Lembro de uma série de coisas. Das tartarugas esmirradas compradas em sacos plásticos na feira da praça. Do tempo em que carnaval não cheirava à cerveja e a graça não estava além do quintal, dos sprays de espuma, das guerras de confetes, fantasias de Batman e cigana. Lembro das noites frias, iluminadas por lampião e o mistério dos copos que guardavam água, óleo e fogo. Passagens secretas, formas, rostos e onças pintadas. O homem-baleia gravado nas marcas do tempo sobre a madeira. A piscina que era mar e nossa alegria nos dias mais longos. Churros na porta da escola, o cheiro de giz, banhos de mangueira, o dia que choveu granizo. Do outro lado da memória estão os dias mais quentes, os pés na lama, os galhos e as pontes dos netos. Brincadeira da roça, primos distantes, os sotaques carregados e as charretes também. Acampamentos na carvoeira, liberdade de cavalos, histórias que me faziam sentir especial diante do mundo. O mundo era meu e eu tão dele.
Um dia a gente acorda e as pernas não são mais pequenas e nós, menores do que nunca. Fica difícil saber quando se perde o passaporte, quando o mundo fica grande e dos outros. É que se a gente não tá atento, a criança cansa de não ser escutada, pega o mundo pelas mãos e vai dar uma volta com ele. Que eu tenha calma, ouvido e coragem pra confiar no que me sussurra a criança daquelas tardes que via nos piscas-piscas de uma árvore, a beleza do mundo inteiro. Chama a criança pra perto e embarca nessa viagem com ela.