quarta-feira, 24 de agosto de 2016

esquece

um homem cortado por uma janela. metade dele é ela.

você sempre prometeu tanto que cumprir qualquer coisa já é um assombro.

faz uma lista e escreve "número um": encontrar o fulano que não vejo desde aquele ano de 68, desde aquela festa porreta na cobertura do prédio em cima do túnel, que cobertura, meu amigo!, que sala, que casa, que mulher. que mulher. escreve número um e pensa na letra D. escreve o nome dela em maiúsculas pra ver se não esquece, escreve e risca pra ver se esquece. feito chave de carro, número da loteria, caneta bic em mesa de bar, óculos na cabeça, esquece feito aqueles soldadinhos da árvore de natal e a tampa do liquidificador que você nunca achou, esquece e tira uma selfie cheia de dente pra garantir que esqueceu. não, melhor: esquece e tira três selfies faz um boomerang manda um áudio praquele grupo do whatsapp, não!, esquece, melhor esquece e manda um nude pra amiga de ontem, engasga com a tripa do peixe e vomita pra ver se esquece,

esquece.
faz uma lista e escreve: comprar bananas. e sente só o assombro!








quarta-feira, 17 de agosto de 2016

barrir

mas você está ótima para os 25, ela me disse, ótima.
camila, se eu te contasse como foi difícil dormir na noite passada, se você soubesse dos elefantes que marchavam na minha cabeça. talvez até tenha um perdido por aí. como a gente chama o uivo dos elefantes?
camila tem uma lupa nas mãos e esses olhos gigantes examinando minha bochecha, meu nariz, meus cílios. camila, como você é branca!, é tudo branco, as paredes, essa maca branca onde eu tô deitada e essa luz tão feia também é branca.
impressionante, ela me disse, impressionante. 25 com pelinha de 18.
peninha? nossa, aos 18, eu não sabia o que era ressaca. bebia até de manhã duas noites seguidas e acordava na terceira dentro da sala de aula, entende? aos 18 tem quase dez anos e isso é a idade da minha prima menor. aos dez anos eu sabia muita coisa, há dez anos eu sei cada vez menos.
camila estica o indicador de plástico branco em minha direção. posso tocar? é de verdade?
mais ou menos, camila, algumas pintas eu mesma pintei. essa do queixo, por exemplo.
adoro o seu queixo. o que você passa pra ele ficar assim?
camila, tá vendo essa ruga no meio da minha testa?
passa uréia que some!
ela nasceu ontem e eu já sou completamente apaixonada, camila, depois de quantas vezes será que um movimento vira marca? camila, quer ver minha cicatriz do joelho? eu consegui num telhado, tomei sete pontos e três doses de antitetânica pra evitar a morte boba e a hipocondria séria. sangrou dois baldes e eu só conseguia sorrir de tão bonito que era anestesiava a dor.
essas bolinhas aqui na sola pé, consegue ver? são aquelas pedrinhas cinzas que ficavam perto da piscina lá do sítio de friburgo, sabe, friburgo é um lugar frio do Brasil, mas não tão frio quanto aqui
camila esparrama um gel gelado na minha barriga e o estetoscópio no peito
quando eu sinto frio minha pele enruga que nem pele de galinha, você já viu uma galinha?, camila, quando eu era pequena tinha medo de pato, mas adorava chegar mais ou menos perto porque no fundo eu sabia que eles não podiam me matar. camila, eu arrepio fácil, olha só como esse pêlinhos levantam no braço! camila, você já sentiu uma montanha russa na barriga?
tudo congela. tudo. do jeito que tá, a camila, eu, a sala branca. tudo congelado por um, dois, três e um barrir agudo ocupa a gente. tudo treme, os olhos dela nunca foram tão grandes, camila, você encontrou!, camila ri uma ruga pela primeira vez em 180 anos
e a ultrassonografia mostra em 90 polegadas um elefante branco enorme que nada por mim

conto de rua 2

na tela preta, a frase branca:
te conto em pausas. Imagina assim. Uma mistura. Filme mudo em stop motion.

é dia e as coisas todas da rua passam rápido, como se corressem: árvore, pessoas, prédios, a mulher gorda com o pão debaixo do braço me acena enquanto passa também, já foi. obra: um trator quebra o chão e eu saio por debaixo da terra numa escada rolante de metrô que me tira do lugar sem nenhum movimento muscular meu, meu, eu olho só pra você. meu rosto cada vez mais perto, reconhece esse nariz?, dá até pra ver a sobrancelha mal feita. você pisca, eu sumo.



terça-feira, 16 de agosto de 2016

gif legal


























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conto de rua 1


Uma avenida muito larga. O bonequinho fica verde. 10 segundos para os pedestres. Amontoado de pessoas avança em direção ao outro lado da rua. Na calçada, só fica seu Antônio, que cochila em pé, ali mesmo. 7 segundos. Um jovem passa correndo. Seu Antônio desperta assustado. Ele olha para um lado, olha para o outro, não sabe bem onde está – se bem que isso tem acontecido com frequência nos últimos anos. 4 segundos. Ele apruma a bengala, se prepara para dar o primeiro passo. 2 segundos. Ergue a bengala, olha para frente.  1 segundo. Primeiro passo. Bonequinho vermelho. Carros buzinam.  Um passo pra trás. Um amontoado de novas pessoas se acumula na calçada. Seu Antônio some entre elas. Bonequinho fica verde. 10 segundos. Amontoado avança. Só fica Seu Antonio, que cochila em pé, ali mesmo.