sexta-feira, 17 de julho de 2015

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tão frágil quanto 

a folha que no exato segundo se desprende da amendoeira e, no zigue-zague do vento nunca despenca mas pousa na superfície do paralelepípedo nem um milímetro a mais nem um a menos de onde ficou- até que não se fique mais.
Até que o carro passe até que o passo apressado na Floriano Peixoto
até que a bengala do idoso de Copacabana
-tão frágil quanto a formiga que no azuleijo azul e branco da cozinha carrega um despedaço da folha da amendoeira ventada pela bengala de Floriano Peixoto na orla de Copacabana em outubro de 1884-
a tire da inércia.
tão frágil quanto o tempo dos romances -que até Graciliano tem sua última página-
o tempo que começa antes do prefácio e continua até depois do fim,  limitado em areia e grão mas que nunca termina até que se quebre a ampulheta
tão frágil quanto a prisão
quanto o relógio cuco que não para que não para que não para que não para-
até que se pare um dia.
como o coração
como a puta que pariu um negro um pobre um infeliz tão frágil quanto
a dor do útero que se desfaz
a dor do corpo contraído
no chão
tão frágil quanto o alívio
da água corrente que de tão quente também seria dor se não aliviasse a dor maior
ar-dor
tão frágil quanto a palavra
quando se desfaz e nem sempre fica menor, ou melhor, ou menos brega-
tal qual o amor
quando hiato
entre o sim e o não
entre você e eu
entre dois continentes
quantos oceanos?
a fronteira entre Minas e o Rio é uma ponte em Mauá tão frágil quanto
o silêncio antes do espirro o grito antes do espasmo minha imagem diante do espelho
no instante preciso em que o sol sumiu no horizonte e então se era dia agora não se é mais,
tal qual o amor
tão frágil matemática quanto a fórmula de Bháskara
menos b mais ou menos a raiz quadrada não importa
a sequência de acasos que impedem o encontro entre duas pessoas que atravessam as ruas em sentido contrário e que não se encontram porque hão de se encontrar dali há três anos e cinquenta e dois minutos entre copos virados da madruga ou cafés da livraria ou, não importa, porque só dali há três anos e cinquenta e dois minutos o encontro há de ser um encontro.
Tão frágil quanto a pele e a bala que na Guerra do Golfo, no Alemão e na Maré rasga o tecido e rompe as células e mata a frágil matéria de que são feitos os homens. De que são feitos os homens?
Tão frágeis quanto os sonhos e o peso do teu corpo sobre o meu,
feito duas retas paralelas que nunca se cruzam e só se encontram no infinito.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

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testa na testa se ama melhor

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Poderia te encontrar transeunte estrangeiro
esbarrar contigo na fila do supermercado
no vão da porta da livraria
quando eu entro e você sai 
Poderia ser você amigo do amigo do amigo do bar
e entre copos virados, o encontro
um encontro nunca é um só
Poderia ser na padaria
se eu acordasse um pouco mais cedo, 
se eu soubesse talvez não fosse, 
mas sem espera, não tem pressa,
(não preciso de despertador pra te encontrar)
se eu acordasse um pouco mais cedo
cedo demais, 
se o xampú caísse no banho 
se eu derrubasse o café na cama
se o cão pedisse volta
se a vizinha puxasse conversa
se eu deixasse o disco correr
ou dançasse a música
ou descesse pela escada,
ou, e, mas, mais
nada.
Quantos acasos são precisos para a gente se encontrar?