sexta-feira, 4 de junho de 2010

Corda Bamba

Dias cheios demais. Abarrotados de ações, falas, caminhos, sempre iguais. Calma, pronto: Prometo não reclamar. Não, mentira. A crítica é positiva, e é pedir demais pra abafá-la agora, justamente agora, nesse momento em que as dúvidas estão em fase de crescimento e eu fomento descobertas. Já sei. Podemos ter um acordo, desses que duram pouco, como quem anda na corda bamba, tendendo em ameças de queda, de braços abertos mas com a mente focada, fechada, presa ao único objetivo de equilíbrio máximo. Feito.

Começo a travessia. E como minha parte do trato, prometo não divagar sobre o que falta, sobre a falta que sinto, a falta que faz ou o que - de fato, tanto- falta nessa gente. Não prometo ser sucinta, pois é assumir uma queda livre, é cortar, antes mesmo do primeiro passo, a minha corda.

Falo hoje do que sobra. Do excesso que nos leva, em um fluxo cegueta, ao extremo oposto de nós. Sabem do que falo? É aquela fome que não é vontade de comer, fome de salivar por pensamento, necessidade do prazer de exercitar a mandíbula e em um movimento monótono e afobado recuperar o bom-humor perdido junto com a energia ao longo do dia. Pois é. Fome tão intensa que perdemos a fome. A barriga dói mas já não sabemos o gosto que falta. É doce ou salgado? É sólido ou líquido? Abro a geladeira e... Eis que o nosso pote de comida inexistente não está lá. E é ele que eu quero. Pronto, tanta fome que perco a fome.

Ponta do pé e o primeiro passo foi dado. É assim que é escrever. Um meio tombo de sentido, um foco no que está perdido, vagando pelo mundo em corda bamba. Acorda! É a corda que você pisa! Em equilíbrio, ou não, mesmo em queda livre, é você que direciona. Então, foco.

Muito trabalho, muitas páginas para ler, muitos roteiros, muitas idéias, lugares, planos, muito tudo e tanto que, sabemos, temos que e (nem sempre) queremos fazer. Trocentos projetos para um final de semana e, finalmente, - Já estava quase caindo, na metade do caminho, equilibrada em braços e vento - chega o sábado! Ufa. O dia das tarefas. Vou me livrar de tudo. Vou? Não, claro que não. Preciso respirar, preciso descansar, preciso de distância. E de repente, em frente a uma tela, me vejo sem nada a fazer. Nada. Da corda bamba dos afazeres e compromissos, eu me rendo e me jogo sem medo na cama elástica da preguiça. Cama elástica SEM MOLA.

Estou quase lá. Quase chegando ao outro lado, já me sinto familiarmente flutuante. Meus dedinhos, naturalmente espremidos por sapatilha, se libertam e tocam os fiapos ásperos da corda como que se caminhassem sobre o campo coberto por um verde vivo e macio. Vivo.