quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Só no carnaval

E já havia perdido as contas. Já havia, inclusive, perdido as contas do quanto havia se perdido. Já havia sido Amélia, Alice e Aurora. Só cantava no chuveiro mas já fora como Janis Joplin; Batera um bolão como Garrincha, apesar de não gostar de futebol. De Chico, foi Carolina, de Tom, Luiza. Dos hippies, experimentou a paz e, mais, o amor; E como Colombina, sofreu por Pierrot. Já foi madame e mendiga, Chaplin e Tiririca. Já foi bombeira e era fogo, mas naquela quarta-feira de cinzas, somente era. Era esmalte vermelho descascado, era pós-banho, era calcinha e sutiã pensantes atirada na cama. Era aquela aflição nostálgica que quase dói, que aperta no fundo do peito e implora alto por mais um pouco. Por mais confetes e serpentinas, mais cores e fantasias, mais um resto dessa alegria tosca de quem encarna o que quiser e atira fora as máscaras da timidez e da sobriedade, só no carnaval. Por que o que seria de fevereiro sem ele? Para os complacentes, talvez, mais silêncio, menos fedor e engarrafamento. Para ela, para os amantes e apaixonados pelo carnaval, a resposta era ainda mais óbvia: Não seria. Porque isso era verdade: Só no carnaval todo mundo é enquanto deixa de ser. Homem vira mulher, branco vira negro e tem gente que vira Michael Jackson. As ruas viram avenidas e a multidão faz o desfile. No carnaval se bebe histórias e se conta cervejas. O que seria abuso vira brincadeira, a vergonha vira coragem, todo mundo se conhece e não importa o clima, no carnaval é sempre quente. E até as marchinhas que pulavam o carnaval do século passado, tocadas pelo menos cinquenta vezes em cada bloco, parecem inéditas, estranhas conhecidas que embalam os foliões pelo resto do dia. No carnaval, aliás, um dia se fantasia de dois e, assim como a disposição, parece não acabar.
Cabelo úmido, calcinha e sutiã pensantes ainda pensavam. E bebiam. Só para dar o gosto final, os últimos goles festivos que alegravam a memória, sambando cada vez mais no resto de mais um carnaval. E no meio do samba, pensavam cada vez menos e iam desistindo de tentar entender o porquê de tudo. Mas no fundo ela sabia. Sabia que tinha que acabar, que tinha que deixar correr o bloco e o dia raiar, sabia que no ano que vem teria mais. Tudo de novo e novo, como só no carnaval.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Teletransporte

Lembre-me depois. Não, melhor: Deixe-me esquecer. Fecho os olhos e faço meu próprio silêncio; Tampo os ouvidos e vejo um novo cenário, diferente desse ambiente tão excessivamente ambientado. Ocorre então a inversão dos sentidos, a mudança pela qual anseio a cada instante como esse. O zumbido de vozes, tão excessivamente conhecidas, vai se afastando, ganhando distância e perdendo intensidade, enquanto a chuva, figurante especial dessa noite, escapa de seu papel secundário e cresce: Molhando pra valer, se fazendo notar, dominando a cena principal com raios, trovões e ventanias. E eu me entrego, assim como ela, aos poucos. Aguço os sentidos e deixo vazar os pensamentos, a raiva, o impulso. Ah, ele não consegue se conter? Então que se vá, que se vá com as vozes para algum lugar escondido, longe de mim, não quero esta necessidade de discussão. Que chegue a chuva, que venha a música e todo seu silêncio, deixe que eles entrem. E de repente, há, me transporto...fui. Essa mínima liberdade é o que me faz tão bem, meu passaporte universal sem prazo de validade.
Mas é importante voltar, e voltamos sem perceber, já acostumados com o novo- até quando?- lugar. A mudança em mim já me conforta e estou pronta para retornar, iniciando o fim da pausa. Começo então a diminuir a música- pra onde ela vai quando termina?- e a chuva me acompanha, diminuindo também, voltando assim como veio, devagar. E deixo o pensamento se aquietar, o impulso já se foi. Destampo meus ouvidos, ouço as vozes conhecidas, tão excessivamente especiais. Abro os olhos e, ufa, estou em casa.