segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Juparanã - I

-Os menino! Vem comê!

Zuza, boa zuza. O grito ecoante dispensava relógios pra'quela gente. Céu de azul imensidão, sem rastros das manchas brancas, sumia em meio à copa de folhas verdes quando vistos pelos olhos de Calú, estirada no tronco daquele pé de manga.
Cada um dos quatro netos tinha seu próprio tronco, escolhidos sem democracia e sem contestação, critérios básicos da "Lei Calú". A lei fora criada por Calú, no seu sexto aniversário, oito anos atrás, e tinha como primordial o respeito à decisão da natureza, que escolhera Calú como primeira neta e, portanto, detentora das primeiras escolhas: Desde troncos de árvores à pedaços de bolo. Nada mais justo.

Descer do pé de manga era como retornar à realidade. Pés no chão, a caminho da casa grande, em direção ao burburinho de gente reunida na varanda de trás da fazenda. A vó Hilda de certo estaria lá, inquieta, inventando ocupações que agitassem a mesmice daquela paz.

-Zuza!
-...
Zuza!
-...
- Ô ZUZA!

Uma voz baixinha, que quase pedia para não sair, respondia com doçura:
- To indo, don'Hilda!

Zuza explicara uma vez, com justificativa certeira, o porque de nunca atender ao primeiro chamado de dona Hilda. Nada pessoal. Só respondia aos chamados, de quem quer que fosse, a partir da terceira vez. As duas primeiras podiam ser assombração tentando o espírito da devota, vai saber. Desde que ouviram tal explicação, Junico e Luca idealizaram um êxito em suas histórias de terror, até então resumidas em tentativas fracassadas de assustar dudu.

- Cade os meninos? Avisa que tá na mesa e que purê frio não alimenta igual.
- Sim senhora.

"OS MENINO! VEM COME!"

O segundo chamado da realidade não podia ser ignorado. E agora sim: Calú, pés no chão, a caminho da casa grande. "Tomara tivesse purê".

Calú sabia aproveitar o bom da vida, e sabia que o gosto de prazer não podia ser eterno. Nada é. Nem mesmo o purê de Zuza. E acelerou o passo, correndo contra o vento, sujando os pés descalços naquela terra vermelha.