quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
Do que se faz uma Maíra
Dos prazeres da vida, um dos grandes é escrever. Não costumo fazer listas e me causa certa repulsão essa mania de hierarquizar os gostos ou desgostos. Mas, caso as fizesse, certamente lá estaria ela, no topo do topo, a arte da escrita. Que é também a arte da permutação, a arte do exprimir e, por que não?, a arte de se entregar. Falsa ou verdadeiramente, a cada linha. Gosto de me entregar. De me despir em gestos novos e descobrir aos poucos outra de mim. Testar um novo movimento, uma outra rua, uma nova frase. E por isso falo pouco, penso que a comunicação se dá de muitas formas. Também, no topo da minha lista hierárquica, estaria a tangerina, porque não suja e deixa cheiro bom. Cheiro que me ajuda a pôr fim no cigarro. É que toda vez que desabrocho uma tangerina, lembro que meu olfato ainda existe, e tenho vontade preservá-lo só para sentir o cheiro das frutas. Menos da Jaca. Se dependesse da Jaca, seria fumante para sempre. Aliás, se tem uma coisa que desprezo é o sempre. Acho que a gente é feito de enquanto e por isso tento não pensar tanto. Pensar confunde a gente, faz a mente ir p’ra longe e aguça sentidos pouco úteis ao agora. Para que se inquietar com os grandes mistérios? Prefiro os detalhes. Antes do universo, entraria na minha lista um grão de areia. Um grão de areia, os noturnos de Chopin e um pé de manga que desse para subir bem alto, bem longe das pessoas. Sofro de claustrofobia aguda. Mas, pior que os elevadores, são os aglomerados urbanos. O que não quer dizer que eu não goste de gente. Pelo contrário. Acho as pessoas fascinantes. Nem todas, isso é verdade. Em geral, as menos alegres. E talvez por isso a tristeza me inquiete mais do que o riso. A tristeza esconde qualquer face do silêncio. No silêncio e na mentira, a gente se revela melhor. E isso também é verdade.
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
Manual para comer uma pinha
Comer pinha é uma arte. Pinha, também conhecida como fruta
do conde, cabeça de boi ou coração de negro. Porque do conde, do boi ou do
negro, isso é outra história. Voltemos ao que interessa. Regra número um,
antemão de qualquer ato é a consciência. É de extrema importância ter sempre em
mente a particularidade desta fruta. Pinha não é melancia, que se morde e se
esvai, se autodelicia. Não. A Pinha pede para ser deliciada. E cuidadosamente. Posto
isso, deixemos claro o segundo passo: pinha dispensa facas, garfos e demais
talheres ponteagudos. A delicadeza vem das mãos que a separa em metades. Eu
disse met-ades. Estraçalhar a pinha em mil caroços é comparável ao pecado de se
poupar às cascas de uma uva. Não tem perdão. Partida ao meio, a beleza se
mostra: uma média de sessenta longos caroços cobertos com fina camada branca e
mole, levemente adocicada. Oh, o paraíso mora aí! Terceira regra: A
contemplação. Nada de se esbaforir. Uma pinha pede calma. Após segundos de
observação, pegue uma colher e atente para não enchê-la – de três a quatro
caroços. Cinco, no máximo, somente para os profissionais da área. Agora sim, o quinto e mais habilidoso passo:
A separação. Prense o caroço entre a língua e o céu da boca. Com sutil movimento,
use a língua para retirar a fina camada de frutose que envolve a negra e oval semente. O movimento é sexy- e seguro: ida e vinda,
até rompermos a fina camada por completo.
Atenção! É preciso ter cuidado para não se deixar levar pelo êxtase momentâneo.
Para isso, atente à sexta regra: antes de sugar a doce camada goela adentro, separe,
na cavidade bucal, as partículas sólidas, pretas e alongadas, que lá restam: as
sementes. O canto inferior entre a arcada lateral e a bochecha é um local aconselhável
para guarda-las. Feito isto, pode-se engolir com segurança o doce macio que há
muito pede para ser devorado. Último passo: Cuspa, sem muita empolgação, os
negros caroços na palma da mão. Ainda que os una em um monte na fria superfície
de um prato, não se esqueça da sétima e mais importante de todas as regras: Jogue-os
em terra fértil, agradecendo e pedindo para que cresçam firmes e doces
novamente.
Contraindicação: Àqueles que sofrem de pressa, pouca paciência
ou excesso de classe.
Efeitos colaterais: Apetite insaciável. Desejo de quero
mais.
Assinar:
Comentários (Atom)