quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Bóia naufragada



É pesado só viver.
O que afundaram em você?







domingo, 23 de janeiro de 2011

Assalto, salta fora ilusão

Quem pensas que és
para de tirar de mim
o que não te falta
Sim,
meu sossego agora salta,
samba em outro endereço
meu sossego não tem preço
não tem prazo
só as pernas e o abraço
que me envolvem num acaso,
num espaço para dois
Quando o fim da canção dança
só me resta a esperança
de dançar mais uma vez
Quem acha que dançando
só se embroma mais um passo
Não arrisca o descompasso
de viver pelo talvez
Pois, meu bem,
já não é espanto,
quem não sabe que o encanto
não exige perfeição
Nada digo, tudo calo
Pelos olhos sei que falo
admito seu perdão
Pois agora já é tarde
Já roubaste meu sossego,
Me deixou sequer um "não"
O batuque da canção,
faz dançar a alvorada
é o fim da temporada
das promessas, dos amantes
Muda, arrisco mais um passo,
Sigo em frente, radiante,
Não verás em mim um traço
nem um rastro de ilusão
Pois, meu bem, minha mentira
é enganar meu coração
Já sabemos que o silêncio
é o embalo da paixão.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Conversa de indulgentes

- Cara, não foi assim. Não foi assim que eu percebi tudo. A questão é que crescemos acreditando em amor isso, amor aquilo, que merda de amor é esse que une duas pessoas a ponto de abandonarmos o infinito de pessoas no resto de todo o mundo? E por que? Por que essa necessidade de ter uma única pessoa ao lado para o resto da vida?

- Necessidade? Amor é necessidade agora? Palavras dignas de um machista nato. Necessidade é respirar, dormir e evacuar.

- Evacuar? Palavra digna de uma romântica insólita.

- Insólita, Bernardo?

- Engraçado, apostei que o "romântica" te incomodaria mais que o "insólita". Vai dizer que não? Você é completamente inabitual, Isa.

- Inabitual é um bom adjetivo. Insólita também seria, se não tivesse a carga de sarcasmo nada inabitual a você.

- E romântica?

- O romantismo hoje é não dizer ''cagar''? Que merda.

Os dois amigos se olharam com um olhar complacente, que só poderia ser compreendido assim, daqueles que não cabem ambiguidade ou mais reflexões. Tolerando com os olhos o que não seria retificado com risadas.

- O que eu quero dizer, Isa, é que o romantismo e o amor são duas coisas diferentes. Nunca duvidei do romantismo, pelo contrário, sou favorável a ele. É um rastro real do amor, porque não é mascarado. Todo mundo sabe que o romantismo é construído, e ninguém questiona isso. O que me incomoda é a naturalidade que as pessoas conferem ao amor.

- Você fala como que se o amor fosse uma lei. Um golpe de estado. Um truque de Adam Smith para reforçar o capitalismo. E o amor é tão óbvio, só não enxerga quem não quer. É simples: Se eu amo, eu quero estar junto, e isso não é imposto por nenhuma força oculta da sociedade, simplesmente se sente. Óbvio demais para ser inventado.

- O clipe é só uma presilha com função de mola para prender folhas e papéis. Bem simples, bem inventado.

- Nossa! Que comparação mais infeliz.

- Não, não é não. Aliás é BEM feliz, porque o amor também tem a função de prender pessoas. Caralho! Nunca tinha chegado a uma metáfora tão real: O amor é um clipe.

- Eu não tô ouvindo isso. E as pessoas são papéis, né?

- Pelo menos os representam o tempo todo. Os mais voláteis papéis.

- É, Bê. Você agora, por exemplo, tá assumindo o papel do "revolucionário dos trocadilhos".

- Viu só como concordamos? Eu não sou com a minha mãe o que eu sou com você e nem sou com você o que sou com meu chefe, ou com meu vizinho. Quando compro pão e mortadela toda manhã, o "bom dia" que desejo ao padeiro é o mais ordinário papel que assumo. Qual é o seu mais trivial papel?

- Talvez o da romântica insólita. E talvez por isso você não tenha se apaixonado por mim. Quem sabe? Jogar o seu jogo é tão fácil, Bernardo Campos. O amor não existe. Assim como a moda, como os vícios, como o mais reles dos papéis. É tudo tão bem articulado que não pode ser construído por nenhum ser humano. Tolo é amor? Tolo é você que confere a alguém a capacidade de inventar o que não existe. E se não existe nada, por que continuar vivendo? Vamos nos entregar e abdicar da vida, como o clipe que não prende bem e vai para lata do lixo. O meu palpite é esse: Basta acreditar que o clipe é um clipe para que ele exista para sempre.

- Isadora Reis, eu amo você.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Três Marias

Fria Fria
Noite cai
Manto negro perfurado
pontos claros
demarcados
cá em cima
tanto antes

Fina Fina
Agulha aponta
para a manta da menina
mãos,
outrora olhos aprendizes,
fiam fáceis
órion, hércules, seus cruzeiros

Minha Velha, cá embaixo
ensaia o balanço da cadeira
Maestra,
entre a dança de seus dedos,
linhas traçam
seus segredos

Noite e manta
E minha velha
Três marias de milênios
Uma estrela, que idade?
Uma ruga, qual o brilho?
Uma agulha no tecido
Ponto a mais
Noite a dentro
Noite passa
Ponto dentro

Noite e Manta
e Minha velha
Para sempre
Três marias