e todo mistério
se fazia presente

Das coisas bonitas
que podem ser ditas
assim, de repente

Menino, querido,
todo homem crescido
brota da semente

A gente cresce e parece que esquece da gente

E o maior dos problemas
é a gente quem cria
por ter esquecido
como é fácil sorrir












segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Sem você

O fim é um espaço entre nós
que, em si, nunca termina. O corpo.
Coberto de pele, feito de osso.
Meu corpo agora oco.
Por que Choras?
É agua que transborda de dentro, do fundo
do peito cheio,
que quase afoga.

No fim não reconheço
o contínuo recomeço
quem em mim agora mora?
É não querer ficar,
nem tão pouco ir embora
-quando tudo já se foi.


Do futuro fez-se hipótese
Da viagem, miragem
Do começo, memória
Da canção, vontade
Do sonho, o sono
Do sim, o não
Do todo, pedaço
Da força, cansaço
Do medo, abismo
De um, dois
De dois, distância
Do dia, dor
De dúvida, certeza
Do cheiro, falta
Do raso, o fundo
Do travesseiro, o mundo
De vazio o peito
De tanto, ainda
De inteira, fiz-me meia



domingo, 4 de agosto de 2013

A hora da saudade

Tentei hoje reparar com cuidado na tarde que vira noite.
O sol vai sumindo, sumindo, indo, até que foi. E aí a luz é um meio termo, nem clara, nem escura. As pupilas, ainda miúdas, se dilatam para saudar o véu azul marinho que se sobrepõe, se instaura e deixa tudo mais escuso.

Se existisse uma hora para a saudade seria essa que o sol se vai. A hora do vazio: a praia mais fria, a brisa que chega e as sombras que somem; é como um código secreto, o toque de recolhida: pra onde foi a multidão, o falatório e o calor de tudo isso? Calou. O dia despede-se das cores vibrantes, dos vendedores ambulantes. A "hora da saudade" antecede os bares cheios, o agito nas ruas, as pessoas que saem de suas casas esperando voltar com algo mais, nem que seja um porre.  É hora que transide e não demora: discreta, é preciso estar calmo para não perdê-la.  Na hora da saudade, qualquer silêncio vale mais. E as palavras que saem são todas crias dele.