E já havia perdido as contas. Já havia, inclusive, perdido as contas do quanto havia se perdido. Já havia sido Amélia, Alice e Aurora. Só cantava no chuveiro mas já fora como Janis Joplin; Batera um bolão como Garrincha, apesar de não gostar de futebol. De Chico, foi Carolina, de Tom, Luiza. Dos hippies, experimentou a paz e, mais, o amor; E como Colombina, sofreu por Pierrot. Já foi madame e mendiga, Chaplin e Tiririca. Já foi bombeira e era fogo, mas naquela quarta-feira de cinzas, somente era. Era esmalte vermelho descascado, era pós-banho, era calcinha e sutiã pensantes atirada na cama. Era aquela aflição nostálgica que quase dói, que aperta no fundo do peito e implora alto por mais um pouco. Por mais confetes e serpentinas, mais cores e fantasias, mais um resto dessa alegria tosca de quem encarna o que quiser e atira fora as máscaras da timidez e da sobriedade, só no carnaval. Por que o que seria de fevereiro sem ele? Para os complacentes, talvez, mais silêncio, menos fedor e engarrafamento. Para ela, para os amantes e apaixonados pelo carnaval, a resposta era ainda mais óbvia: Não seria. Porque isso era verdade: Só no carnaval todo mundo é enquanto deixa de ser. Homem vira mulher, branco vira negro e tem gente que vira Michael Jackson. As ruas viram avenidas e a multidão faz o desfile. No carnaval se bebe histórias e se conta cervejas. O que seria abuso vira brincadeira, a vergonha vira coragem, todo mundo se conhece e não importa o clima, no carnaval é sempre quente. E até as marchinhas que pulavam o carnaval do século passado, tocadas pelo menos cinquenta vezes em cada bloco, parecem inéditas, estranhas conhecidas que embalam os foliões pelo resto do dia. No carnaval, aliás, um dia se fantasia de dois e, assim como a disposição, parece não acabar.
Cabelo úmido, calcinha e sutiã pensantes ainda pensavam. E bebiam. Só para dar o gosto final, os últimos goles festivos que alegravam a memória, sambando cada vez mais no resto de mais um carnaval. E no meio do samba, pensavam cada vez menos e iam desistindo de tentar entender o porquê de tudo. Mas no fundo ela sabia. Sabia que tinha que acabar, que tinha que deixar correr o bloco e o dia raiar, sabia que no ano que vem teria mais. Tudo de novo e novo, como só no carnaval.
Cabelo úmido, calcinha e sutiã pensantes ainda pensavam. E bebiam. Só para dar o gosto final, os últimos goles festivos que alegravam a memória, sambando cada vez mais no resto de mais um carnaval. E no meio do samba, pensavam cada vez menos e iam desistindo de tentar entender o porquê de tudo. Mas no fundo ela sabia. Sabia que tinha que acabar, que tinha que deixar correr o bloco e o dia raiar, sabia que no ano que vem teria mais. Tudo de novo e novo, como só no carnaval.